segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sem sal

Sem Sal

Sabe o que mais me irrita em você?
É que você é tão previsível,
tão morno,
tão bolacha água e sal!

Acredita nos editoriais,
dá risada dos comerciais,
fala de política,
como se vendesse balas no semáforo!

Isso é de dar nos nervos,
ouvir sua conversa muda,
que só grita com os olhos,
ou quando te insulto,
com impropérios,
ou indultos.

Irrito-me a certo ponto
que desejo-lhe
nos momentos em que me afogo
nas torrentes da raiva
que você tome morada
eterna e gelada,
nas sombras eternas,
para não mais me coçar
com as pulgas da paciência,

Contudo, 
num segundo,
já revolvo as opiniões,
grito de joelhos,
lamúrias e perdões,
e justifico
que ser sem sal,
em meio a obesos,
hipertensos e bufões,
pode até ser uma palatável,
deglutível e suspirável,
prato encorpado, 
se bem acompanhado,
um caldo de relação!

Barbas

Barbas

As barbas estão tão na moda,
assim como
as mentiras cotidianas,
os abraços esterilizados,
as falas de elevador,
as sombrinhas desmontáveis,
os contatos de conveniência,
os contratos com suas reticências...

Sim, as barbas estão na moda,
estão em toda a parte,
canto ou face,
escondem o encardido,
os restos de sorte,
as revoltas de épocas
nervos e livros,
no avassalador descuido,
roedor da roda.

A barba toma conta,
dos cantos,
dos encantos,
vai plantando,
em cada póro,
uma vegetação espinhosa,
na aridez da caminhada arrastada,
piniquenta
ouriçada,
das minhas trilhas fasciais

Mas um dia,
num átimo,
numa fúria cortante,
cega e amolada,
na sangria de uma lâmina,
ponho fim,
nesta crosta de fâneros,
pêlos,
gritos,
sonâmbulos
roço esta implacável máscara,
dando fronte,
a afronta,
de ter a cara,
limpa,
aos tapas da vida.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Dias sem palavras

Escrita livre, amarrada ao sono, arisca ao silêncio... Porque não fui gerado pedra, com sua obstinada amizade ao silêncio?

Dias sem palavras,
muitos espaços,
brancos,
pios
de ecos

Espremo
respiro,
transpiro
e das palavras,
só os cacos,
os excrementos,
nessa petrosa testa que me grita,
em suas circunvolúvias dúvidas cinzentas

Aperto os dedos
no teclado sintético,
grito nas profundezas,
e de resto,
não ouço nada
além das insignificâncias,
que rodeiam
minhas neuroses,
nesses ossos trêmulos,
carne fraga,
fôlego efêmero,
risco n'água,
ponto fraco de freios.

Amanhã as palavras voltam
como das férias,
bronzeadas,
risonhas,
entorpecidas,
para mais um dia,
que consome
suga
e rouba,
seus capitalísticos preços,
creditados, num átimo,
em segundos,
em troca,
das espectativas
e dos sustos,
de um surto,
nessa masmorra,
de ser o mesmo,
aqui, alí ou
em Andorra.
Para dos grilhões,
lembrar apenas,
do peso,
e correr das palavras,
não mais cativas,
tão soltas,
como abraços de andorinhas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Goteira

Torneira a goteirar,
escorre,
continuamente,
mesmo frente
a ínfima força
constritura e óssea
de meus punhos...

Como posso,
reprimir a fugidia,
liquefeita persistência
do goteirar?



domingo, 17 de junho de 2012

Isabel

Isabel

Prosa entre as janelas laterais, grades e as memórias fugidias

Menino, você precisa de uma empregada?
É, eu vi, mesmo. Ela vem toda semana?
Ela é asseada, limpa os vidros.
Gosto de vidro limpo.
Tô procurando um outro serviço.
Uma intera, sabe?
Não tá fácil...

É eu passo roupa tambem,
Cobro 60 reais o dia.
Eu acho justo.
60 reais e a gente toma água,
come alguma coisa que os estudantes dão...
Acho justo.

Eu sou sozinha, menino.
Não tenho filhos, nem marido.
Tinha uma irmã.
Ela morreu faz 15 dias.
Do coração.
Mas a gente não se criou junto.
Me criei com outra familia.
Meu pai não conheci.
Meu pai também já morreu.

