terça-feira, 13 de dezembro de 2011

CC


CC

A sala fria
A primeira, com sangue chega
A circulante
Enfermeira das coisas
Arruma minuciosamente tudo:
Panos estéreis
Plásticos, também estericos
Tudo no lugar
Menos os olhos,
Que plainam na sensação
Neurótica e nistagmatica do esquecimento
"não me pergunte nada
Fale com os anestesistas"
Mas não quero saber da ausência da dor,
Quero entende-la
Quero saber o que existe
Entre gorros floridos, mascara e este azul sem céu
Que te tira da nudez homo sapiana
Quero sua palavra na ausência dos cirurgiões
Procuro a palavra entre a lista
Que carrega, de cor, ao montar
Este teatro de horrores curáveis
"não me incomode com suas perguntacoes...
Tão sem éter,
Tão emendadas no extra-campos amicrobioticos"
Não mais interrompo
Sua cotidiana e ritualesca sina
Contar compressas
Em lentas epifanias: "falta uma"

Fabrício Donizete da Costa

domingo, 30 de outubro de 2011

Marrecos I e II


Marrecos I

São poucos,
mas aos montes,
cantam aos sopros
entre bicos alaranjados.

Uns em pé,
outros, como estátuas,
penas cinzas e brancas,
sobre o vento úmido
de chuvas e temporais de ontem

Os marrecos dizem muito
quando desandam
a gritar seus prantos
à surdem do bando

===

Marrecos II

Aves buzinas,
cantam e ciscam
cavucam o solo úmido
Parece que vasculham
meu pensamento de profundezas

Patinam miúdamente,
o chão de húmus
de homo sapiências.

Bicam os tocos,
Picam os ocos,
da minha despreparada sina
de capins mesquinhos,
heras rasteiras,
épocas e asneiras
indescência de insetos
escrementos de marrecos

Fussem aves granjeiras
até que,
no meio da lameira
encontrem o vivo
ocado em mim.
Barrocas inclinações,
de vida argilosa.

No meio do caminho...


Minha homenagem à Drummond, nascido em 31 de outubro, para o sempre da poesia...

No meio do caminho

Tinha uma pedra
no meio do caminho,
no meio do caminho,
tinha um poema
tinha a vida,
no caminho de pedra,
tinha o verso do caminho
a pedra do verso
o caminho sem poemas

Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha um verso
no meio da vida
tinha uma pedra

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Caminhada

Caminhada

Nas tardes de sol
seus presos passos
caminham.
Marcham,
homens, mulheres e crianças,
ao redor da lagoa.
Andam em busca
do inominável
para uns as gotas de suor
para outros a limpeza dos pulmões
para outros, a mínima tinta
de poeira nos calçados.
Cada um corre atrás
do que lhe apetece
Seja com ou sem tenis.
Seja frio ou quente,
com espinho ou desossado.
Corre a passos pingados,
por sentimentos,
alegrias e desejos.
E os passos de fasto,
quando o terreno é de tristezas.
Corre meus pés,
existindo entre poeira e tropeços.

Comparação

Comparação

As árvores
no baixio do córrego,
são tão magras,
mas verdes.
Meus olhos,
às margens,
tão úmidos e arregalados,
veem profundidades,
afogadas nas cinzas da repetição.

Amigos somos

Amigos somos

influências Roseanas

Ontem,
dormi pouco,
muito disse,
no não verbal de meus silêncios
Hoje,
busco recantos
onde os ecos em mim
são menos agudos.
E os olhos, quando menos pesados,
repousam, na memória,
seus cheiros e apetites.
"Amigos somos"
É o que as águas diziam
mesmo correndo em gotas,
mesmo em desencontro,
em ondas
"Amigos somos"
mesmo na tempestade
e seus destroços
"Amigos somos"
na sua fraqueza,
condição humanamente possível
"Amigos somos"
na travessia pedregulhosa
boba e medrosa, do viver.

Partida sem ponto

Partida sem ponto

Num ponto da lagoa
a areia, os estrumes e os restos
boiam conjuntamente:
uma espécie de ilha.
Na margem,
entre a navalha do sol
e o sussuro da brisa
juntam-se palavras,
emerge a poesia.

Margem

Margem

O vento faz a água correr
unidirecionalmente,
contra uma de suas margens.
O mesmo fez com meus dedos,
que choram a vaga,
das letras,
contra as beiras,
de uma página.
Na margem,
folhas e restos.
No papel,
sentimentos incompletos.
O sumo de mexiricas
e de um certo azedume,
de minha contação implacável.
A água e seu compassado correr...
Minha vida
e seu desorganizado querer.

