segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Os muros e as muralhas e minhas lamentações

Sobre as aclamadas internações involuntárias promovidas pelo governo Alckimin.


Os muros e as muralhas e minhas lamentações

Em minhas leituras de férias, com certo tom de desordem e espanto, tal como é de costume minhas incurssões literárias neste período, quando nos defrontamos com textos e escritos escondidos ou misturados a outras tantas tralhas do cotidiano, só acessíveis no ócio, encontro forças para retomar a escrita de vida, uma escrita de confronto, suscitada recentemente pelas últimas notícias frente a postura do governo paulista no cuidado dos usuários de substâncias psicoativas sediados nas chamadas “Cracolândias” (como se nesses pampas só vivesse o Crack, e não o poliuso de substâncias, ou mesmo a fome, a pobreza, a violência em suas múltiplas facetas, ou ainda, outros sentimentos de resistência, pouco enfatizados nos telejornais, como a esperança, a vontade de mudança, a persistência).

Num desses textos de espanto, encontro a menção de um conto de Kafka que versa sobre um imperador chinês que ordenou a construção de uma muralha para proteger suas terras dos bárbaros. Contudo a arquitetura da muralha era um tanto porosa, pois foi construída a partir de grandes blocos esparsos, com lacunas quilométricas entre os robustos rochedos armados que lhe davam forma e corpo. Ou seja, tratava-se de uma muralha inofensiva, uma muralha-fake, no claro e corrente anglicismo do internetês. O pior era que o imperador ordenou a construção da muralha já sabendo que o inevitável já ocorrera: suas terras já sediavam a morada de diversos bárbaros, tendo alguns já, inclusive, sitiado a praça defronte ao palácio imperial!

Este conto me remeteu de maneira chocante a atual postura de se lidar com os usuários de drogas que tem como morada as ruas, não só na capital paulista, mas nos grandes centros urbanos brasileiros. Parece-me que as políticas governamentais agem tal como fez o imperador chinês: além de não quererem enxergar o “problema” de uma maneira ampla e realista, querem construir atividades maquiladoras que tentam acobertar o inevitável. Uma dessas maquiagens mais perfumosas e encantadoras pode ser a tão aclamada terapêutica da “internação involuntária”.

Como futuro residente em psiquiatria seria um ingênuo se dissesse que a internação deva ser abolida das práticas de cuidado em saúde mental no Brasil. Embora a frente da “Reforma Psiquiátrica” tenha galgado muitas vitórias para a inserção dos pacientes portadores de transtornos mentais no mundo real, extra-muros hospitalares, cabe dizer que a internação continua sendo uma alternativa terapêutica desde que seja planejada, de temporalidade breve e que não venha desvinculada da necessidade de se construir redes de suporte e seguimento dos pacientes tanto pré quanto após o internamento.

Tal atitude de enfrentamento de puljança e caráter abrangente, pouco frequentadora dos discursos políticos por ser custosa (nos quesitos financeiro e de “labor” terapêutico), acaba por depositar esperanças demais em uma muralha fenestrada, tal como fez o dito imperador chinês. O que adianta internar um morador de rua sem ter, em conjunto com esta prática, uma série de outros arranjos que permitam a inserção social, o retorno a um abrigo, a reconstrução de vínculos familiares ou mesmo a capacitação e geração de renda amparando o processo terapêutico de detoxificação química? Não seria melhor, ao invés de se construir muros e muralhas, encarar o problema da dependência química sem rodeios, tendo em vista seus pilares individual, social e aos aspectos inerentes as drogas de abuso?

Em alternativa a construção dessa muralha, que em curto prazo será aclamada, tal como é a muralha da China, por seus aspectos imediatistas e visuais (tendo em vista que as ruas sem seus “craqueiros” não terá mais aquele “encômodo” perceptível, trazendo a “segurança e a liberdade” tão sonhados aos moradores que se veem “assustados” com tal situação desumana), deve-se ir além da falsa sensação de resolução de problemas pela tática do distanciamento e isolamento dos mesmos longe dos olhos. Contudo, o aporte a iniciativas eminentemente truculentas e sem diálogos francos traz à tona o fantasma de épocas passadas em que os “anormais”, os fora da norma, eram todos assumidamente tidos como “loucos e dementes” sendo trancafiados sem terem seus desejos e anseios atendidos. Por questões humanitárias criamos mais muros, mais hospitais, mais clausuras, sem pensar que a complexidade do tema “dependência química” requer esforços hercúleos e multifacetados tanto do campo da saúde, quanto da justiça, dos direitos sociais e da geração de renda e emprego.

