segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia-poema (I)

Dia-poema (I)

Na manhã,
2 pães de queijo duros como pedra,
3 apresentações, curtas como as regras:
o primeiro, liquefeito,
o homem que vê borboletas e que treme o frio dos alpes.
o segundo, paranóide,
o homem das contensões, sonhos entre pedras e metralhadoras
o terceiro, intimista,
o homem que marca as ordens no relógio, nos gritos sem ecos

Uma pausa
3 bolachas,
e um café adoçado com açúcar e plástico
como a manhã pode tornar-se asia!

E depois,
intra-muscularmente
doses cavalares
de precauções
de invenções

Mais diálogos,
dias rotos,
imediatos
o fim
a velhice que me desonra,
que não chega em seu cume da sensata vida
rasgo a rotina
em pedaços de desencontros

Amanhã retorno aos cantos,
digo impropérios,
entoo cantos,
que só ouvem os cegos,
da surdez teimosia,
de ver na tristeza,
a ponta branca, miúda e raquítica,
da enferrujada, amarela e pálida,
alegria.



domingo, 22 de abril de 2012

Aproximações entre a medicina e a filosofia (I)

Foucault traz na obra "Hermenêutica do Sujeito" vários arrazoados teóricos que irão discutir o cuidado de si e as práticas que irão efetivamente torná-lo um acontecimento presente na História humana. Em um dos trechos do livro o filósofo fala da aproximação entre a filosofia e a medicina. São destas considerações que dou corpo aos próximos parágrafos.

Um dos pontos de convergência entre filosofia e medicina reside num sustentáculo comum entre ambas: a noção de páthos. Dentre seus diversos significados, páthos pode ser entendido como paixão ou doença. Esta noção comum tornam medicina e filosofia mía khôra (membros de uma só região, de um mesmo território). Na filosofia, o páthos será visto como uma perturbação, um desarranjo frente às buscas pela verdade impulsionadas pelo desejo humano. Na medicina, o páthos dá lugar a doença, com suas fases e evoluções, que desviam os sujeitos de suas potencialidades.

Para enfrentar o páthos, ambas se basearam na terapêutica (therapeúein). Esta última, também polissêmica por natureza, indica no mínimo 3 direções: 1) terapêutica entendida como a realização de um ato médico em busca da cura ou do cuidar-se; 2) a realização de uma ordem referenciada ao pedido de um mestre, o cumprimento de um afazer e por último, 3) a prestação de um culto a uma entidade. Assim, frente ao páthos, medicina e filosofia engatilham a terapêutica, uma linha de fuga para superar a força negativa da doença/paixão.

Da terapêutica se dará origem aos terapêutas, grupos de filósofos que se isolavam em arredores de Alexandria para propagar o cuidado de si, as técnicas e práticas de si, em busca do cuidado do Ser e da alma. Desta aproximação da terapêutica ao pólo místico e esotérico, pela sombra do cuidado entendido de forma mais ampla, mais espiritual, se dará origem a iátrica (da mesma família da palavra iatrogenia, que denomina as maleficências oriundas dos atos médicos) que representará um cuidado mais corporal, mais ligado à prática médica propriamente dita (embora acredite que a prática médica seja um misto de iátrica e terapêutica!)

Filosofar também é terapêutico!




Falando dos plantões e de Foucault

Falando dos plantões e de Foucault 
 

Para Foucault, citado no livro de Benevides sobre "Grupos":
 
O poder disciplinar engendra processos de separação microfísica servindo para extrair dos corpos o máximo de tempo e de forças, conjugando controle de horários, rituais de higiene, regularização da alimentação etc. A disciplina deve ser discreta, mas permanente, para que nada escape aos minuciosos códigos classificatórios. Foucault diz que o processo de acumulação de homens e de acumulação de capital não pode ser separado.
 
O que isso tem a ver com o internato? E como os plantões?
 
Entrometendo no texto:
poder disciplinar (exercido pelos plantões) engendra processos de separação microfísica (eu-médico x eu-não-médico) servindo para extrair dos corpos o máximo de tempo e de forças, conjugando controle de horários (de sono, de atividades extra-curriculares, de lazer, de auto-cuidado), rituais de higiene (uso de vestimentas próprias, modos de cuidado de si e dos outros, modos de ver o andar da vida de si e dos outros), regularização da alimentação (divisão de horarios para comer, para lanchar, para dormir) etc. A disciplina deve ser discreta (estar no currículo, ser "sorteada'), mas permanente (estar sob a vista do residente, dos enfermeiros, dos técnicos, dos colegas, dos professores), para que nada escape aos minuciosos códigos classificatórios (interno bom, que "brilha', interno breaks, quebra-mão e outras malediscências emitidas pelos "colegas" que não enxergam a luta pela vida versus a luta pelo diploma ou pelo capital ou mercado). Foucault diz que o processo de acumulação de homens e de acumulação de capital não pode ser separado.
 
Vejamos:
- A inserção dos plantões noturnos de 12 ou 24 horas no currículo médico fazem parte da lógica do poder disciplinar, pois de certo modo são vistos como "meios de modelagem" para uma "certa formação médica" .
 
- Os plantões buscam extrair o máximo de nossos "corpos físicos e intelectuais" como podemos diagnosticar quando ouvimos frases de corredores que enfatizam a necessidade de responder a demanda das fichas vindas da porta, as pendências dos pacientes das macas, dos possíveis pacientes da cirurgia quando estão no seu horário do plantão, sem a devida supervisão.
 
De fato a disciplina é discreta, mas permante, tão discreta que muitos acabam a confundindo com "pegar mão de PS", ou "não ser breaks", ou "tocar serviço". Temos a capacidade de "normalizar" o escabroso que é "fazer uma atenção aquém do que pretendemos para além do que detestamos".
 
Os plantões diurnos são mais estruturados. Mas sempre fui contra a lógica das 24horas de plantão. Quem gosta MUITO de algo não consegue ficar fazendo isto 24 HORAS... Gosto muito de ser médico, mas depois de 12 horas, gosto de ser homem, de ser mineiro, de ser filósofo, de ser poeta, de ser amante, e o ser médico precisa repousar o sono ("dos justos?")
 
O que acontece é que estamos inseridos numa lógica disciplinar em que linhas de fuga não nos são possíveis, a discussão das folgas pós-plantão nem são postas como conjecturas num futuro provável... 
 
O que fica dos plantões noturnos? Além dos destroços que precisam dar corpo a um dia seguinte de trabalho e estudos, sobram a alegria de um plantão a menos... Mas não tem nada de positivo? Seria um demagógico se dissesse não! Há sempre um descanso na loucura, nos disse Guimarães Rosa, então nesses momentos dos plantões há pontuais momentos de lucidez, de uma certa força que dá resultados há você e aos pacientes, mas que potencialmente seria mais viva e operante se o desamparo do boa-noite cinderela não viesse no badalar das 12 horas...
 
Fica a pergunta: o que mudará?