quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fugaz (I) e (II)

De um amigo (Allan)



Fugaz

Risco enorme fazer juízo de uma situação sem conhecê-la. 
Mais ou menos como crer que se desvenda a hora de uma estrela 
tomando-a pelo brilho frio, fugaz que ela encerra
aqui na noite da Terra.

E como um ponto vira conto (ou poesia!)...

Fugaz (II)

Ora, pois
vejo estrelas,
distam dos meus olhos
solares quilometragens
Contudo, 
com tantos hiatos
fugaz é o fato
de querê-las brilhantes
como topázios
ou diamantes,
na escura caverna
carbônica de mim.







quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um terço

Motivações reais de uma manhã de atendimentos onco-hematológicos...

UM TERÇO

Sinto um cansaço,
que me habita,
de maneira inesperada.
Correr, não posso.
Do trabalho,
deram-me uma distância,
um afastamento indeterminado,
pelo tempo de meu tratamento.

Na verdade,
sinto-me ausente,
sou hoje,
um terço do que era,
em que lugar,
terreno ou lunar,
encontram-se
os dois terços de mim?

Um terço, talvez,
vague sem destino,
sem blastos ou calafrios,
por campinas verdejantes.

Outro terço,
tão asfixiante,
pela querência,
pode, imprecisamente,
caminhar pelos cantos,
ora feliz, ora em prantos,
na oscilante busca de uma convalescênça.

Espero,
ou melhor,
acredito,
que não hoje,
nem amanhã,
quem sabe no próximo verão,
os terços se enovelem,
e num consenso,
decidam uma vida sem recortes,
sem este tom febril,
e este gosto azedo,
de sebo,
nos lábios trincados de esperança.

Mas,
se do terço que me sobra,
a decisão,
negra,
e insossa,
for a fatídica, a fantástica,
que não me sejam derramadas,
nem lágrimas, nem cálices de lamentos,
pois, nuns poucos momentos,
mesmo em terços,
fui inteiramente humano.