Este é o título de um dos livro da psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, que estou lendo. Debrucei-me sobre sua primeira parte neste final de semana, intitulada "A sociedade depressiva". Neste capítulo a autora contextualiza a psicanálise entre as demais formas de se lidar com os sofrimentos psíquicos da humanidade, tais como a psiquiatria e a psicoterapia. Em seus parágrafos, a autora expõe diversas linhas de tensão que envolvem a psique humana, bem como os interesses que levaram e levam determinados tratamentos a serem considerados melhores ou piores, ou mesmo receberem o aval de serem considerados como "ciência".
Aponta a autora que, historicamente, a mudança das ferramentas frente ao portador de sofrimento mental, ou seja, das correntes, amarras e camisas de força, dos séculas XVIII e XIX, únicas ferramentas de contenção física aos loucos, passou-se a utilizar de forma corriqueira e quase imperceptível as chamadas "redomas medicamentosas", os psicofármacos como "contenções químicos" frente aos alienados. Questiona a autora toda o triunfo exagerado frente aos psicofármacos ao ligar a utilidade destas ferramentas como sintomáticos do sofrimento psíquico, não chegando, pois, às profundezas em que se alojam a significação desses sofrimentos. Argumenta, inclusive, que o uso exagerado dos psicofármacos conduz a transformação do ser humano em um ser alienado, pois cabe aos medicamentos o desejo de curar o ser humano da própria essência da sua condição humana, que per se é mutável, tensa e conflituosa.
A autora discute também o "imperialismo" contido na disseminação do uso dos psicofármacos, prescritos por médicos gerais e especialistas, por acreditar-se que tais medicamentos "simbolizem a vitória do pragmatismo e do materialismo sobre as enevoadas elucubrações psicológicas e filosóficas que tentavam deficinr o homem"
Com um senso perspicaz e atual, a autora liga esta empreitada da psicofarmacologia dentre as diversas outras ferramentas empregadas pelo Biopoder em nossa sociedade, na busca de um governo dos corpos e das mentes em nome de uma biologia totalizante, uma nova "religião", frente às verdades inquestionáveis de uma certa "ciência". Assim, ideias como a aposta na subversão social ou intelectual se tornam meras quimeras e vê-se triunfar o conformismo e o higienismo nas práticas políticas e sociais vigentes.
(Elisabeth Roudinesco - autora do livro "Por que a psicanálise?")
O método psicanalítico, a cura pela fala, a aposta na linguagem e na simbolização acabam por ser consideradas submissas ao silêncio da tomada de pílulas e cápsulas, que esconde em si a fonte da angústia e da vergonha que tanto flagela o corpo e a mente dos portadores de sofrimento psíquico. Assim, um dos propósitos da psicanálise, que não se pauta na cura, mas na transformação existencial do sujeito perde forças às promessas ilusórias da cura psicofarmacológica.
Junto a psicofarmacologia, as neurociências, o cognitivismo e a genética julgam-se portadoras de um novo discurso sobre a psique humana, travando uma guerra ideológica frente ao pensamento freudiano. Portanto, ao longo do século XIX em direção ao século XXI, a psiquiatria dinâmica e suas frentes explicativas (nosográfica, psicoterapêutica, filosófico-fenomenológica e cultural) perderam espaço às abordagens sistemáticas comportamentais (sejam elas da organicidade com sua universalidade simplista, sejam elas oriundas da diferença do culturalismo empírico) que irão vasculhar genes na procura de marcadores bioquímicos para quantificar nossos sofrimentos, neuroses e perversões. Privilegia-se uma certa fuga a subjetividade, à medida em que a lógica narcísica toma conta das relações sociais, de homens "possuídos por um sistema biopolítico que rege seu pensamento".
E finaliza a autora, com tom profundo e austero: "o moderno profissional de saúde - psicólogo, psiquiatra, enfermeiro, médico - já não tem tempo para se ocupar da longa duração do psiquismo, porque, na sociedade liberal, seu tempo é contado".









