sexta-feira, 28 de maio de 2010

Reflexões durante o jantar no Bandejão

Depois de um dia cheio de coisas, para ser sucinto, em um trem de palavras:
Pós-festa-prova-terninho-vascular-bandeco-puccamp-bandeco-blog, resolvi escrever alguns pensamentos que me brotaram durante minhas ruminações no bandejão!

Eis que seguem, em "prosa catártica"

Bandejão

Fim do dia. Todos com suas bandejas na mão. Mãos que sustentam um pouco de tudo: um cansaço como poeira dos móveis, uma fome que modula com o cardápio, uns sentimentos muito misturados que só com a mastigação lenta e articulada se pode ter sabores diferenciados. Em três movimentos, três rostos diferentes, três misturas na bandeja. As mãos como que automáticas oferecem quantidades variáveis de nutrientes e de distanciamentos. No final ainda resta a sobremesa. Dois figos, verdes e doces, embora ainda adstringentes. Combinam com a aridez do fim do dia, um dia que começa com os rumos já delimitados pelo acúmulo do vir a fazer.

Procuro um espaço entre as brancas mesas largas, esporadicamente ocupadas, ora nas pontas, ora nos meios, ora por falantes, ora por apressados a brigar com a comida, que parece fugir da boca, negando a obedecer a pressa cotidiana, inexplicavelmente presente até no suor matinal.

Sento entre os espaços. Não porque me encomodo com as laterais ocupadas. É que espero que a companhia ainda chege. Sim, sentar entre os espaços é uma forma de esperança. A aleatoriedade dos comensais pode vir a ocupar o meu redor, e à partir disso, uma solidão cristalizada pode dar espaço a uma companhia meteórica, cronometradamente ligada ao tempo de órbita gasto entre o garfo e a boca.

Mas as ocupações próximas não me são tidas como transparentes. Logicamente interferem no meu apetite e no meu campo auditivo. Há assuntos inusitados , outros desagradáveis, outros poucos que irrompem o silêncio da mastigação rápida da partida breve. No bandejão, muitas coisas acontecem além do som metálico dos talheres. É lá que se tem os olhos livres, a divulgação das festas, o chá mate que dicotomicamente cria admiradores ou perversos inimigos, a sapiência dos velhos funcionários, as carecas dos novatos calouros, ou seja, é no bandejão que a universidade se desponta em suas mil-faces, ou mil-fomes. Posso observar e meticulosamente concluir que neste pequeno período do dia, entre movimentos tidos como mecânicos e de sobrevivência, a massa que digere o conteúdo da bandeja está também consumindo a solidão.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Muitos Meursaults...


Voltando a Camus,
Teço como mote de uns versos o julgamento do estrangeiro tão anfitrião da alma humana,
Meursault e suas ambivalências tão cotidianas...

O julgamento

Julgam-me
Não entendo o porquê
Talvez, seja
porque sou homem
porque sou fraco
porque sou estrangeiro
porque sinto intensamente
e vivo sem da vida fazer reticências...

Na verdade, não julgam-me
Condenam-me
Sou réu confesso
porque não padeço
porque não careço
porque não compadeço
e sinto que as mentiras são tão necessárias...

A sentença está tomada
Os caminhos, duvidosos
As alegrias, repentinas
As platéias, famintas
E os gritos de ódio,
A ambígua contestação de quem do mundo se expulsa
Mas não se compreende.

domingo, 16 de maio de 2010

Interioridades...


Foi lendo INDEZ, de Bartolomeu Campos Queirós, indicação de uma senhora que conheci no Rio de Janeiro, que revisitei minha vida no interior de Minas Gerais. As palavras deste autor, tão cheias da vida mineira cristalizada como o acúcar nas quitandas dos cafés da manhã fartos e fortes...

INDEZ, o ovo que dá a direção, que resguarda a vida do ninho, a referência do choco...

Talvez, com este livro, Bartolomeu colocou um pouco de seu cerne, que de certa forma, sinto-me um tanto quanto contemplado com alguns dos olhares presentes na prosa leve deste meu conterrâneo.

