domingo, 14 de agosto de 2011

Esperar

Na mesa,
espero um doce,
que de frio,
em caramelos,
refresque o pensamento,
adoce o esquecimento,
e mande meu aguardo
pelo não pedido,
ou o pela vida, perdido,
quieto, na goela do devir.

Chão

Hoje,
as pessoas só andam de carro.
Será que se esqueceram,
de que o pisar no chão,
além de realidade,
tinge os pés,
de conforto vão
e veste os pés
com solados de carne e barros.

Entardecer

Quando as árvores se destacam,
entre seus galhos,
e as núvens mais embassadas ficam,
é o anúncio que mais um dia míngua.
Vou me por-no-sem sol do dia,
entre as barreiras, portas, cortinas, teias.
Vejo o sol, de uma fresta,
vejo que a vida é apenas esta,
e o possível, o que desponta.
No entardecer,
o viver paree mais fino,
tal como a despedida das vagas lembranças de criança.
Entardecer,
mas o viver,
em meu por do sol sem fim,
apague, no poente, meus medos dos escuros.

Cala-te

Cala-te,
Ser dos controles,
este fio é meu,
a vida de meu andar,
seus saltos e sons não regulam.
Cala-te, fria sombra,
os músculos tensos vibram por meus quereres,
sua voz,
sem poderes,
da profunda surdez de mim.
Cala-te, faca desmontável,
seu pulso não oscila dos meus tremores,
tenho muitos amores,
que não vascilam como os seus.
Apenas, cala-te, mais uma vez,
e me deixa,
perder minha insensatez
fugindo de sua lúcida solidez.

Proust

O sujeito é pouco.
Sou teia na mosca,
a forma sem moldes.
O abraço do vento
é a essência que balbuci,
quando me calo,
e minha mão
fala impropérios,
num mundo dos impossíveis.
Nesse momento,
o que mais queria:
muito papel,
pouca folia,
para incendiar o externo
do fogo que me domina
quando flambo o papel,
com versos tremeluzentes.

O papel aceita tudo

O papel aceita tudo
Recebe minhas palavras,
como parentes distantes.
O papel dá espaço,
indica um plano de apoio,
e continua, branco de mudo,
com suas beiradas estreitas,
a falta de linhas...
Se de dentro é que vem o mote,
é de fora que se tem o desnorte.
A palavra e o corte.
Ambos sangram,
a primeira, com cicatrizes.

Desencontro

Na caminhada
Em frente um casal
Falam palavras lentamente pronunciadas,
Dando suspiros,
pontuando as orações.
É uma cena esdrúxula,
que termina, como no cinema americano,
resolvida com as boas doses de saliva.