Dolência

Dolência

Parte do meu corpo doi
de uma forma latejante
Dói como se em mim
grilhões corressem no sangue
e num dos olhos,
uma dor cega comandasse
a abrangência do visível.
Nesses dias,
em que meu corpo arde,
sinto uma loucura,
com suas calmas.
Um sol lateral,
e um vento,
nas extremidades...
Dia em que grito nas sutilezas
e extremesso placas tectônicas,
na dureza de mim.

domingo, 14 de agosto de 2011

Esperar

Na mesa,
espero um doce,
que de frio,
em caramelos,
refresque o pensamento,
adoce o esquecimento,
e mande meu aguardo
pelo não pedido,
ou o pela vida, perdido,
quieto, na goela do devir.

Chão

Hoje,
as pessoas só andam de carro.
Será que se esqueceram,
de que o pisar no chão,
além de realidade,
tinge os pés,
de conforto vão
e veste os pés
com solados de carne e barros.

Entardecer

Quando as árvores se destacam,
entre seus galhos,
e as núvens mais embassadas ficam,
é o anúncio que mais um dia míngua.
Vou me por-no-sem sol do dia,
entre as barreiras, portas, cortinas, teias.
Vejo o sol, de uma fresta,
vejo que a vida é apenas esta,
e o possível, o que desponta.
No entardecer,
o viver paree mais fino,
tal como a despedida das vagas lembranças de criança.
Entardecer,
mas o viver,
em meu por do sol sem fim,
apague, no poente, meus medos dos escuros.

Cala-te

Cala-te,
Ser dos controles,
este fio é meu,
a vida de meu andar,
seus saltos e sons não regulam.
Cala-te, fria sombra,
os músculos tensos vibram por meus quereres,
sua voz,
sem poderes,
da profunda surdez de mim.
Cala-te, faca desmontável,
seu pulso não oscila dos meus tremores,
tenho muitos amores,
que não vascilam como os seus.
Apenas, cala-te, mais uma vez,
e me deixa,
perder minha insensatez
fugindo de sua lúcida solidez.

Proust

O sujeito é pouco.
Sou teia na mosca,
a forma sem moldes.
O abraço do vento
é a essência que balbuci,
quando me calo,
e minha mão
fala impropérios,
num mundo dos impossíveis.
Nesse momento,
o que mais queria:
muito papel,
pouca folia,
para incendiar o externo
do fogo que me domina
quando flambo o papel,
com versos tremeluzentes.

O papel aceita tudo

O papel aceita tudo
Recebe minhas palavras,
como parentes distantes.
O papel dá espaço,
indica um plano de apoio,
e continua, branco de mudo,
com suas beiradas estreitas,
a falta de linhas...
Se de dentro é que vem o mote,
é de fora que se tem o desnorte.
A palavra e o corte.
Ambos sangram,
a primeira, com cicatrizes.

Desencontro

Na caminhada
Em frente um casal
Falam palavras lentamente pronunciadas,
Dando suspiros,
pontuando as orações.
É uma cena esdrúxula,
que termina, como no cinema americano,
resolvida com as boas doses de saliva.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Da duração dos corpos...


Por Spinoza

" ...

A duração de nosso corpo não depende de sua essência, nem tampouco da naturaze absoluta de Deus. Em vez disso, nosso corpo é determinado a existir e a operar por causas tais que, também elas, foram determinadas por outras a existir e a operar segundo uma razão definida e determinada; e essas, por sua vez, por outras, e assim até o infinito. A duração de nosso corpo depende, portanto, da ordem comum da natureza e do estado das coisas (...) O mesmo ocorre com as coisas singulares. São coisas contingentes e corruptíveis.

... "

Por mim,

Duração dos corpos

Quanto durará seu corpo?
A duras penas,
durará o quanto,
ao seu encontro,
tempo restar.

Não durará muito tempo,
sem um alento,
sem um constante momento,
de instáveis ausências

Corre a vida,
desperdiça-se a isca,
perde-se o ponto,
some-se o pente,
move-se o ventre,
come-se a quente,
a carne e a mente,
diálogos em torrentes.

Durou muito,
quanto pouco, um sussuro,
um respiro, um murmúrio,
mas durou o suficiente,
para que um arrepio entre a gente,
viva vida sentir-se pudesse.

Durará quanto?
Quem sabe o tanto,
e até que ponto,
um canto,
até que pranto,
o esfacelo das partidas,
naturais e esperadas,
finitudes do existir.

Conhecimento confuso e mutilado...


Por Spinoza

" ...