É uma pena que se continue a construir com tanto afinco mais e mais muros, sem ver claramente que “os bárbaros” já estão no nosso cotidiano, na praça imperial, e que resistem ao abandono das políticas públicas sentindo em seus corpos a navalha da desigualdade geradora de uma vida hostil e intensiva que é o retrado escarrado da vida nas ruas. E, infelizmente, ao ao invés de se reconhecer a postura cega e de condizência social com tal abandono, se continua a apostar nos muros, nas muralhas e nos blocos monolíticos das “Casas de Deus”, nome antigo dos hospitais, na França, como o novo condomínio aos antigos moradores das terras áridas das “Cracolândias”.

Fabrício Donizete da Costa, 25 anos, médico generalista pela FCM-UNICAMP, futuro residente em psiquiatria pela mesma instituição.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Forum de Medicalização da Vida da Criança e do Adolescente - O mito da Ciência

Participei do Segundo Forum "Medicalização da Vida da Criança e do Adolescente", em Campinas, na UNICAMP. O tema das palestras versava sobre "O mito da ciência". 

Certamente, tratou-se de um espaço de muita reflexão sobre a relação que tem-se construído na atualidade com os medicamentos que, em última análise, traz diversos questionamentos sobre a clínica e o cuidado que se tem dedicado às crianças e aos adolescentes.

Falas muito importantes e potentes povoaram o Fórum!

Pela defesa irrestrita da vida, não há conflitos de interesse, como bem nos lembrou Profa. Cida Moysés. Em  sua fala sobre os mitos que povoam o diagnóstico e tratamento do TDAH, numa coerência franca e forte, a médica foi capaz de contestar o discurso hegemônico sobre o tema, sobretudo aquele ecoado por "cientistas", "pseudocientístas", pais e, porque não pessoas taxadas de portadores de TDAH.

A ausência de evidências científicas que comprovem o valor terapêutico das drogas usadas para o tratamento do TDAH, bem como a vasta literatura que traz como eficaz a orientação familiar frente a medicalização, fica nítida a influência de outros setores na propagação da medicalização das crianças e adolescentes.



Profa. Dra. Cida Moysés, Pediatra, uma das organizadoras do evento e militante do movimento contra a medicalização da vida da criança e dos adolescentes.

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A vida vaza! Contra as ações microfascistas!

Mehry, em uma fala sempre apaixonante, trouxe diversos elementos para se entender a complexa rede de confrontos que se tece pela construção de subjetividades no campo social. Para o impulso de dessubjetivação, surgem diversas formas de subjetivação. Esta luta, constante, a disputa desse espaço social, tem a medicalização como um de seus fios condutores. O sanitarista traz suas novas experiências com "os sinais que vem da rua", que trazem diversas reflexões frente ao manejo de existências em que a vida vaza pelos póros e represas representados pelos modos de viver regulamentados e tidos como "normais".

Para se entender a questão da medicalização e suas linhas perfurantes, capilarizantes, há que se entender a fina trama do desejo que regula os modos de existência num mundo capitalista, em que práticas microfascistas podem existir e que subrepticiamente criam clones humanos ao invés de vidas, que per se, tem na aparição das anomalias como expressão primeira de sua resistência.

Um conjunto de palestras motivantes, inquietantes e repletas de encômodos, como defrontar-se com uma rã no ralo, como nos lembra Manoel de Barros.



Prof. Emerson Mehry, sanitarista da UFRJ, que falou sobre os "Sinais que vem da rua".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O governo de si e dos outros, em alguns apontamentos

Neste momento de "limbo" em que me encontro, entre provas (e seus comemorativos físicos como dores cervicais), concursos, no aguardo da documentação (vulgo número do registro no CRM) para procurar um cargo de médico generalista neste mundão de nosso-senhor-jesus-cristo, resolvi retomar minhas leituras do filósofo francês Michel Foucault. Páginas notadamente sempre instigantes e que exigem fôlego!

E para (re)começar, por que não pelo último livro publicado? Por que não começar de suas últimas aulas no College de France? Pois bem, esta foi a minha iniciativa. Estou lendo "O governo de si e dos outros", compilado de uma série de aulas do curso ministrado entre os anos de 1982 e 1983.

Trarei algumas reflexões sobre a primeira parte da palestra datada de 5 de janeiro de 1983.
Procurarei fazer o mesmo com outras aulas presentes no livro, de acordo com as possibilidades (reflexivas, produtivas, construtivas, temporais e criativas) que me forem dispensadas.

Então, começo!

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Foucault inicia seu seminário retomando alguns marcos de seus trabalhos pregressos, uma tentativa de síntese de todo um percurso produtivo de conceitos, seminários, livros. Conta que ao invés de se debruçar na tentativa de compreender uma "História das mentalidades", ou uma "História das representações", seus estudos buscaram compreender uma certa "História do pensamento".

