quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Forum de Medicalização da Vida da Criança e do Adolescente - O mito da Ciência

Participei do Segundo Forum "Medicalização da Vida da Criança e do Adolescente", em Campinas, na UNICAMP. O tema das palestras versava sobre "O mito da ciência". 

Certamente, tratou-se de um espaço de muita reflexão sobre a relação que tem-se construído na atualidade com os medicamentos que, em última análise, traz diversos questionamentos sobre a clínica e o cuidado que se tem dedicado às crianças e aos adolescentes.

Falas muito importantes e potentes povoaram o Fórum!

Pela defesa irrestrita da vida, não há conflitos de interesse, como bem nos lembrou Profa. Cida Moysés. Em  sua fala sobre os mitos que povoam o diagnóstico e tratamento do TDAH, numa coerência franca e forte, a médica foi capaz de contestar o discurso hegemônico sobre o tema, sobretudo aquele ecoado por "cientistas", "pseudocientístas", pais e, porque não pessoas taxadas de portadores de TDAH.

A ausência de evidências científicas que comprovem o valor terapêutico das drogas usadas para o tratamento do TDAH, bem como a vasta literatura que traz como eficaz a orientação familiar frente a medicalização, fica nítida a influência de outros setores na propagação da medicalização das crianças e adolescentes.



Profa. Dra. Cida Moysés, Pediatra, uma das organizadoras do evento e militante do movimento contra a medicalização da vida da criança e dos adolescentes.

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A vida vaza! Contra as ações microfascistas!

Mehry, em uma fala sempre apaixonante, trouxe diversos elementos para se entender a complexa rede de confrontos que se tece pela construção de subjetividades no campo social. Para o impulso de dessubjetivação, surgem diversas formas de subjetivação. Esta luta, constante, a disputa desse espaço social, tem a medicalização como um de seus fios condutores. O sanitarista traz suas novas experiências com "os sinais que vem da rua", que trazem diversas reflexões frente ao manejo de existências em que a vida vaza pelos póros e represas representados pelos modos de viver regulamentados e tidos como "normais".

Para se entender a questão da medicalização e suas linhas perfurantes, capilarizantes, há que se entender a fina trama do desejo que regula os modos de existência num mundo capitalista, em que práticas microfascistas podem existir e que subrepticiamente criam clones humanos ao invés de vidas, que per se, tem na aparição das anomalias como expressão primeira de sua resistência.

Um conjunto de palestras motivantes, inquietantes e repletas de encômodos, como defrontar-se com uma rã no ralo, como nos lembra Manoel de Barros.



Prof. Emerson Mehry, sanitarista da UFRJ, que falou sobre os "Sinais que vem da rua".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O governo de si e dos outros, em alguns apontamentos

Neste momento de "limbo" em que me encontro, entre provas (e seus comemorativos físicos como dores cervicais), concursos, no aguardo da documentação (vulgo número do registro no CRM) para procurar um cargo de médico generalista neste mundão de nosso-senhor-jesus-cristo, resolvi retomar minhas leituras do filósofo francês Michel Foucault. Páginas notadamente sempre instigantes e que exigem fôlego!

E para (re)começar, por que não pelo último livro publicado? Por que não começar de suas últimas aulas no College de France? Pois bem, esta foi a minha iniciativa. Estou lendo "O governo de si e dos outros", compilado de uma série de aulas do curso ministrado entre os anos de 1982 e 1983.

Trarei algumas reflexões sobre a primeira parte da palestra datada de 5 de janeiro de 1983.
Procurarei fazer o mesmo com outras aulas presentes no livro, de acordo com as possibilidades (reflexivas, produtivas, construtivas, temporais e criativas) que me forem dispensadas.

Então, começo!

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Foucault inicia seu seminário retomando alguns marcos de seus trabalhos pregressos, uma tentativa de síntese de todo um percurso produtivo de conceitos, seminários, livros. Conta que ao invés de se debruçar na tentativa de compreender uma "História das mentalidades", ou uma "História das representações", seus estudos buscaram compreender uma certa "História do pensamento".

Mas como?

Para desempenhar esta árdua tarefa, Foucault usou como recurso, os focos de experiências que se subdiviam em:

a) Os Saberes possíveis de um determinado momento histórico e cultural;
b) As Normas Comportamentais que regiam as relações sociais;
c) Os Modos de Existência virtuais para sujeitos possíveis num dado momento histórico.

Portanto, pela articulação desses focos de experiência, cada um com suas contribuições, se garantiria a consolidação de uma "História do pensamento". 

Ou seja, pela experiência na cultura, com seus saberes heterogêneos, aliadas à matriz de conhecimento vigente, com suas normas (que cursam com o "estabelecimento de um certo tipo de normalidade") que, finalmente, integrariam-se a um certo modo de ser do sujeito normal criariam a atmosfera de vida desta "História do pensamento".

Para compreender estes focos de experiêncais, Foucault irá buscar destrinchá-los, cada uma à sua maneira, retomando pontos vitais, como:

(a) Quanto aos saberes, fará uso das práticas discursivas e as regras de veridicção (regras que permitem construir o que é verdadeiro num dado momento histórico  e cultural);

(b) Quanto às normas de comportamento, utilizará as técnicas e procedimentos para conduzir a conduta do outro (a biopolítica), que conduzirá a criação de uma norma, o entendimento das relações de poder, a noção dos procedimentos e finalmente a construção de uma governamentalidade

e finalmente,

(c) para entender os modos de existências possíveis virutualmente, fará o deslocamento do sujeito à análise de formas de subjetivação, advindas das técnicas ou tecnologias da relação consigo, numa constituição de uma "pragmática de si".

De forma sistemática e resumida, Foucault expõe sua metodologia de pesquisa que visa compreender a "História do pensamento". À partir desses passos metodológicos - os saberes, as normas, as tecnicas de si -  seus estudos tomaram o corpo expressivo que até hoje influenciam nossos conceitos e enfrentamentos atuais.

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Um Acontecimento

Este conceito, de acontecimento, é trabalhado pelo autor, no final da primeira metade desta primeira aula de 1983, ao retomar um texto de Kant, "Was ist Aufklärung?" (O que é esclarecimento?). O que seria um acontecimento?

Um acontecimento, para um filósofo que se interroga frente a esse "nosso", que o constitui e que exige de si apontamentos, está ligado ao valor de sinal que lhe contém. Ou seja, um acontecimento apresentaria um valor de sinal rememorativo, demonstrativo e prognóstico simultaneamente.

E para exemplificar este acontecimento, o autor cita a Revolução (e se debruça sobre a Revolução Francesa) para exemplificar suas características ou sinais que lhe garantiriam o posto de "acontecimento".

A Revolução seria um acontecimento, não porque irá implementar grandes mudanças na organição social vigente, ou porque irá destruir grandes monumentos representantes de um passado opressor, mas porque a Revolução vai muito mais além do que seu foco, seus revoltados, suas palavras de ordem, seus protestos, seus espetáculos... A Revolução é um acontecimento porque de certa forma tem uma dimensão contagiante,  que arrasta como uma onda outros envolvidos neste caldo efervecente.

Assim, por portar, segundo Kant, "uma simpatia de aspiração que beira ao entusiasmo", a Revolução é um tipo de acontecimento, composto por sinais de rememoração, demostração e de prognóstico.

E o que fazer da vida atual, senão a busca por acontecimentos? Será que o entendimento do atual não nos exija averiguar a existência desses acontecimentos?

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aos vivos que aparecem...

Eis que brota mais um texto, entre tempos de silêncio (propício a germinação do inesperado?)
Não do silêncio das vozes, dos travesseiros mudos.
Um silêncio de mãos, que estavam atarefadas em outras lutas.
Aliás, tais mãos, com seus dedos rápidos e sensíveis querem atrelar resistência à escrita.

E eis que surge uma nova postagem, na perspectiva de preparar este solo em dormência, arando-o neste prefácio, para cultivar novos e variagados assuntos e inquietações, visando a colheita vindoura, de palavras e pensamentos.