Você tem um dinheiro pro meu ônibus?
Não água eu não quero não.
Tem suco?
Você tá estudando?
Já se forma este ano!
Eu trabalho para uns estudantes de medicina.
Eles vivem falando pra eu tomar o remédio da pressão.
Eu tenho Chagas, coração grande, sabe?
Diz nas linguagens deles, dos médicos, coração de-latado.

Eu vou seguir meu caminho.
Vou lá pra cidade,
Passar roupa de uma dona.
Essa aí gosta muito de mim.
Os cachorros dela nem latem quando chego lá.

Vou seguindo menino
Pelejano com a vida
Já pedi até pra Deus me levar
Sou sozinha.
Trabalho muito.
Mas ainda não é minha vez, né.
Agradecida pela atenção.

(e vai-se Isabel, em seus passos arrastados, rumo ao ponto, não ao céu...)

Um artista da fome

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros.

Franz Kafka

As surpresas certamente engrossam o caldo da vida. Ver um teatro baseado na obra de Kafka "Um artista da fome" compôs e muito com uma das minhas fomes mais rutilantes: a fome pela arte de viver!

Peça belíssima esta que ocorreu no CIS Guanabara!
Para os interessados, vejam o link - http://www.cisguanabara.unicamp.br/050612.htm - que traz mais informações sobre a peça em questão e suas "irmãs", também baseadas nas obras de Kafka que serão apresentadas até meados de julho, "no chapéu".

Kafka nos propõem o jejum, penúria quase insuportável na contemporaneidade (na minha e já na de Kafka, inclusive). Tempos em que vivemos em meio aos excessos de comida, de tecnologia, de sensações, de prazeres, de dores e frustrações, dentre outras iguarias no menu da existência!

O artista, o da fome, resistia bravamente em sua arte de jejuar, pois via no jejum não seu negativo (a falta de), mas seu positivo (o distanciamento dos "maus alimentos"). 

No jejum, artista e arte se encontram num só tempo-espaço, entre carne e ossos, arte de confronto, de resistência. 

Preciso acordar o artista da fome, este farrapo que mingua num canto escuro do picadeiro-de-mim, ofuscado pelas atrações estroboscópicas da cultura do espetáculos em que dioturnamente me afoga.

Talvez uma releitura da obra de Kafka faça sentido para a busca de novos conceitos, esta travessia orgulhosa e não menos arriscada, de ser um artista faminto pela arte da vida, em atos singelos mas que "enchem o mundo de justificado espanto".

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Dois rios

Dois rios

Dois rios me atravessaram,
tirando além do ar, as fuligens das banais rotinas

Dois rios,
o maduro, silencioso e profundo,
das demências...

O outro,
o raso, transparente e ondulante,
das eternas infâncias

Estarei eu entre os que se fartam
da falta,
da limpida ausência de ar?

Ou entre os humanos,
angustiados dos desejos,
da pura e ventilatória liberdade?




terça-feira, 12 de junho de 2012

O discurso e o aquário


Na tentativa de tornar mais concretos e vivos alguns conceitos filosóficos com os quais tenho tido mais contato e familiaridade ao longo de leituras e reflexões de vida no presente momento, procuro transcrever alguns aprofundamentos teóricos alicerçados por comentários e discussões com provocações que me ocorreram neste percurso, íngrime porém liberador pelo horizonte que se desponta à vista.

Foucault, seu pensamento, sua pessoa, de Paul Vayne, será o combustível de muitas das estórias aqui concretizadas por uma espécie de "escrita convulsiva", dedicada à dar movimento aos conceitos que efetivamente carregam em si o encômodo frente ao estático.

Conceito importante foucaultiano que tomo emprestado para a compreensão das redes de disputa tecidas entre o Saber e o Poder é o famigerado "DISCURSO". Aqui, trago uma concepção de discurso que o encara como uma espécie de manobra descritora da realidade, que visa de maneira descritiva, prescritiva e cerceadora, dar corpo a uma formação histórica, à um estado de nudez escancarada a um determinado modo de se construir relações humanas. Não é à-toa que os discursos impregnam as leis penais, a arquitetura das instituições, os costumes com o intuito de formar verdadeiros DISPOSITIVOS ou PRÁTICAS DISCURSIVAS que efetivamente reforçarão a vivacidade do DISCURSO no cotidiano.