Divulgo dois trechos deste livro, que indico aos mineiros em busca de reviver uma saudade das Minas Gerais, e aos não-mineiros, para que compreendam o saudosismo que os mineiros carregam para todas as terras por onde passam, mesmo as mais receptivas!!!

Do livro de Bartolomeu Campos Queirós, INDEZ, cito:

"Na escola a professora ensinava leitura. Foi sem esforço que o menino aprendeu. Ele já conhecia que entre as letras e seus silêncios podia-se saber muito mais longe. Era possível viajar mundos distantes. Mundo que o olhar não alcançava, mas o livro trazia. E daí, para Antônio escrever, bastou ter apenas um lápis".



"Não sei quantos anos se passaram. Sei que continuo recebendo recados de Antônio sempre: - nas tijelas de arroz-doce das estações rodoviárias, na água que cai do sino em dias de chuva, nas caixas de lápis de cor nas vitrines no cheiro do arroz-afogado, no quadrado do sol passando pela janela, nos pés de jabuticabas, nos arco-íris e casamento de viúvas, nos aquários com peixes, nas crianças que cruzam as ruas de uniforme, no chofer que passa dirigindo seu caminhão, no silêncio dos meninos sob marquises, no ovo frito sobre o arroz, nas notícias de nascimentos prematuros, nas rodelas de salame de super-mercados, nas histórias de tatu-bolinha ou de fadas, nos passarinhos do demônio voando em igrejas, nos ratos sem asas, nos cascavéis, nas bandas de música, nos limões, nas ferraduras dos cavalos, no leite das cabras, nas maçãs sem papel roxo, nos ramos de funcho, poejo, erva-doce, nas estações das águas, na estação da seca, nas cigarras cantando no fim da tarde, nos defluxos e coqueluches, no cheiro dos currais, em trilhos e atalhos, em manteiga de cacau nas noites de frio, em retratos de mares, em gosto de lágrima, em galinhas e ninhos, em fogueiras de Santo Antônio, nos domingos de ramos, nos medos de demônios, assombrações, nos aniversários, na visita das abelhas às flores, no cheiro das gemadas, na primeira estrela que eu vejo, no queijo derretido em fatias de bolo, nos estojos de madeira, nos bilhetes recebidos a lápis, em frutas fora do tempo, em cadernos brancos, em diálogos e silêncios, em partidas e chegadas. Não há como esquecê-lo. Mesmo se tento prestar atenção ao meu trabalho, se escrevo com caneta vermelha ou azul, se passa uma formiga ou a sombra de um vôo de pássaro, se olho as nuvens ou relâmpagos, se entro em capelas ou se passeio em parques, Antônio não me deixa. Não sei qual de nós tem mais e do ou qual de nós tem mais amor".



Dominique A, Le sens - Concert privé Fnac

Le sens - O sentido

Para aqueles que buscam sentido...
Desde à maternidade!

Esta música é uma melodia confortadora!
O vídeo da música se encontra também no Blog!
Aproveite, melodia e letra, para buscar sentidos...

De Dominique A, Le Sens!

J'ai tout essayé
J'ai pas trouvé le sens
J'ai marché dans la rue
J'ai écrit "j'ai aimé"

J'ai voyagé, j'ai cru
J'ai nié des évidences
J'ai nagé nu, mais désolé
J'ai pas trouvé le sens

J'ai pas envie de sauter
J'ai pas envie d'une balle
Je préfère exister
Même si c'est pour que dalle

J'aime bien respirer
J'aime bien me sentir sale
J'aime avoir de la chance
Et me faire embrasser

Mais bien sûr si j'y pense
Tout ça n'a pas grand sens
Mais bien sûr si j'y pense

Aujourd'hui, braderie
J'offre tout ce que j'ai
Je donne tous mes objets
Mes souvenirs aussi
Contre un sens à ma vie
Même un qui fait son temps
Même un peu décevant
Même que pour les vacances
Même que le temps d'une danse