Para aqueles que vida e crise se complementam, dioturnamente, como um pão e sua salgada margarina, fica o convite ao deleite desta travessia!

Aos vivos, que deveras apareçam.
Contra o estático mal-estar de uma asia socialmente construída!
Avante!

Fabrício D. Costa

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Meninos da Candelária


(Poema oriundo da tentativa de metabolizar uma peça teatral do FEIA - Festival do Instituto de Artes (www.feia.art.br) - entitulada "Agora e na hora de nossa hora", de Eduardo Okamoto, que muito me resgatou dos desafios da vida. Revendo um Menino da Candelária, lembrei da Menina do Viaduto Cury, os Meninos do Spina e outros tantos que vivem entre as pedras do caminho...)

Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedra
vivem os meninos da Candelária

São pequenos,
raquíticos,
meninos farrapos,
perambulantes entre os cascalhos,
os passos lisos dos solos paroquiais.

À noite,
os ratos dialogam
com os Meninos da Candelária
E a escura e fria,
transição dos dias,
fica clara,
entre isqueiros e pedras,
quando a lata queima
pesadelos e dores
fumados repetidamente,
de segunda a sexta-sempre
raticida vida,
dos Meninos da Candelária

Orações mudas aos meninos,
marmitas repletas,
roupas rasgadas,
sonhos dormentes,
vidas explosivamente cristalizadas
como pedras
no couro dos Meninos da Candelária

Eis que num dia,
como outrora,
em epifanias,
raja dos céus,
as balas encontradas,
a carne queimada por tiros,
a língua cortada por tiros,
os sonhos dormentes,
os gritos pertinentes,
nada mais rasga a noite
dos Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedras,
entre as lápides de pedra,
entre os fumos das pedras,
repousam,
sangue e sonhos,
dos Meninos,
da sanguínea Candelária.


domingo, 9 de setembro de 2012

Clínica e Biopoder

Hoje, encontrei mais um daqueles textos que quando lidos o título não conseguimos ignorá-los. 
Não me lembro do título na íntegra mas trazia duas palavras marcantes para mim: Clínica e Biopoder. 
Dois conceitos com os quais tenho atravessado páginas e páginas de leituras, conceitos que tento trazê-los vivos nos meus atos cotidianos, mais precisamente, nos muros do hospital em que findo a minha formação médica, neste ano, no nível da graduação.

O texto trazia apontamentos frente a contemporaneidade, em que se dizia que este período histórico era marcado pela necessidade de uma situação crítica, que nos impulsiona ao exercício crítico do instituído, bem como a urgência pela experiência de crise. Para tanto, o conceito de Clínica não podia ficar limitado a sua origem etimológica que notadamente ilustra o ato de se inclinar, de se debruçar frente ao leito que porta um paciente enfermo. Exige-se, portanto, um novo entendimento da Clínica, ou mesmo a busca de uma nova Clínica.

A Clínica da contemporaneidade embora mantenha elementos originais do processo de se inclinar perante ao enfermo, desenvolveu  a tendência de se inclinar inclusive perante ao seu próprio processo de produção. Em outras palavras, a Clínica contemporânea se dá na produção de um desvio. Neste desvio reside a necessidade de se habitar em um terreno em produção, em construção, portanto uma utopia (de u-topos, de um não-lugar, um lugar por vir, um devir). A prática do desvio, ato desta Clínica, compreende o compromisso com os processos de produção de subjetividade, estes capazes de tecer resistências (ou repetir capturas) de acordo com as formas de se operar frente a malha fina e imperiosa do Biopoder.


Michel Foucault - filósofo francês cuja obra ainda se mantém viva para o entendimento da Clínica contemporânea


Assim, para entender os agenciamentos necessários para dar vida a esta Clínica, Foucault nos apresenta o conceito de Micropolítica, entendido como o plano de engendramento das palavras e das coisas, que versa de maneira categórica com a potencialidade política que germina da postura de se encarar a Clínica como produtora de desvios.

No plano da Micropolítica, cabe lembrar a necessidade de se entender as mudanças estruturais em que as sociedades foram expostas entre os séculos XVIII, XIX e XX. Passa-se de uma Sociedade disciplinar, cuja instituição principal é a prisão, um espaço estriato, que deixa suas marcas e molda os corpos frente as leis, normas e condutas que lhes são típicas e vitais para uma outra forma de se entender a sociedade, que não mais adjetivada de disciplinar recebe a alcunha de Sociedade de Controle, espaço liso, em que as modulações reguladoras imperiantes são voláteis e esfumaçadas, terreno em que o controle se apossa cada vez mais profundamente da vida, de sua privacidade, em seus mínimos detalhes, de maneira praticamente "invisível" aos olhos pouco atentos. Sociedade de controle que irá inclusive alterar conceitos essenciais como os de "vida", ao implementar a Biopolítica, um dos braços do Biopoder, o poder que se imprime de frente à vida. 

Um breve mergulho de uma leitura que tenta concatenar algumas das implicações dos estudos foucaultianos ao entendimento da Clínica. Um oceano ainda de águas turvas e ondulantes. Só não me falta fôlego!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Gramática erótica


Eu cedo
Tu cedes
Ele,
sede.

Cedo

Acordo
sem trivialidades,
ouço,
da janela semi-aberta,
vizinhos discutindo em alemão,
língua encorpada e viril,
que torna tudo com sombras de seriedade

Não deliro,
embora tal despertador,
levantasse suspeitas férreas
De fato acordo
inesperadamente mais cedo
do que o desejado,
em feriados prolongados.

Carecia de recompor-me
afinal,
sai
dancei
girei
carne e ossos
(como me lembro, pois gritam as pernas!)

Era preciso
um sono apagador
mas a língua de Goethe
me cobra um preço
monetariamente em rima e verso,
desperto com sede
e cedo
aos goles grandes da poesia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O processo

A porta aberta
aguarda a entrada,
com suas duas cadeiras
mudas, azuis  e rígidas,
da paciente anunciada
pela prosa amiga e humana de uma buzina
como aquela dos bancos, 
dos supermercados, 
dos territórios de longas esperas

Entra uma senhora,
miúda, 
vagarosa,
tensa
traz consigo,
além das dúvidas,
uma acompanhante,
olhos arregalados,
sacolas plásticas brilhantes 
com papeis origamicamente dobrados

Num átimo,
os papéis,
como prisioneiros de guerra, 
estirados na mesa,
não escondem os segredos,
que podem existir 
entre uma mulher
e seu seio edemaciado

Algumas perguntas,
idade
menstruação,
comorbidades,
filhos, remédios, doenças prévias,
doentes na família e o eco horripilante,
é câncer
é câncer
faz-se som frio e frequente,
entre as mulheres e os papéis da mesa.

Prossegue ao diálogo,
monólogo de entendimentos,
o exame das carnes,
deita a ansiâ, 
seus pesos na maca,
desajeitadamente encapada de papel reciclado,
e dançam os dedos em suas mamas
vasculham com entusiasmo
a procura de nódulos,
encontram só o medo,
nem cístico, 
nem sólido,
encaroçado nas axilas.

E finalmente, 
a sentença firme
o diagnóstico seco:
"tens um câncer,
tem-se tratamento,
terás que ser forte",

A senhora,
olhos vidrados,
boca murcha de desgosto,
entreaberta num grito surdo
respira com ruídos e arremata, 
em sua dignidade convulsivante:
"este não passa,
de mais um processo,
que careço de viver
contra o maligno,
meu fado encaro sem relutâncias, 
só me deixa chorar meus desesperos,
antes de ser mulher de pedras"




Coisas do dia

Dia de estágio novo.
Dia de encontros novos.

Estágio em Oncologia. 

Entre muitas notícias ruins, encontrei um fato que muito me alegrou! Uma das pacientes que pude acompanhar durante um atendimento tem um blogue! Fiquei feliz em saber que as palavras são terapêuticas para mais alguém!!!

Seu blogue diversificado, encontrado no link http://akemiwaki.blogspot.com.br/, traz diversas opções de  textos, em prosa e verso, para horas de desfrutamento com as palavras.