Segue-se disso que, sempre que a mente humana percebe as coisas segundo a ordem comum da natureza, ela não tem, de si própria, nem de seu corpo, nem dos corpos exteriores, um conhecimento adequado, mas apenas um conhecimento confuso e mutilado. Com efeito, a mente não conhece a si própria senão enquanto percebe as ideias das afecções do corpo. Mas não percebe o seu corpo senão por meio dessas ideias das afecções, e é igualmente apenas por meio dessas afecções que percebe os corpos exteriores. Portanto, enquanto tem essas ideias, a mente não tem, de si própria, nem de seu corpo, nem dos corpos exteriores, um conhecimento adequado, mas apenas um conhecimento mutilado e confuso.

Afirmo expressamente que a mente não tem, de si prórpia, nem de seu corpo, nem dos corpos exteriores, um conhecimento adequado, mas apenas um conhecimento confuso, sempre que percebe as coisas segundo a ordem comum da natureza, isto é, sempre que está exteriormente determinada pelo encontro fortuito com as coisas, a considerar muitas coisas ao mesmo tempo, a compreender suas concordâncias, diferenças e oposições. Sempre, com efeito, que está, de uma maneira ou outra, interiormente arranjada, a mente considera as coisas clara e distintamente... "

...

Por mim,

CONHECER

Eu conheço você:
lembra do dia,
da música,
da escolha da pontuação,
os votos secretos,
segredando opiniões
filosofias da indiferença?

Conheço sim,
lembra da piada,
pronta,
propositalmente articulada,
para ver o entre-lábios seus,
prêmio em disputa?

Há, certamente o conheço,
de seus olhos, vejo tensões,
dos lábios fechados, gritos e palavrões,
trancafiados,
pelos dentes brancos da cautela

Conheço talvez um sentir,
confuso e mutilado,
distante e esporádico,
convulso e martelado,
dinamite explorável,
filosofia da desavença...

E que vença,
o desconhecer,
frente o querer...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

IMAGINA


Spinoza diz:

" Quando a mente humana considera os corpos exteriores por meio das ideias das afecções de seu próprio corpo, dizemos que ela imagina.

E a mente não pode imaginar os corpos exteriores como existentes em ato de nenhuma outra maneira.

Portanto, à medida que imagina os corpos exteriores, a mente não tem deles um conhecimento adequado. "

E assim, digo:

IMAGINA

Imagina se quando é noite,
a gente pudesse sair,
sim,
sair com a licença do dia seguinte...

Imagina também,
se a noite não fosse tão fria,
e no dia,
a correria,
o toque, não mais breve,
o ar, a brisa, de leve,
sentir não seria mais ver.

Não imagina,
não mais se iluda,
imaginar é fantasiar-se
iludir-se com o falso,
os perturbados sentidos...

Imaginar é o que posso,
é o que me sobra,
imaginar que,
o que vejo,
não sendo o real,
é apenas desejo.

domingo, 26 de junho de 2011

O que memória?


Por Spinoza em ETHICA (p.111)
...

"[...] Concatenação de ideias, as quais envolvem a natureza das coisas exteriores do corpo humano, e que se faz, na mente, segundo a ordem e a concatenação das afecções do corpo humano. É uma concatenação de ideias, as quais envolvem a natureza das coisas exteriores ao corpo humano, e não que é uma concatenação de ideias, as quais explicam a natureza dessas coisas. [...] Relaciona-se a ideia das afecções do corpo humano (que envolvem tanto a natureza do corpo quanto a natureza dos corpos exteriores)."

...

Por mim...

Memória

Ao pensar em maçã,
Penso em vermelho,
Adão,
Bandejão.

Agora se vejo você,
lembro das tardes,
sorrisos largos, entre as bicicletas.

Lembro do vermelho,
da gravata sem nó,
do discurso silencioso dos jurados

Não me esqueço do atraso,
Da japonesa premiada.

Vejo o lamento em seus olhos,
cinzas de sono:
noite pregressa,
treino e cronometragens.

E da despedida,
Maastricht,
as malas,
o sorriso,
tão semelhante ao do encontro,
tão diferente, pela situação...

Memória,
este eterno embaralhar de cartas
e de sentimentos

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A resposta

Em poucas palavras, a resposta.

...

Bom dia S., mãe de W.

Conversei e examinei W.
Ele está bem.
A Rinite, melhor conduzida será, se mantida a medicação.
W. é deveras esquecido. Carece de uma rotina para não perder de vista os "puffs" nasais.

A tosse, gravidade não indica.
Tempo seco e frio.
Hidratação e observação, para a tosse.

Água também para controle das questões urinárias.
Exame de urina não se carece de fazer.

As manchas brancas não são de verme, são da secura da pele.
Hidratação local e tudo se resolverá.