J'ai tout essayé
J'ai pas trouvé le sens
On dit que pour beaucoup
C'est la même béance

En ont-ils tous conscience
Tout le temps ou pas à-coups
Peut être fallait-il
Le commander à la naissance
Avec un peu de chance
Nous parerions que c'est pour nous

Il y a peut être encore un sens
Qui attend que j'aille le chercher
Sagement à la maternité
Un qui a son box aux urgences
Peut être ne suis je pas né
Peut être ne suis-je qu'absence
Tant que ne m'est pas donné le sens

terça-feira, 11 de maio de 2010

Falas de um estrangeiro...


Lendo Albert Camus, depara-se com a seguinte máxima:

"On finissait par s'habituer à tout"

Será que é tão simples assim?

No final das contas, tudo é passível de ser vencido pelo hábito!?

Para muitos, este talvez seja o caminho menos árduo.
Resistir, como a palavra quase indica, é um existir quase dobrado.
Daí, a dificuldade...

Habituar-se, a tudo, creio não ser possível.
Nosso jeito humano é inquieto, bicho-carpinteiro...
Não se acomoda tão fácil...
Quer superar-se...

No final das contas, haverá uma segunda opção.
Mesmo que a escolha do habituar-se pareça a única.

Há sempre uma linha que transgrida o hábito,
Mesmo sob o olhar tubulado nascente do interior de um tronco seco!

Camus e suas sutilezas...
Muitas linhas ainda virão para este blog!

domingo, 9 de maio de 2010

"A vida só é possível reinventada"


Foto gentilmente obtida de Fabiano_07 em seu Flickr

Cecília Meirelles disse este verso...
Um bom mote para algumas palavras...

A vida reinventada

É rotina.
É mesmice.
É comando.
É tolice.

A vida me cega.
A vida me condena.
A vida me regra.
A vida me seca.
A vida me acorrenta.
A vida me pega.
A vida me deda.
A vida me doma.
A vida em coma.

Não.
Engano arrebata meus olhos.
Quero tesoura,
Quero esta venda em fiapos.
Vejo luz.
A vida reinventada.

A vida me leva.
A vida me mostra.
A vida me lança.
Na vida se descança.

A vida não se repete.
A vida é diversa.
A vida é conversa.
É promessa, é modesta.

Reinventada.
Não é igual,
Ao ontem,
nem o hoje de antes pouco.
Nem aos 17,
Nem ao segundo.

Vida,
este trem que não pára.
Estações inconstantes...
Segue travessia,
Passa por mim.

Trilhos de ferros,
tortuosos...
Sou fumaça,
Ar consumido,
Sem destinos.

Volver a los 17 - Mercedes Sosa & Milton Nascimento ( TRIBUTO A MERCED...

Volver a los 17...

Hoje encontrei esta preciosidade...
Linda canção...
Milton Nascimento e Mercedes Sosa
A música viva dentro da gente!

Vale a pena ver o vídeo acima!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O limão de meus pesos...


Para emagrecer
Prescreveram-me limões.
O oposto fizeram ao açúcar,
aos hábitos passados, aos alimentos de costume...

Pediram-me que não usasse temperos,
apenas gotas de limão.
E dos sucos de fruta,
diversos, e das bebidas gaseificadas,
tão boas quando geladas,
nada disso era permitido,
Só o limão estava liberado...

E como o contar de gotas,
Fui perdendo peso
Sentindo um amargor
e ao mesmo tempo lembrando-me do doce passado

O azedo pelo doce,
o ácido pelo tão básico açúcar cotidiano.

Doce
A vida ficou depois da mudança.
Os limões, sem cascas, sem sumos...
A vida sem sua cítrica rotina.
A vida em sua crítica retina.

Um dia perco os 14 Kg
Tão doces ao ouvido
Tão ácidos no percurso

E assim, o limoeiro foi ficando leve
E as amarguras de tão constantes,
breves...