Boa leitura!

domingo, 2 de setembro de 2012

Transeuntes

Minha mesa de estudos,
Fica estrategicamente
Defronte da janela
Para que,
Entre os suspiros dos estudos,
Eu possa observar os transeuntes:
Raramente são pedintes,
Mãos leves, insistentes.
Mais raros são os crentes,
Com seus folhetos religiosos,
Céus e provações,
Mas quando e' você
Solerte transeunte errante,
O vulto que razante corta
O horizonte retangular desta janela,
Não vejo mais vidros ou tramelas,
Estou suspenso,
Entre silêncios e desejos,
Pena que fechar a cortina
Não resolve esta sina....

domingo, 26 de agosto de 2012

Por que a psicanálise?

Este é o título de um dos livro da psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, que estou lendo. Debrucei-me sobre sua primeira parte neste final de semana, intitulada "A sociedade depressiva". Neste capítulo a autora contextualiza a psicanálise entre as demais formas de se lidar com os sofrimentos psíquicos da humanidade, tais como a psiquiatria e a psicoterapia. Em seus parágrafos, a autora expõe diversas linhas de tensão que envolvem a psique humana, bem como os interesses que levaram e levam determinados tratamentos a serem considerados melhores ou piores, ou mesmo receberem o aval de serem considerados como "ciência".

Aponta a autora que, historicamente, a mudança das ferramentas frente ao portador de sofrimento mental, ou seja, das correntes, amarras e camisas de força, dos séculas XVIII e XIX, únicas ferramentas de contenção física aos loucos, passou-se a utilizar de forma corriqueira e quase imperceptível as chamadas "redomas medicamentosas", os psicofármacos como "contenções químicos" frente aos alienados. Questiona a autora toda o triunfo exagerado frente aos psicofármacos ao ligar a utilidade destas ferramentas como sintomáticos do sofrimento psíquico, não chegando, pois, às profundezas em que se alojam a significação desses sofrimentos. Argumenta, inclusive, que o uso exagerado dos psicofármacos conduz a transformação do ser humano em um ser alienado, pois cabe aos medicamentos o desejo de curar o ser humano da própria essência da sua condição humana, que per se é mutável, tensa e conflituosa.

A autora discute também o "imperialismo" contido na disseminação do uso dos psicofármacos, prescritos por médicos gerais e especialistas, por acreditar-se que tais medicamentos "simbolizem a vitória do pragmatismo e do materialismo sobre as enevoadas elucubrações psicológicas e filosóficas que tentavam deficinr o homem"

Com um senso perspicaz e atual, a autora liga esta empreitada da psicofarmacologia dentre as diversas outras ferramentas empregadas pelo Biopoder em nossa sociedade, na busca de um governo dos corpos e das mentes em nome de uma biologia totalizante, uma nova "religião", frente às verdades inquestionáveis de uma certa "ciência". Assim, ideias como a aposta na subversão social ou intelectual se tornam meras quimeras e vê-se triunfar o conformismo e o higienismo nas práticas políticas e sociais vigentes.


(Elisabeth Roudinesco - autora do livro "Por que a psicanálise?")


O método psicanalítico, a cura pela fala, a aposta na linguagem e na simbolização acabam por ser consideradas submissas ao silêncio da tomada de pílulas e cápsulas, que esconde em si a fonte da angústia e da vergonha que tanto flagela o corpo e a mente dos portadores de sofrimento psíquico. Assim, um dos propósitos da psicanálise, que não se pauta na cura, mas na transformação existencial do sujeito perde forças às promessas ilusórias da cura psicofarmacológica.

Junto a psicofarmacologia, as neurociências, o cognitivismo e a genética julgam-se portadoras de um novo discurso sobre a psique humana, travando uma guerra ideológica frente ao pensamento freudiano. Portanto, ao longo do século XIX em direção ao século XXI, a psiquiatria dinâmica e suas frentes explicativas (nosográfica, psicoterapêutica, filosófico-fenomenológica e cultural) perderam espaço às abordagens sistemáticas comportamentais (sejam elas da organicidade com sua universalidade simplista, sejam elas oriundas da diferença do culturalismo empírico) que irão vasculhar genes na procura de marcadores bioquímicos para quantificar nossos sofrimentos, neuroses e perversões. Privilegia-se uma certa fuga a subjetividade, à medida em que a lógica narcísica toma conta das relações sociais, de homens "possuídos por um sistema biopolítico que rege seu pensamento".

E finaliza a autora, com tom profundo e austero: "o moderno profissional de saúde - psicólogo, psiquiatra, enfermeiro, médico - já não tem tempo para se ocupar da longa duração do psiquismo, porque, na sociedade liberal, seu tempo é contado".

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Antes de Spinoza, Adélia

Voltando aos textos da Ethica de Spinoza, antes de aprofundar em mais conceitos de sua filosofia, trago a poesia de Adélia Prado para complementar minhas indagações e conjecturas frente a possibilidade de uma filosofia que nos impulsione a viver uma vida que valha a pena. Na imagem do canto de uma cigarra, em sua poesia "Módulo de verão", do livro Bagagem, Adélia ouve o canto da esperança, vejamos:

Módulo de verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarrachadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
- chamado canto - cinzento-seco, garra
de pêlo e arame, um aspero metal.
As cigarras têm  cabeça de noiva
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
- Quem não quis junto deles uma agulha?
- Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.

E para Spinoza, o que viria a ser a esperança? Antes de chegar em seu conceito, Spinoza irá trabalhar uma importante característica dos afetos e suas interações com a mente e o corpo humanos. Quando o estado da mente humana provém de dois afetos contrários, o filósofo afirma que a mente terá um estado de flutuação dos afetos. A flutuação seria o mesmo que a dúvida representa para a imaginação.

Sabe-se que o corpo humano é composto de um grande número de indivíduos de natureza diferente, sendo, pois, afetado de muitas maneiras. Portanto, um só e mesmo objeto pode ser causa de muitos e conflitantes afetos, colaborando para a fluturação desses afetos

Quanto a temporalidade das imagens e suas implicações nos afetos, Spinoza é categórico: o estado do corpo, o seu afeto, é o mesmo, quer a imagem seja a de uma coisa passada ou de uma coisa futura, quer seja a de uma coisa presente. Contudo, reitera que os afetos resultantes das imagens do passado e do futuro são menos estáveis, estão perturbados por outras imagens. São imagens embassadas, diria eu, com choviscos, incompletudes, fragmentações.

Dito, Spinoza conceitua a esperança como sendo uma espécie de alegria instável oriunda da interação de imagens do passado ou do futuro. Quando esta alegria instável está imbuída de afetos que não flutuam, que não geram dúvidas, a esperança dá origem a segurança.

No seu oposto, a tristeza de caráter instável, ou seja, oriunda de imagens de coisas duvidosas, dará origem ao medo. Quando esta tristeza perde seu caráter instável, a tristeza certeira e inquestionável oriunda de imagens das coisas, dará origem ao desespero.

Será que o canto das cigarras refletiriam uma alegria instável aos ouvidos de Adélia? É possível que sim. Que os tons deste cantar intenso e marcante sejam capazes de nos transportar ao passado vivido ou ao futuro por vir, construído pelas imagens das coisas entre-núvens não me restam dúvidas.





domingo, 19 de agosto de 2012

Desafio

Se você me ama
vai na rua do padeiro
compra um doce
de goiaba cascão
e me traz junto
com um pedaço de queijo canastra?

Agora,
se me amar de fato,
esqueça o doce,
o queijo,
e o tato,
Tira-me dessa rua dos pesadelos,
e me adoça e salga a vida, misturadamente!

Confissão

Podia até querer
seus carinhos
como antes daquele baile
em que você derrubou três,
cantou a garçonete
e urinou na caixa de som.

Muito diferente era querer
a sua loucura,
bem equilibrada,
ao meu lado,
não o negro,
mas o esquerdo,
o que geme ao luar.