Mas como?

Para desempenhar esta árdua tarefa, Foucault usou como recurso, os focos de experiências que se subdiviam em:

a) Os Saberes possíveis de um determinado momento histórico e cultural;
b) As Normas Comportamentais que regiam as relações sociais;
c) Os Modos de Existência virtuais para sujeitos possíveis num dado momento histórico.

Portanto, pela articulação desses focos de experiência, cada um com suas contribuições, se garantiria a consolidação de uma "História do pensamento". 

Ou seja, pela experiência na cultura, com seus saberes heterogêneos, aliadas à matriz de conhecimento vigente, com suas normas (que cursam com o "estabelecimento de um certo tipo de normalidade") que, finalmente, integrariam-se a um certo modo de ser do sujeito normal criariam a atmosfera de vida desta "História do pensamento".

Para compreender estes focos de experiêncais, Foucault irá buscar destrinchá-los, cada uma à sua maneira, retomando pontos vitais, como:

(a) Quanto aos saberes, fará uso das práticas discursivas e as regras de veridicção (regras que permitem construir o que é verdadeiro num dado momento histórico  e cultural);

(b) Quanto às normas de comportamento, utilizará as técnicas e procedimentos para conduzir a conduta do outro (a biopolítica), que conduzirá a criação de uma norma, o entendimento das relações de poder, a noção dos procedimentos e finalmente a construção de uma governamentalidade

e finalmente,

(c) para entender os modos de existências possíveis virutualmente, fará o deslocamento do sujeito à análise de formas de subjetivação, advindas das técnicas ou tecnologias da relação consigo, numa constituição de uma "pragmática de si".

De forma sistemática e resumida, Foucault expõe sua metodologia de pesquisa que visa compreender a "História do pensamento". À partir desses passos metodológicos - os saberes, as normas, as tecnicas de si -  seus estudos tomaram o corpo expressivo que até hoje influenciam nossos conceitos e enfrentamentos atuais.

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Um Acontecimento

Este conceito, de acontecimento, é trabalhado pelo autor, no final da primeira metade desta primeira aula de 1983, ao retomar um texto de Kant, "Was ist Aufklärung?" (O que é esclarecimento?). O que seria um acontecimento?

Um acontecimento, para um filósofo que se interroga frente a esse "nosso", que o constitui e que exige de si apontamentos, está ligado ao valor de sinal que lhe contém. Ou seja, um acontecimento apresentaria um valor de sinal rememorativo, demonstrativo e prognóstico simultaneamente.

E para exemplificar este acontecimento, o autor cita a Revolução (e se debruça sobre a Revolução Francesa) para exemplificar suas características ou sinais que lhe garantiriam o posto de "acontecimento".

A Revolução seria um acontecimento, não porque irá implementar grandes mudanças na organição social vigente, ou porque irá destruir grandes monumentos representantes de um passado opressor, mas porque a Revolução vai muito mais além do que seu foco, seus revoltados, suas palavras de ordem, seus protestos, seus espetáculos... A Revolução é um acontecimento porque de certa forma tem uma dimensão contagiante,  que arrasta como uma onda outros envolvidos neste caldo efervecente.

Assim, por portar, segundo Kant, "uma simpatia de aspiração que beira ao entusiasmo", a Revolução é um tipo de acontecimento, composto por sinais de rememoração, demostração e de prognóstico.

E o que fazer da vida atual, senão a busca por acontecimentos? Será que o entendimento do atual não nos exija averiguar a existência desses acontecimentos?

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aos vivos que aparecem...

Eis que brota mais um texto, entre tempos de silêncio (propício a germinação do inesperado?)
Não do silêncio das vozes, dos travesseiros mudos.
Um silêncio de mãos, que estavam atarefadas em outras lutas.
Aliás, tais mãos, com seus dedos rápidos e sensíveis querem atrelar resistência à escrita.

E eis que surge uma nova postagem, na perspectiva de preparar este solo em dormência, arando-o neste prefácio, para cultivar novos e variagados assuntos e inquietações, visando a colheita vindoura, de palavras e pensamentos.

Para aqueles que vida e crise se complementam, dioturnamente, como um pão e sua salgada margarina, fica o convite ao deleite desta travessia!

Aos vivos, que deveras apareçam.
Contra o estático mal-estar de uma asia socialmente construída!
Avante!

Fabrício D. Costa

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Meninos da Candelária


(Poema oriundo da tentativa de metabolizar uma peça teatral do FEIA - Festival do Instituto de Artes (www.feia.art.br) - entitulada "Agora e na hora de nossa hora", de Eduardo Okamoto, que muito me resgatou dos desafios da vida. Revendo um Menino da Candelária, lembrei da Menina do Viaduto Cury, os Meninos do Spina e outros tantos que vivem entre as pedras do caminho...)

Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedra
vivem os meninos da Candelária

São pequenos,
raquíticos,
meninos farrapos,
perambulantes entre os cascalhos,
os passos lisos dos solos paroquiais.

À noite,
os ratos dialogam
com os Meninos da Candelária
E a escura e fria,
transição dos dias,
fica clara,
entre isqueiros e pedras,
quando a lata queima
pesadelos e dores
fumados repetidamente,
de segunda a sexta-sempre
raticida vida,
dos Meninos da Candelária

Orações mudas aos meninos,
marmitas repletas,
roupas rasgadas,
sonhos dormentes,
vidas explosivamente cristalizadas
como pedras
no couro dos Meninos da Candelária

Eis que num dia,
como outrora,
em epifanias,
raja dos céus,
as balas encontradas,
a carne queimada por tiros,
a língua cortada por tiros,
os sonhos dormentes,
os gritos pertinentes,
nada mais rasga a noite
dos Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedras,
entre as lápides de pedra,
entre os fumos das pedras,
repousam,
sangue e sonhos,
dos Meninos,
da sanguínea Candelária.


domingo, 9 de setembro de 2012

Clínica e Biopoder

Hoje, encontrei mais um daqueles textos que quando lidos o título não conseguimos ignorá-los. 
Não me lembro do título na íntegra mas trazia duas palavras marcantes para mim: Clínica e Biopoder. 
Dois conceitos com os quais tenho atravessado páginas e páginas de leituras, conceitos que tento trazê-los vivos nos meus atos cotidianos, mais precisamente, nos muros do hospital em que findo a minha formação médica, neste ano, no nível da graduação.

O texto trazia apontamentos frente a contemporaneidade, em que se dizia que este período histórico era marcado pela necessidade de uma situação crítica, que nos impulsiona ao exercício crítico do instituído, bem como a urgência pela experiência de crise. Para tanto, o conceito de Clínica não podia ficar limitado a sua origem etimológica que notadamente ilustra o ato de se inclinar, de se debruçar frente ao leito que porta um paciente enfermo. Exige-se, portanto, um novo entendimento da Clínica, ou mesmo a busca de uma nova Clínica.

A Clínica da contemporaneidade embora mantenha elementos originais do processo de se inclinar perante ao enfermo, desenvolveu  a tendência de se inclinar inclusive perante ao seu próprio processo de produção. Em outras palavras, a Clínica contemporânea se dá na produção de um desvio. Neste desvio reside a necessidade de se habitar em um terreno em produção, em construção, portanto uma utopia (de u-topos, de um não-lugar, um lugar por vir, um devir). A prática do desvio, ato desta Clínica, compreende o compromisso com os processos de produção de subjetividade, estes capazes de tecer resistências (ou repetir capturas) de acordo com as formas de se operar frente a malha fina e imperiosa do Biopoder.


Michel Foucault - filósofo francês cuja obra ainda se mantém viva para o entendimento da Clínica contemporânea


Assim, para entender os agenciamentos necessários para dar vida a esta Clínica, Foucault nos apresenta o conceito de Micropolítica, entendido como o plano de engendramento das palavras e das coisas, que versa de maneira categórica com a potencialidade política que germina da postura de se encarar a Clínica como produtora de desvios.

No plano da Micropolítica, cabe lembrar a necessidade de se entender as mudanças estruturais em que as sociedades foram expostas entre os séculos XVIII, XIX e XX. Passa-se de uma Sociedade disciplinar, cuja instituição principal é a prisão, um espaço estriato, que deixa suas marcas e molda os corpos frente as leis, normas e condutas que lhes são típicas e vitais para uma outra forma de se entender a sociedade, que não mais adjetivada de disciplinar recebe a alcunha de Sociedade de Controle, espaço liso, em que as modulações reguladoras imperiantes são voláteis e esfumaçadas, terreno em que o controle se apossa cada vez mais profundamente da vida, de sua privacidade, em seus mínimos detalhes, de maneira praticamente "invisível" aos olhos pouco atentos. Sociedade de controle que irá inclusive alterar conceitos essenciais como os de "vida", ao implementar a Biopolítica, um dos braços do Biopoder, o poder que se imprime de frente à vida. 

Um breve mergulho de uma leitura que tenta concatenar algumas das implicações dos estudos foucaultianos ao entendimento da Clínica. Um oceano ainda de águas turvas e ondulantes. Só não me falta fôlego!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Gramática erótica


Eu cedo
Tu cedes
Ele,
sede.