Compreender a ideia do DISCURSO parte de um pressuposto: o fato de não se possuir uma verdade adequada das coisas, por se entender que o alcance que se tem de uma COISA EM SI se dá através de uma ideia construída desta coisa em uma dada época (ideia esta que conta, em última análise, com a solidez de um discurso que marmoriza suas bases existenciais). Daí a necessidade de se compreender este alcance enquanto "fenômeno", visto que a COISA EM SI se encontra assoreada pela terrena magnitude do DISCURSO.

Esta forma de se pensar não seria, portanto, pluralista de mais a ponto de desacreditar a existência de verdades que conduziriam a vida humana? O homem sobreviveria a um mundo sem verdades? O homem sobreviveria a este ceticismo?

Não responderei estas questões neste momento. Contudo, venho ponderar que o conceito de DISCURSO e os demais motes que irão dar amplificação à sua problematização, serve para se pensar o quanto as práticas e relações no "andar da vida" estão capturadas por este campo muitas vezes invisível, mas que, ao se empreender uma tecnologia de si que permita dar vida ao DISCURSO e combater a ilusão tranquilizadora referente à adequação humana às suas verdades generalizadoras, aprimora a vivência de relações mais potentes em uma vida ética e politicamente engajada pela busca dos encontros alegres, que reforcem a diferença e as práticas não-fascistas.

Ter em mente que estamos numa redoma de vidro, numa espécie de aquário falsamente transparente, como pensava Foucault à respeito do DISCURSO, permite uma vivência que refute o bombardeio de ideias gerais que apedrejam as retinas de vida cotidianas, que ao longo dos anos, nos vai levando a um estado de amaurose irreversível frente às singularidades e às multiplicidades que, em última análise, compõem com a produção de vida, pela capacidade de captar a individualidade - elevada a seu significado mais positivo - apagando os estereótipos.

Em síntese, o conceito de DISCURSO contruibui para uma empreitada anelídea, rastejante e acrobática, pelas microfissuras, rachaduras e rupturas existentes nas continuidades reguladoras edificadas pela história da origem dos conceitos devindos e à devir.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Reunião Clínico-Cirurgica

Reunião Clínico-Cirúrgica



3 casos, 3 dúvidas
Tosse, tosse, tosse...



Sala escura.
Convidativa,
aos didáticos devaneios de Morfeu.

Imagens à esquerda,
Radiogramas
Tomografias,
fatias de dúvidas torácicas.

Na direita,
linhas curtas,
sopradas pelo residente,
fulano, idade, queixas
Tosse, tosse, tosse...
Os decanos,
apontam com as sombras,
ditando fagulhas de sapiência.

Apontam patologias
que meus olhos sonolentos,
não diferem das plumas,
quando jogadas ao vento,
forasteiros àquele ditado pneumônico

Há sempre um silêncio,
quando a dúvida é posta.

Os decanos a digerem,
Eructam com classe,
suas coordenadas
soprosas em coro:

Broncoscopia
Uma biópsia?
Talvez, novas imagens?
Seguimento clínico,
Retirar fungicida?

Tosse, tosse, tosse...

Escuridão completa,
Chega a  enegrecida transparência,
"Pense em tuberculose",
é o coro que se ouve,
e as cabeças balançam
como cílios na traquéia,
tocando o muco finalista
da contínua,
repetitiva,
dispneicamente enfadonha
reunião clinico-cirúrgica.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

ILUSÃO



"Ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente.
Já, alucinaçao é a percepção clara e definida de um objeto sem a presença do objeto estimulante real".
(Dalgalarrondo, P; 2000, p.83)


Sei que vai duvidar,
cruelmente como a morte,
Mas acredite.
Estava parado.
Naquele momento estava parado.
Mas se mexeu.
Por um instante.
Vivo.
Andou.
Saiu do lugar,
por um triz,
Saiu e voltou.
como uma atriz.

Cantava alto.
Em contraltos,
mas silenciou.
Rimava os finais,
com longos ais,
mas acabou.
Não se ouve mais nada,
emudou.

Chega de seus comentários!
Isso não se move,
muito menos canta.
Seus nervos estão enfermos, camarada!
Cale-se de insignificâncias!
Me deixa dormir,
na minha cama de plumas,
antes que Napoleão nos acorde, com as trombetas!


domingo, 3 de junho de 2012

Cinta de Moebius

Instigado pelas palavras do Prof. Mehry, proferidas numa palestra no Instituto de Psicologia da USP que acabei de ver, resolvi escrever algumas linhas sobre o tema Molar/Molecular trazido no debate dos desafios do SUS.