Não sabia dizer
o que era pior,
se a sua espera,
ou a sua presença desinteressada.

Tudo era contrário,
aos impulsos vagos,
que me rondavam
os sentimentos.

Era um tormento mudo,
como o grito das formigas,
ao carregarem o fardo alimento
O que o disfarce pedia era sorrir
como gema de ovo amarelo,
de vingança.


Regras

Para muitos,
não é mais certo
mentir para crianças,
roubar laranjas do vizinho,
pensar em música nos velórios,
chorar quanto está chovendo,
e se quer ir ao poço pescar...

Mas o errado que aceito,
é comprometer-se com as palavras,
e seus humanos desasossegos,
traço tênue,
em que risco meu caminhar.

Ninhos

Não consigo entender
porque os ninhos
são tão altos...
Quem sabe,
uma hipótese,
seja que os sonhos,
nos altos,
nasçam cedo,
com suas plumas para voar.

Plumas

Esses ciscos brancos
que voam
são sonhos encarnados em plumas?

São nada disso não
São só o nada
sem destino exato.

Cabelos brancos

Mãe, seus cabelos estão brancos?
Que isso menina
que enxirida!
E esses fios, esses do canto?
Menina,
que tormento!
Deixa meus sonhos cinzas
pratearem meu pranto.

Sopetão

Que dia é hoje?
O que importa
terá começo,
meio
e um aguardado sim

Hoje

Hoje,
dia em que 3 pessoas foram cruelmente assassinadas,
dia também
em que avisto um casal
correr em silêncio,
e um helicóptero segue rumo ao leste,
sem eu saber o motivo,
sento num banco rígido,
rasgo um papel,
alma com riscos azuis,
penso que profetizo,
em versos,
sem riso,
o que poesia é:
3 mexiricas com um sumo
que tinge os dedos
e a saudade da criancice da gente.

Grama

Para não parecer estúpido,
ou menos aristocrático,
escrevo em frases curtas,
o que os tratados tangenciam.

Quero uma cor
e vejo a grama.
Como é estúpido,
dirão os ascétas,
não procuras o verde?

Em risos, retruco,
esta cor
que me apetece,
tem mais força,
frente o fogo e o risco,
do sereno,
do lixo,
do homem,
que não pasta este verde?

Vento de agosto

Neste instante
em que só ouço
o vento contar seus lamúrios
penso que a vida,
entre folhas e mesas,
e as canetas coloridas,
que tingem de irregularidades
essas coisas rígidas
não servem para desatar os nós
que trancei com meus desejos.

No silêncio
penso no que não ouço,
sei que
o que escrevo
é só verso partido,
pão vencido,
presente quebrado,
dente de leite,
para telhados sem fadas.

E no papel branco,
tinjo de humanidade
esse silêncio que ecoa
entre os assoites do vento de agosto.

Dádiva

Se me fosse dada
a dádiva
a graça,
ou a maldição
de entender
seus sutis arrombos
como me foi garantida
a técnica de descarcar mexiricas
teria o seu suor
ao invés do sumo entre as unhas.

Não viveria só,
nas entre-safras,
não amargaria,
à espera,
das pequenas e doces,
temporãs.

Se fosse possível,
desvendar amores,
ao libertar
bagos de mexirica
das finas redes,
brancas e nupciais fibras,
não teria a sede,
que me seca os sonhos,
além deste cheiro cítrico
das lembranças
entre pomares de quereres...

Se não bastassem

Se não bastassem
duas palavras suas,
ou um pouco menos
para me levar,
intempestivamente,
dos becos aos berros
teria marchado,
como um sargento subalterno,
e dado ouvidos
ao meu auto-controle,
essas fibras
patifarias enoveladas
que me dão vulto e verso

Se não faltasse,
além da força,
o fato,
de ouvir
quaisquer mínimas duas palavras,
quase nada,
silêncio assassinado em pios,
não pestanejava
para erigir
castelos de entulhos
e me jogaria no chão
como as mexiricas
que de maduras,
racham e cheiram
longamente
a fragância do tempo
de estado finito de consumo
com seu ruído nas cascas,
resquícios da meândrica labuta,
de entranhas recortadas e amarelas,
pouco se é muito
para o que dos ciscos,
abrupto brote
sua cítrica lembrança.

Alguns Escritos sobre a Ethica de Spinoza - Parte I




Considerações sobre a terceira parte da Ethica de Spinoza – A origem e a natureza dos afetos

Retomo a leitura da Ethica de Spinoza após inúmeros contratempos. Não irei elucidá-los para não estender o dispêndio de tempo do qual já foram causadores. Contudo, é inevitável que no decorrer desta trama textual que ilustra meus desbravamentos pela filosofia de Spinoza, tais dispersões venham deixar marcas de suas repercussões.

Para me familiarizar com a filosofia contida na Ethica, optei por reforçar meu entendimentos dos diversos conceitos que foram semeados nesta obra. À medida em que estes conceitos forem tomando corpo como respondedores às inquietudes da vida cotidiana, procurarei argumentá-los e debaté-los com mais clareza e coesão.

Portanto, este texto será o primeiro de muitos que irão dialogar com os escritos de Spinoza numa tentativa de revisitá-los e utilizá-los para criar novos e outros conceitos, em consonânica com a visão deleuziana de filosofia, com o intuito de se buscar a concretude de uma vida digna de ser vivida. Assim, todos os esforços filosóficos, éticos, estéticos e políticos deste e de outros escritos buscarão responder uma única e inquietante pergunta: o que pode o corpo que vive?

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Para Spinoza o ser humano em suas experiências cotidianas, em seu “andar a vida”, pode agir ou pode padecer. Assim, um indivíduo que age, que se encontra em ação, está movido por ideias adequadas. Por outro lado, quem padece está repleto de ideias inadequadas, compreendidas como ideias mutiladas ou confusas.

A ideia adequada é assim considerada por estar em consonância com a ideia de Deus, que é a essência da mente que age, bem como a de todas as outras coisas. Contudo, a mente humana não é dicotômica. É composta portanto de ideias tanto adequadas quanto inadequadas. Assim, quantitativamente, a proporção de cada uma dessas ideias irá modular as repercussões que este homem trará com seus atos. Quando há um predomínio, em quantidade, das ideias adequadas frente as inadequadas, tem-se um indivíduo que age mais. Já a mente que pende a balança ao pólo das ideias inadequadas, será uma mente mais submetida ao padecimento, mais dependente das paixões. Agir ou padecer são efeitos das ideias.

Contudo, quando se discute as ideias e suas repercussões à mente, tende-se a crer que a filosofia de Spinoza irá dicotomizar o ser humano em dois grandes blocos monolíticos – o corpo e a mente. No entanto, Spinoza irá justamente pontuar o contrário: mente e corpo agem ou padecem simultaneamente em seus atos, não são separáveis como feijões e pedregulhos! De acordo com a concepção de análise de uma determinada faceta do ser humano, irá se tomar como mote ora o atributo do pensamento (que irá se debruçar ao entendimento da mente), ora o atributo da extensão (que se dedica ao entendimento do corpo). Pelo atributo do pensamento, entende-se que a mente tem como função pensar. Trata-se de um modo do pensamento, não da extensão do pensamento (derivada do corpo). Pelo atributo da extensão, o corpo é entendido por suas relações de movimento e de repouso, tanto internamente, quanto externamente (ou seja, as repercussões de outros corpos para o movimento ou repouso de um determinado corpo).

Munido desses conceitos, Spinoza rebate ingênuas visões sobre a relação mente e corpo, sobretudo a visão de um corpo “maquinal”, cujas ações e funções são totalmente dominadas e dependentes do controle da mente. Avançando nesta discussão, o filósofo também se interroga de maneira categórica sobre as possibilidades munidas no corpo. O que pode o corpo? O que os sonâmbulos ou os sonhadores, conhecidos da vida prática, podem nos ajudar a desvendar com relação ao emaranhado que une o corpo e a mente? Primeiramente, pode por em xeque nossas ideias simplistas de causa e efeito, por exemplo. Além disso, pode-se propor também que não exista uma relação de dominação entre a mente e o corpo (a primeira como controladora e subjulgadora da segunda), ao se entender que o corpo tem uma natureza que procede de infinitas coisas. Dessa ruptura da ideia de dominação, tem-se por conseguinte o esfacelamento de outros conceitos como o livre decisão da mente, por exemplo, que abordarem ao longo de outros textos.

Nesse contexto Spinoza arremata com clareza e prontidão: “(...) aqueles, portanto, que julgam que é pela livre decisão da mente que falam, calam ou fazem qualquer outra coisa, sonham de olhos abertos”.

_________

Recaptulando, Spinoza acredita que a mente apresente uma determinada essência, sendo esta entendida como um conjunto de ideias (que podem ser adequadas ou inadequadas, ou uma mistura de ambas) de um corpo existente em ato, que o compõe como uma coisa singular, ou seja, modos pelos quais os atributos de Deus exprimem-se de uma maneira definida e determinada, capaz de expressar uma potência de Deus, de duração indefinida (pois seu fim não está contido na essencia de si, mas na interação com outra ou outras coisas singulares de natureza contrária que visem destruí-la), visto que as coisas singulares se esforçam para perseverar em seu ser, em sua existência. Uma enxurrada de conceitos que merecerão melhor explanação neste e nos demais textos.

Assim, tem-se que a paixão fragmenta a mente, que não consegue ser entendida sem ser correlacionada com as demais partes que a compõem.

Com relação ao esforço de perseverar em si, que se relaciona com a potência que as coisas singulares exprimem, retomo o detalhamento, nas palavras de Spinoza: “a potência de uma coisa qualquer, ou seja, o esforço pelo qual, quer sozinha, quer em conjunto com outras, ela age ou se esforça por agir, isto é, a potência ou o esforço pelo qual ela se esforça por perseverar em seu ser, nada mais é do que sua essencia dada ou atual de uma coisa.

Em síntese, Deus com seus atributos permite a existência de uma coisa singular (A) que exprime sua essência atual por intermédio de sua potência, isto é, pelo esforço de perseverar em si, seja ao agir ou ao padecer, por um tempo indefinido, que será determinado pelas relações que esta coisa singular (A) irá ter com uma coisa singular (B) de natureza contrária que irá, por intermédio de uma causa externa, destruir a coisa singular (A). Este esforço que compreende a potência é consciente, devido às ideias das afecções do corpo que o constituem.

Aprofundando a ideia do esforço, Spinoza conceitualiza a vontade quando a mente conduz ao esforço. Já o esforço conduzido tanto pelo corpo quanto pela mente é conceitualmente chamado de apetite. E para Spinoza, apetite e desejo são conceitos similares e intercambiáveis, a não ser por um adendo: o desejo trata-se de um apetite consciente. Assim, o apetite estará intimamente ligado à essência do homem cuja natureza persegue a sua conservação.

Pelas palavras do filósofo, repasso um trecho espantoso, cuja intensidade me fez retomar nesta travessia pelo sertão da Ethica: “O desejo é o apetite juntamente com a consciência que dele se tem. Torna-se, assim, evidente, por tudo isso, que não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa”.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Sobre o Exame do CREMESP

Iniciarei com este texto, fomentado após a leitura de um dos textos editoriais da Folha de São Paulo do dia de hoje, minha tragetória argumentativa frente as investidas do CREMESP em tangenciar de maneira arbitrária e despótica a temática da educação médica no estado de São Paulo.

É isso. Por enquanto...
Adelante...

Prezada Folha

Muito me angustia ver a questão da Educação Médica ser tratada de forma reducionista e maniqueísta como vejo reiteradas vezes pela mídia impressa e televisiva deste país. Tratada de forma paliativa, portanto, tendo no Exame do CREMESP a transfiguração da panacéia para a erradicação da má-formação de médicos no estado. 

Como estudante do último ano do curso médico de uma universidade respeitada deste país venho me posicionar contra a última descoberta miraculosa das últimas semanas: uma prova pontual, reducionista e punitiva como ferramenta para a melhoria da Educação Médica deste estado brasileiro que se julga de vanguarda na esfera de discussões profundas e engajadas.

Como acadêmico do curso médico sou favorável à avaliações como parte integrante do processo ensino-aprendizagem. Não vejo em uma prova única que, históricamente, tem uma baixa adesão e recebeu boicotes constantes de instituições que observam a profundidade deste tema, como um sinalizador de que apostar em uma prova finalista e potencialmente ranqueadora não é uma opção que irá, além de um diagnóstico sugestivo, implementar práticas de melhoria substancial à Educação Médica e a assistência à população.

Discordo do exposto em "Paliativo Médico", no quesito que indica que se pode basear em dados referentes a apenas 15% dos egressos extrapolações exageradas a cerca dos déficits educacionais na área médica. Não nego a existência de deficiências, que são mais ou menos profundas em cada instituição de ensino. Mas o que dizer dos médicos nos rincões deste país que não participam de processos de educação continuada e capacitação deste pais? 

Contudo não é numa prova deglutida às pressas, à surdina da participação discente, magicamente e unanimamente tida como ferramenta de caráter obrigatório que, ao meu ver, hipermétrope talvez, se deva acreditar que se problematizará a questão. Vejo nesta obrigatoriedade uma vontade afoita e sedenta por dados em busca de extrapolações que balizarão num destino não tão afastado a imposição obrigatória de um exame de certificação obrigatório, e por conseguinte, de mais um filão do mercado - um novo método de ensino preparatório para exames específicos, vulgo os "aclamados cursinhos''.

Concluo dizendo que a discussão sobre a Educação Médica deve sair dos muros universitários, mas de maneira crítica e menos sensacionalista. A opinião da população sobre o "médico que desejamos formar" é essencial. Mas este ambiente de debate não é encistado num solo repressivo, punitivo como de uma prova de múltipla escolha. Recuso-me a crer em avanços sérios na discussão de uma Educação Médica socialmente referenciada alicerçada na fragilidade de 4 ou 5 opções a serem assinaladas, pouco representativas de um montante de 6 anos mínimos de estudo, constituído por atividades essencialmente prático-teóricas em caráter integral!

Não vejo meias soluções para problemas complexos. Avaliações continuadas, provas práticas, entrevistas com usuários do SUS atendidos em hospitais escolas, avaliação entre pares, avaliações externas (desde que envolvidas em profundidade e com propósitos claros frente aos resultados obtidos) são bem-vindas à saúde da Educação Médica.

Pois, do contrário, não teremos um paliativo médico, mas o suicidio, "a doença da morte" des iniciativas que realmente dedicam à Educação (não só médica) um status de emancipação cidadã desses futuros profissionais. Do contrário, a posologia insossa e torpe do corporativismo falará mais alto.

Fabrício Donizete da Costa (Bambu)
Acadêmico do ultimo ano do curso médico pela Universidade Estadual de Campinas
Ex-Coordenador Discente da Regional São Paulo da Associação Brasileira de Educação Médica

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Insignificânciazinhas

Insignificânciazinhas


Enquanto,
no duelo das eras
uns discutem cores
ora de gravatas,
ora de bravatas,

ou mesmo,
embrenham-se
na mata exótica
de arguir
aos hipócritas
se o branco que lhes cabem
é mais alvo
que de uns dispares de si,


eu prefiro
no meu canto,
em meus giros,
ficar com minhas
insignificânciazinhas

são tão torpes,
embora doces,
e dispensavelmente minhas
que as reconheço
pelo olfato da mesmice.

Mas se um dia,
tão inesperadamente vago,
tão impensavelmente palco
na luz de insultos e lágrimas
resolver,
revolver-me
num movimento,
num querer pós-ictal,
uma vontade
de alicate e estouros
romper e sair deste estado menoritário

arremato sem estas
poucas,
mas pesadas
insignificânciazinhas
e não mais confio em bordados,
tons ou achados

passo a dar partido
aos bandos
bandidos
barbáreos
que me roubam da prisioneira,
fatídica e verdadeira,
ribanceira de mim

entoando coros
ouço o eco
à gauche 
o alarde
sem serafim.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ruidos

Motivado por Beckett

"O que resulta claramente dos ruídos que chegam até mim é que não sou totalmente surdo"

Ruídos. 