Para entender a relação molar/molecular, além dos aportes teóricos que aprofundam as discussões neste tema (fica como indicação de leitura a obra de Félix Guattari, Revoluções Moleculares), parto de um exemplo:

Tomemos como nosso objeto um copo cheio de água. Nele está contido uma infinidade de moléculas de água, compostas de hidrogênio e oxigênio. Contudo, quando estou com sede e solicito a necessidade de ingerir um copo d'água, além das moléculas de água, preciso da molaridade contida no copo d'água - ou seja, de todas as relações existentes entre as moléculas de água que concebem a existência de um estado entre essas moléculas, um arranjo molar, que a torna ingerível, e que comporá com o meu corpo matando a minha sede.

Por este exemplo fica clara a necessidade de tornar-se visível a relação imanente entre os estados molecular e molar. Assim, distancia-se da ideia dicotômica que estes dois conceitos continham, à priori, para entender que o funcionamento de ambos requer uma coextensividade entre seus limites, em algumas situações imperceptíveis ou minoritários. 


Cinta de Moebius - Escher


Mas o que estes "conceitos inventados" dialogam com as tensões e os questionamentos que este professor (e eu, por conseguinte) carregamos em nosso "andar a vida"? O que se vê de molecular e molar no entendimento do SUS? Como este agenciamento maquínico (esta ferramenta conceitual, a relação molar-molecular) contribui para dar saltos qualitativos frente às demandas e obstáculos existentes para a construção de um SUS que defenda incodicionalmente à vida de qualquer um como patrimônio social?

Ora, um SUS que se proponha a defender à vida, de ressaltar à diferença do outro como trunfo e auto-defesa das diferenças e multidões que cada vivente carrega em si, prima por articulações molares à fim da construção de uma Grande Política, molecular, não-clonificada, o que o autor discute como "uma política do encontro com o outro que produzirá a diferença em nós", numa luta constante e perpétua contra os modos de vida capitalísticos e fascistas.

Discutir a molaridade das políticas em saúde para a superação do SUS existente, dicotomizado na lógica público-privada dos idos do liberalismo de Robbes e Locke, com a diferença de portar a maquiagem das práticas neoliberalistas correntes, abre campos de luta, linhas de fuga para se pensar novos agenciamentos no campo da produção de saúde e qualidade de vida a todo e qualquer cidadão.

Ter isto em mente é um compromisso ético-político que deve ecoar no trabalho vivo em ato, e que já ecoa, embora seja silenciado pelas práticas capturantes, sintetizadas pelo modo de agir-torturador de muitos profissionais da área da saúde.

Quais são os privados que nos interessam? Se a vida do outro é entendida como um bem privado, o bem mais valioso, trata-se este de um privado a ser defendido? Pensar o que se conceitua por privado é condição vital para se instituir os arranjos de ordem pública e denunciar e execrar práticas de privatição das atividades públicas aumentativas de potência de vida que subsistêm aos agenciamentos mortíferos do neoliberalismo.

Tem-se uma aposta: tal como fez Escher, como sua "cinta de Moebius", que subverte a relação dentro/fora às "retinas de nossas vidas cansadas", acostumados às formigas em planos retilíneos e mal-humoradas com as cigarras, façamos o mesmo com a dicotomia público-privado, munidos da potência molar/molecular como uma ferramenta possível de superação aos impasses enfrentados pelo SUS em sua busca de defender incodicionalmente a vida de todos os cidadãos brasileiros. Uma aposta na diferença, frente à repetição.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sem ar

Sem ar

... Respire fundo pelo nariz e solte o ar pela boca... 

Falta-me
além do pão,
das boas amizades
e dos carinhos matinais,
ultimamente,
o ar.

Existe remédio,
substituto ao tédio,
para a ausência
desta rica e minéria
excrecência?

Do que adianta,
o ar entre tubos,
gélido, quase em cubos,
sem que se circule,
turbulento e púbere,
o ar?

Respiro fumaças,
que palpitam minhas entranhas,
Cesso vícios,
Inicio outros,
criteriosamente prescritos,
mas o forasteiro,
sumido, estrangeiro,
continua a faltar-me o ar

Há só uma saída,
mais aerada,
sem neblinas,
viver sem esta bruma,
contentar-me sem as plumas,
ter na solidez cotidiana,
a inexplicável adaptação
baqueteada e cianótica,
vida acinzentada, sem ar!