O que posso dizer, sinteticamente, das pequenas perturbações que me tiram dos eixos do comodismo, da "conduta mantida" tão corriqueiramente caligrafada nos prontuários da lida! Uns acúfenos de inquietação, de indignação, de espanto pelas potências do humano fazem-se necessários. Nos mais singelos e inesperados encontros, ouvir o badalar dessas diferenças. Frente aos ruídos, recusar os fones, a música da ambiência frajuta, da monotonia dos protocolos, das frases prontas, dos timbres sedutores da individualidade. Que eu continue, surdamente disposto, a ouvir estes zumbidos, que me tiram de minha constância rumo a vertiginosa roleta do improviso do eu. Ponto de gritantes interrogações na sonora travessia dos altos e baixios tons do passear pela vida. Sem "tato" na língua, sem cera nos ouvidos! Ouço vozes, em coro unísono, que me dizem: "carece de se ter coragem..." 

Sigo cego e surdo, com meus barulhos.

_________

terça-feira, 3 de julho de 2012

Carta a Otto ou Um coração em Agosto

Este é o título de um novo livro da obra do escritor mineiro Paulo Mendes Campos que será lançada na Flip (Festival Literário Internacional de Paraty - RJ). Soube desse fato na Folha de hoje! Como de praxe, a "exclusividade" da Folha nos possibilida o brinde de uma leitura de um trecho dessa nova obra em vias de ser publicada.

Eis o trecho, de uma literatura cativante, com suas palavras escolhidas a dedo pelas trêmulos e inquietantes mãos do escritor da Geraes, divulgadas pela Editora do Instituto Moreira Salles (ims.uol.com.br):

"Possuo o passaporte do infinito:
uma rosa, um canto, uma pintura,
tanto faz: inaugurar o mundo.
E tudo é abismo, e tudo é tarde
e sobre tudo cai a cinza dos poemas.
Mas a solidão tem sentido.
Sabes
que na lucidez da madrugada,
um amigo te entende e outro te chama,
e um quer te ajudar,
e o outro te convida para jornada
e quer mostrar-te a pedreira de mil faces,
e todos querem saber de ti, da tua bruma,
das visões inenarráveis do melancólico"

Trecho de "Poema a Otto Lara Resende" ou "Vinte e Três Agostos no Coração", do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos. Na foto acima, Paulo é o último, diametralmente oposto a Drummond, ambos circunscrevendo, Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira e Mário Quintana. 

***

E com um pouco de poesia,
caminho meu dia!


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sem sal

Sem Sal

Sabe o que mais me irrita em você?
É que você é tão previsível,
tão morno,
tão bolacha água e sal!

Acredita nos editoriais,
dá risada dos comerciais,
fala de política,
como se vendesse balas no semáforo!

Isso é de dar nos nervos,
ouvir sua conversa muda,
que só grita com os olhos,
ou quando te insulto,
com impropérios,
ou indultos.

Irrito-me a certo ponto
que desejo-lhe
nos momentos em que me afogo
nas torrentes da raiva
que você tome morada
eterna e gelada,
nas sombras eternas,
para não mais me coçar
com as pulgas da paciência,

Contudo, 
num segundo,
já revolvo as opiniões,
grito de joelhos,
lamúrias e perdões,
e justifico
que ser sem sal,
em meio a obesos,
hipertensos e bufões,
pode até ser uma palatável,
deglutível e suspirável,
prato encorpado, 
se bem acompanhado,
um caldo de relação!

Barbas

Barbas

As barbas estão tão na moda,
assim como
as mentiras cotidianas,
os abraços esterilizados,
as falas de elevador,
as sombrinhas desmontáveis,
os contatos de conveniência,
os contratos com suas reticências...

Sim, as barbas estão na moda,
estão em toda a parte,
canto ou face,
escondem o encardido,
os restos de sorte,
as revoltas de épocas
nervos e livros,
no avassalador descuido,
roedor da roda.

A barba toma conta,
dos cantos,
dos encantos,
vai plantando,
em cada póro,
uma vegetação espinhosa,
na aridez da caminhada arrastada,
piniquenta
ouriçada,
das minhas trilhas fasciais

Mas um dia,
num átimo,
numa fúria cortante,
cega e amolada,
na sangria de uma lâmina,
ponho fim,
nesta crosta de fâneros,
pêlos,
gritos,
sonâmbulos
roço esta implacável máscara,
dando fronte,
a afronta,
de ter a cara,
limpa,
aos tapas da vida.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Dias sem palavras

Escrita livre, amarrada ao sono, arisca ao silêncio... Porque não fui gerado pedra, com sua obstinada amizade ao silêncio?

Dias sem palavras,
muitos espaços,
brancos,
pios
de ecos

Espremo
respiro,
transpiro
e das palavras,
só os cacos,
os excrementos,
nessa petrosa testa que me grita,
em suas circunvolúvias dúvidas cinzentas

Aperto os dedos
no teclado sintético,
grito nas profundezas,
e de resto,
não ouço nada
além das insignificâncias,
que rodeiam
minhas neuroses,
nesses ossos trêmulos,
carne fraga,
fôlego efêmero,
risco n'água,
ponto fraco de freios.

Amanhã as palavras voltam
como das férias,
bronzeadas,
risonhas,
entorpecidas,
para mais um dia,
que consome
suga
e rouba,
seus capitalísticos preços,
creditados, num átimo,
em segundos,
em troca,
das espectativas
e dos sustos,
de um surto,
nessa masmorra,
de ser o mesmo,
aqui, alí ou
em Andorra.
Para dos grilhões,
lembrar apenas,
do peso,
e correr das palavras,
não mais cativas,
tão soltas,
como abraços de andorinhas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Goteira

Torneira a goteirar,
escorre,
continuamente,
mesmo frente
a ínfima força
constritura e óssea
de meus punhos...

Como posso,
reprimir a fugidia,
liquefeita persistência
do goteirar?



domingo, 17 de junho de 2012

Isabel

Isabel

Prosa entre as janelas laterais, grades e as memórias fugidias

Menino, você precisa de uma empregada?
É, eu vi, mesmo. Ela vem toda semana?
Ela é asseada, limpa os vidros.
Gosto de vidro limpo.
Tô procurando um outro serviço.
Uma intera, sabe?
Não tá fácil...

É eu passo roupa tambem,
Cobro 60 reais o dia.
Eu acho justo.
60 reais e a gente toma água,
come alguma coisa que os estudantes dão...
Acho justo.

Eu sou sozinha, menino.
Não tenho filhos, nem marido.
Tinha uma irmã.
Ela morreu faz 15 dias.
Do coração.
Mas a gente não se criou junto.
Me criei com outra familia.
Meu pai não conheci.
Meu pai também já morreu.

Você tem um dinheiro pro meu ônibus?
Não água eu não quero não.
Tem suco?
Você tá estudando?
Já se forma este ano!
Eu trabalho para uns estudantes de medicina.
Eles vivem falando pra eu tomar o remédio da pressão.
Eu tenho Chagas, coração grande, sabe?
Diz nas linguagens deles, dos médicos, coração de-latado.

Eu vou seguir meu caminho.
Vou lá pra cidade,
Passar roupa de uma dona.
Essa aí gosta muito de mim.
Os cachorros dela nem latem quando chego lá.

Vou seguindo menino
Pelejano com a vida
Já pedi até pra Deus me levar
Sou sozinha.
Trabalho muito.
Mas ainda não é minha vez, né.
Agradecida pela atenção.

(e vai-se Isabel, em seus passos arrastados, rumo ao ponto, não ao céu...)

Um artista da fome

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros.

Franz Kafka

As surpresas certamente engrossam o caldo da vida. Ver um teatro baseado na obra de Kafka "Um artista da fome" compôs e muito com uma das minhas fomes mais rutilantes: a fome pela arte de viver!