Dito isto

"(...) tudo o que eu vier a dizer-te, penso, e não me bastando pensá-lo, amo" (Sêneca)

Dito isto

Foi isto que disse,
não foi engano,
exagero,
palavras raivosas
saídas das ruas tortas

Foi isto que disse,
sem mais delongas,
sem gorduras,
ou maquilagem
sem impropérios,
ou paisagens

Dito isto
sobram os escombros e
seus tijolos,
vazios da concreta fantasia

Dito isto
resta apenas,
nem tangos,
nem macarenas,
só o silêncio,
dos jardins da Patagônia.




Filosofando: Spinoza e as três "éticas"

Nesta sessão do blog tentarei trazer tópicos em filosofia (sobretudo dos Filósofos da Diferença), com o intuito de fixar leituras, explorar fronteiras e sobretudo, pensar o cotidiano e seus desafios.

Spinoza e as três "éticas"





Deleuze, em seu último livro "Crítica e Clínica", traz em seu último capítulo o título "Spinoza e as três éticas". Neste texto o autor retoma a obra mais importante de Spinosa, a Ética. Começa por dizer que esta obra, embora aparente ter uma linearidade geométrica e geográfica, transparecendo ser um rio calmo acaba por nos surpreender com suas avassaladoras discussões e proposições.

Assim, um rio pacato transmuta-se em um mar revolto, pela potência de suas revelações.
Parte da discussão de seus três elementos principais:
- A proposição dos signos ou afectos, bases do primeiro gênero do conhecimento
- A proposição das noções ou conceitos, bases do segundo gênero do conhecimento e finalmente,
- A proposição das Essências ou perceptos, bases do terceiro gênero do conhecimento.

Os signos contem a capacidade de serem polissêmicos. Contudo, aglutinam um único e só efeito. Os signos representam a capacidade de um corpo deixar um vestígio sobre outro, mudando a sua duração. Por exemplo, quando o sol interagem com nosso corpo (nossa pele) ele deixa uma marca, o bronzeamento. Assim, a interação de dois corpos, que resulta em uma "marca" em seu ser (em sua duração como corpo, que se vê mudada por essa relação) acaba por constituir um afecto, um signo!

Aprofundando o entendimento dos signos, Deleuze, os classifica em determinadas formas. Abordarem os signos denominados vetoriais, ou seja, aqueles que se caracterizam por aumentar a potência, diminuir a potência ou mesmo se comportarem de forma ambígua quanto a potência (em determinada situação podem aumentar ou diminuir a potência de outros corpos). Assim, surgem os conceitos potências aumentativas e servidões diminuitivas, além dos signos flutuantes ou ambíguos, metaforicamente comparadas a uma escala de cores em dois tons (claro-escuro) em que as potências aumentativas comporiam a claridade e as diminuitivas ou serviçais dariam vida às tonalidades obscurantistas.

As noções já constituem o segundo gênero do conhecimento, ou o segundo modo de existência ou de expressão. Noções comuns são conceitos de objetos. As noções comuns constituem os corpos que são a representação de infinitas relações que se compõem e decompõem. Assim meu corpo representa-se por um conjunto de infinitas relações que compõem o meu corpo. A constituição de um corpo exige a seleção de afectos passionais, condição sine qua non para se sair do primeiro gênero do conhecimento. Contudo, esta garimpagem dos afectos não se dá de maneira isenta de tensões.

Tal seleção dos signos requer a Razão, ou seja, o esforço pessoal que cada um faz sobre si mesmo para melhor escolher dentre os afectos ofertados, além de exigir um combate afectivo inexpiável em que signos digladiam com outros signos e afectos tensionam com outros tantos afectos. É pelos escólios da Ética que se anunciam os signos ou a condição do novo homem, aquele que aumentou sua potência o suficiente a ponto de formar conceitos e converter os afectos em ações.

Por fim, almeja-se chegar à Essência, com sua velocidade absoluta. Esta em que a natureza e as potencialidades do existir tomam vida plena... Terceiro gênero que será fonte de conversas futuras...


Retomar à escrita

Retomar à escrita



Este é o título desta postagem.
Simples e sincero.

Nesta expressão, rápida e discreta, anuncio o retorno às palavras, depois de alguns dias de degredo.
Retomar à escrita em momentos em que o mundo a dizer contrastam com o tempo esguio e breve às reflexões.
Retomar à escrita, prenúncio de lutas internas, guerras externas, em que se carece de ter muita coragem...

E assim, sem mais,
retomar à escrita,
nem mais curta,
nem mais bonita,
apenas com suas enredadas possibilidades...