Peça belíssima esta que ocorreu no CIS Guanabara!
Para os interessados, vejam o link - http://www.cisguanabara.unicamp.br/050612.htm - que traz mais informações sobre a peça em questão e suas "irmãs", também baseadas nas obras de Kafka que serão apresentadas até meados de julho, "no chapéu".

Kafka nos propõem o jejum, penúria quase insuportável na contemporaneidade (na minha e já na de Kafka, inclusive). Tempos em que vivemos em meio aos excessos de comida, de tecnologia, de sensações, de prazeres, de dores e frustrações, dentre outras iguarias no menu da existência!

O artista, o da fome, resistia bravamente em sua arte de jejuar, pois via no jejum não seu negativo (a falta de), mas seu positivo (o distanciamento dos "maus alimentos"). 

No jejum, artista e arte se encontram num só tempo-espaço, entre carne e ossos, arte de confronto, de resistência. 

Preciso acordar o artista da fome, este farrapo que mingua num canto escuro do picadeiro-de-mim, ofuscado pelas atrações estroboscópicas da cultura do espetáculos em que dioturnamente me afoga.

Talvez uma releitura da obra de Kafka faça sentido para a busca de novos conceitos, esta travessia orgulhosa e não menos arriscada, de ser um artista faminto pela arte da vida, em atos singelos mas que "enchem o mundo de justificado espanto".

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Dois rios

Dois rios

Dois rios me atravessaram,
tirando além do ar, as fuligens das banais rotinas

Dois rios,
o maduro, silencioso e profundo,
das demências...

O outro,
o raso, transparente e ondulante,
das eternas infâncias

Estarei eu entre os que se fartam
da falta,
da limpida ausência de ar?

Ou entre os humanos,
angustiados dos desejos,
da pura e ventilatória liberdade?




terça-feira, 12 de junho de 2012

O discurso e o aquário


Na tentativa de tornar mais concretos e vivos alguns conceitos filosóficos com os quais tenho tido mais contato e familiaridade ao longo de leituras e reflexões de vida no presente momento, procuro transcrever alguns aprofundamentos teóricos alicerçados por comentários e discussões com provocações que me ocorreram neste percurso, íngrime porém liberador pelo horizonte que se desponta à vista.

Foucault, seu pensamento, sua pessoa, de Paul Vayne, será o combustível de muitas das estórias aqui concretizadas por uma espécie de "escrita convulsiva", dedicada à dar movimento aos conceitos que efetivamente carregam em si o encômodo frente ao estático.

Conceito importante foucaultiano que tomo emprestado para a compreensão das redes de disputa tecidas entre o Saber e o Poder é o famigerado "DISCURSO". Aqui, trago uma concepção de discurso que o encara como uma espécie de manobra descritora da realidade, que visa de maneira descritiva, prescritiva e cerceadora, dar corpo a uma formação histórica, à um estado de nudez escancarada a um determinado modo de se construir relações humanas. Não é à-toa que os discursos impregnam as leis penais, a arquitetura das instituições, os costumes com o intuito de formar verdadeiros DISPOSITIVOS ou PRÁTICAS DISCURSIVAS que efetivamente reforçarão a vivacidade do DISCURSO no cotidiano.

Compreender a ideia do DISCURSO parte de um pressuposto: o fato de não se possuir uma verdade adequada das coisas, por se entender que o alcance que se tem de uma COISA EM SI se dá através de uma ideia construída desta coisa em uma dada época (ideia esta que conta, em última análise, com a solidez de um discurso que marmoriza suas bases existenciais). Daí a necessidade de se compreender este alcance enquanto "fenômeno", visto que a COISA EM SI se encontra assoreada pela terrena magnitude do DISCURSO.

Esta forma de se pensar não seria, portanto, pluralista de mais a ponto de desacreditar a existência de verdades que conduziriam a vida humana? O homem sobreviveria a um mundo sem verdades? O homem sobreviveria a este ceticismo?

Não responderei estas questões neste momento. Contudo, venho ponderar que o conceito de DISCURSO e os demais motes que irão dar amplificação à sua problematização, serve para se pensar o quanto as práticas e relações no "andar da vida" estão capturadas por este campo muitas vezes invisível, mas que, ao se empreender uma tecnologia de si que permita dar vida ao DISCURSO e combater a ilusão tranquilizadora referente à adequação humana às suas verdades generalizadoras, aprimora a vivência de relações mais potentes em uma vida ética e politicamente engajada pela busca dos encontros alegres, que reforcem a diferença e as práticas não-fascistas.

Ter em mente que estamos numa redoma de vidro, numa espécie de aquário falsamente transparente, como pensava Foucault à respeito do DISCURSO, permite uma vivência que refute o bombardeio de ideias gerais que apedrejam as retinas de vida cotidianas, que ao longo dos anos, nos vai levando a um estado de amaurose irreversível frente às singularidades e às multiplicidades que, em última análise, compõem com a produção de vida, pela capacidade de captar a individualidade - elevada a seu significado mais positivo - apagando os estereótipos.

Em síntese, o conceito de DISCURSO contruibui para uma empreitada anelídea, rastejante e acrobática, pelas microfissuras, rachaduras e rupturas existentes nas continuidades reguladoras edificadas pela história da origem dos conceitos devindos e à devir.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Reunião Clínico-Cirurgica

Reunião Clínico-Cirúrgica



3 casos, 3 dúvidas
Tosse, tosse, tosse...



Sala escura.
Convidativa,
aos didáticos devaneios de Morfeu.

Imagens à esquerda,
Radiogramas
Tomografias,
fatias de dúvidas torácicas.

Na direita,
linhas curtas,
sopradas pelo residente,
fulano, idade, queixas
Tosse, tosse, tosse...
Os decanos,
apontam com as sombras,
ditando fagulhas de sapiência.

Apontam patologias
que meus olhos sonolentos,
não diferem das plumas,
quando jogadas ao vento,
forasteiros àquele ditado pneumônico

Há sempre um silêncio,
quando a dúvida é posta.

Os decanos a digerem,
Eructam com classe,
suas coordenadas
soprosas em coro:

Broncoscopia
Uma biópsia?
Talvez, novas imagens?
Seguimento clínico,
Retirar fungicida?

Tosse, tosse, tosse...

Escuridão completa,
Chega a  enegrecida transparência,
"Pense em tuberculose",
é o coro que se ouve,
e as cabeças balançam
como cílios na traquéia,
tocando o muco finalista
da contínua,
repetitiva,
dispneicamente enfadonha
reunião clinico-cirúrgica.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

ILUSÃO



"Ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente.
Já, alucinaçao é a percepção clara e definida de um objeto sem a presença do objeto estimulante real".
(Dalgalarrondo, P; 2000, p.83)


Sei que vai duvidar,
cruelmente como a morte,
Mas acredite.
Estava parado.
Naquele momento estava parado.
Mas se mexeu.
Por um instante.
Vivo.
Andou.
Saiu do lugar,
por um triz,
Saiu e voltou.
como uma atriz.

Cantava alto.
Em contraltos,
mas silenciou.
Rimava os finais,
com longos ais,
mas acabou.
Não se ouve mais nada,
emudou.

Chega de seus comentários!
Isso não se move,
muito menos canta.
Seus nervos estão enfermos, camarada!
Cale-se de insignificâncias!
Me deixa dormir,
na minha cama de plumas,
antes que Napoleão nos acorde, com as trombetas!


domingo, 3 de junho de 2012

Cinta de Moebius

Instigado pelas palavras do Prof. Mehry, proferidas numa palestra no Instituto de Psicologia da USP que acabei de ver, resolvi escrever algumas linhas sobre o tema Molar/Molecular trazido no debate dos desafios do SUS.

Para entender a relação molar/molecular, além dos aportes teóricos que aprofundam as discussões neste tema (fica como indicação de leitura a obra de Félix Guattari, Revoluções Moleculares), parto de um exemplo:

Tomemos como nosso objeto um copo cheio de água. Nele está contido uma infinidade de moléculas de água, compostas de hidrogênio e oxigênio. Contudo, quando estou com sede e solicito a necessidade de ingerir um copo d'água, além das moléculas de água, preciso da molaridade contida no copo d'água - ou seja, de todas as relações existentes entre as moléculas de água que concebem a existência de um estado entre essas moléculas, um arranjo molar, que a torna ingerível, e que comporá com o meu corpo matando a minha sede.

Por este exemplo fica clara a necessidade de tornar-se visível a relação imanente entre os estados molecular e molar. Assim, distancia-se da ideia dicotômica que estes dois conceitos continham, à priori, para entender que o funcionamento de ambos requer uma coextensividade entre seus limites, em algumas situações imperceptíveis ou minoritários. 


Cinta de Moebius - Escher


Mas o que estes "conceitos inventados" dialogam com as tensões e os questionamentos que este professor (e eu, por conseguinte) carregamos em nosso "andar a vida"? O que se vê de molecular e molar no entendimento do SUS? Como este agenciamento maquínico (esta ferramenta conceitual, a relação molar-molecular) contribui para dar saltos qualitativos frente às demandas e obstáculos existentes para a construção de um SUS que defenda incodicionalmente à vida de qualquer um como patrimônio social?

Ora, um SUS que se proponha a defender à vida, de ressaltar à diferença do outro como trunfo e auto-defesa das diferenças e multidões que cada vivente carrega em si, prima por articulações molares à fim da construção de uma Grande Política, molecular, não-clonificada, o que o autor discute como "uma política do encontro com o outro que produzirá a diferença em nós", numa luta constante e perpétua contra os modos de vida capitalísticos e fascistas.

Discutir a molaridade das políticas em saúde para a superação do SUS existente, dicotomizado na lógica público-privada dos idos do liberalismo de Robbes e Locke, com a diferença de portar a maquiagem das práticas neoliberalistas correntes, abre campos de luta, linhas de fuga para se pensar novos agenciamentos no campo da produção de saúde e qualidade de vida a todo e qualquer cidadão.

Ter isto em mente é um compromisso ético-político que deve ecoar no trabalho vivo em ato, e que já ecoa, embora seja silenciado pelas práticas capturantes, sintetizadas pelo modo de agir-torturador de muitos profissionais da área da saúde.

Quais são os privados que nos interessam? Se a vida do outro é entendida como um bem privado, o bem mais valioso, trata-se este de um privado a ser defendido? Pensar o que se conceitua por privado é condição vital para se instituir os arranjos de ordem pública e denunciar e execrar práticas de privatição das atividades públicas aumentativas de potência de vida que subsistêm aos agenciamentos mortíferos do neoliberalismo.

Tem-se uma aposta: tal como fez Escher, como sua "cinta de Moebius", que subverte a relação dentro/fora às "retinas de nossas vidas cansadas", acostumados às formigas em planos retilíneos e mal-humoradas com as cigarras, façamos o mesmo com a dicotomia público-privado, munidos da potência molar/molecular como uma ferramenta possível de superação aos impasses enfrentados pelo SUS em sua busca de defender incodicionalmente a vida de todos os cidadãos brasileiros. Uma aposta na diferença, frente à repetição.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sem ar

Sem ar

... Respire fundo pelo nariz e solte o ar pela boca... 

Falta-me
além do pão,
das boas amizades
e dos carinhos matinais,
ultimamente,
o ar.

Existe remédio,
substituto ao tédio,
para a ausência
desta rica e minéria
excrecência?

Do que adianta,
o ar entre tubos,
gélido, quase em cubos,
sem que se circule,
turbulento e púbere,
o ar?

Respiro fumaças,
que palpitam minhas entranhas,
Cesso vícios,
Inicio outros,
criteriosamente prescritos,
mas o forasteiro,
sumido, estrangeiro,
continua a faltar-me o ar

Há só uma saída,
mais aerada,
sem neblinas,
viver sem esta bruma,
contentar-me sem as plumas,
ter na solidez cotidiana,
a inexplicável adaptação
baqueteada e cianótica,
vida acinzentada, sem ar!






Dito isto

"(...) tudo o que eu vier a dizer-te, penso, e não me bastando pensá-lo, amo" (Sêneca)

Dito isto

Foi isto que disse,
não foi engano,
exagero,
palavras raivosas
saídas das ruas tortas

Foi isto que disse,
sem mais delongas,
sem gorduras,
ou maquilagem
sem impropérios,
ou paisagens

Dito isto
sobram os escombros e
seus tijolos,
vazios da concreta fantasia

Dito isto
resta apenas,
nem tangos,
nem macarenas,
só o silêncio,
dos jardins da Patagônia.




Filosofando: Spinoza e as três "éticas"

Nesta sessão do blog tentarei trazer tópicos em filosofia (sobretudo dos Filósofos da Diferença), com o intuito de fixar leituras, explorar fronteiras e sobretudo, pensar o cotidiano e seus desafios.

Spinoza e as três "éticas"





Deleuze, em seu último livro "Crítica e Clínica", traz em seu último capítulo o título "Spinoza e as três éticas". Neste texto o autor retoma a obra mais importante de Spinosa, a Ética. Começa por dizer que esta obra, embora aparente ter uma linearidade geométrica e geográfica, transparecendo ser um rio calmo acaba por nos surpreender com suas avassaladoras discussões e proposições.

Assim, um rio pacato transmuta-se em um mar revolto, pela potência de suas revelações.
Parte da discussão de seus três elementos principais:
- A proposição dos signos ou afectos, bases do primeiro gênero do conhecimento
- A proposição das noções ou conceitos, bases do segundo gênero do conhecimento e finalmente,
- A proposição das Essências ou perceptos, bases do terceiro gênero do conhecimento.

Os signos contem a capacidade de serem polissêmicos. Contudo, aglutinam um único e só efeito. Os signos representam a capacidade de um corpo deixar um vestígio sobre outro, mudando a sua duração. Por exemplo, quando o sol interagem com nosso corpo (nossa pele) ele deixa uma marca, o bronzeamento. Assim, a interação de dois corpos, que resulta em uma "marca" em seu ser (em sua duração como corpo, que se vê mudada por essa relação) acaba por constituir um afecto, um signo!

Aprofundando o entendimento dos signos, Deleuze, os classifica em determinadas formas. Abordarem os signos denominados vetoriais, ou seja, aqueles que se caracterizam por aumentar a potência, diminuir a potência ou mesmo se comportarem de forma ambígua quanto a potência (em determinada situação podem aumentar ou diminuir a potência de outros corpos). Assim, surgem os conceitos potências aumentativas e servidões diminuitivas, além dos signos flutuantes ou ambíguos, metaforicamente comparadas a uma escala de cores em dois tons (claro-escuro) em que as potências aumentativas comporiam a claridade e as diminuitivas ou serviçais dariam vida às tonalidades obscurantistas.

As noções já constituem o segundo gênero do conhecimento, ou o segundo modo de existência ou de expressão. Noções comuns são conceitos de objetos. As noções comuns constituem os corpos que são a representação de infinitas relações que se compõem e decompõem. Assim meu corpo representa-se por um conjunto de infinitas relações que compõem o meu corpo. A constituição de um corpo exige a seleção de afectos passionais, condição sine qua non para se sair do primeiro gênero do conhecimento. Contudo, esta garimpagem dos afectos não se dá de maneira isenta de tensões.

Tal seleção dos signos requer a Razão, ou seja, o esforço pessoal que cada um faz sobre si mesmo para melhor escolher dentre os afectos ofertados, além de exigir um combate afectivo inexpiável em que signos digladiam com outros signos e afectos tensionam com outros tantos afectos. É pelos escólios da Ética que se anunciam os signos ou a condição do novo homem, aquele que aumentou sua potência o suficiente a ponto de formar conceitos e converter os afectos em ações.

Por fim, almeja-se chegar à Essência, com sua velocidade absoluta. Esta em que a natureza e as potencialidades do existir tomam vida plena... Terceiro gênero que será fonte de conversas futuras...