Atestado para a escola entregue em mãos.
Agradeço pelas ressalvas e pedidos, contidos na carta.

Atenciosas saudações,
F.
o médico-em-formação


...

A carta


Segue, na íntegra, uma breve carta, que chegou até mim pelas mãos da avó de uma criança de 11 anos, em uma consulta médica pediátrica, num Centro de Saúde da cidade de Campinas, São Paulo.

...

Bom dia Dotor ou Dotora

Eu queria que examinace o W. A renite dele está pior.
De uma semana para cá a urina do W. está mais forte e mas cheirosa.
Ele está tucindo muito.
Desde já eu agradeço.
Exame urina, atestado.
Manchas branca.

Assinado S.
a mãe dele.

...

domingo, 19 de junho de 2011

O espelho


Baseando-me no conto de mesmo nome, da autoria de Guimarães Rosa, transcrevo e comento algumas linhas-poéticas:

"Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo" (p.119)

O mistério. Tema que a gerações vem a nossos olhos, nos momentos de sutileza. Quando o inesperado acontece, ou quanto nos damos conta do já acontecido, as dúvidas e os questionamentos nos aparecem: por que assim, não assado? Interessante pensar que, nada é tão por acaso assim, mas talvez nos falte a perspicácia, ou mesmo habilidades objetivas para nos darmos conta do processar e acontecer das coisas. Olhos abertos, janelas ao vento do inesperado. Mistérios...

O admirador de mistérios, assim como o de espelhos seria, como diria Rosa, "companheiro no amor da ciência, de seus transviados acertos e de seus esbarros titubeantes". Assim, talvez me definiria, se preciso fosse, um homem com a ciência, mas não da ciência, conhecedor de seus potenciais e de suas inconsistências e limitações... Um equilibrista entre a corda bamba da existência.

Um homem frente ao espelho: que se vê, tão nitidamente que quase sente o toque da realidade, mas virtualmente se concebe - um constante duelar pela clareza além das deformações geométricas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lampejos de Amsterdã


Sejamos, pois, como as bicicletas,
Livres, mesmo possuindo correntes .

domingo, 16 de janeiro de 2011

A vida dos animais

Fonte: Le Figaro Image


O livro de mesmo título, de John Coetzee, é bastante instigante. Leitura rápida, porém inquietante, questionadora, pertubadora! Comentarei alguns trechos:

__________________

“Poderia contar a vocês, por exemplo, o que acho da tese de santo Tomás de Aquino segundo a qual, posto que só o homem é feito à imagem de Deus e participa da essência de Deus, o modo como tratamos os animais não tem nenhuma importância salvo na medida em que ser cruel com os animais pode nos acostumar a ser cruel com os homens. Posso perguntar o que santo Tomás considera ser a essência de Deus, ao que ele responderá que a essência de Deus é a razão."

"Da mesma forma que Platão, da mesma forma que Descartes, cada um à sua maneira. O universo é construído sobre a razão. Deus é um Deus da razão. O fato de que graças à razão se possa chegar a compreender as leis que regem o universo demonstra que a razão e o universo têm a mesma essência. E o fato de que os animais, não tendo razão, não possam compreender o universo mas devam limitar-se a obedecer cegamente suas leis, demonstra que, diferentemente do homem, eles fazem parte dele mas não participam do seu ser demonstra que o homem é como deus e os animais, como coisas [grifo meu!]”.

“(...) A razão não é a essência do universo, nem a essência de Deus. Ao contrário, e de forma bem questionável, a razão parece ser a essência do pensamento humano; pior ainda, a essência de apenas uma tendência do pensamento humano. A razão é a essência de um certo domínio do pensamento humano. E se assim for, se é nisso que eu acredito, então por que devo me curvar à razão esta tarde, contentando-me em abordar o discurso dos velhos filósofos?” (p.28-29)

__________________

Corajosas são as palavras da personagem Costello, escritora que usando-se da razão, procura destroná-la como mantenedora das condições de possibilidade de existir no mundo. Coragem às custas de um respeito, de uma simpatia, pelos animais. Um livro que busca nos fazer pensar a vida animal fora da perspectiva humana (se é que isso seja possível, o que penso que sim, já que à literatura não se pode creditar barreiras intransponíveis...).

Um livro que salienta o quanto alguém pode chegar pelos seus princípios éticos, estéticos e porque não proféticos... Da implicação pelas lutas da vida, até o uso das enérgicas palavras e analogias e metáforas, areias movediças ou como diria um professor "as famigeradas cascas de banana", fontes de más-interpretações e, pior, fonte de inimizades geracionais... Tudo pelas crenças motrizes da vida. Para as vidas que valem ser vividas.

O abecedário de Marc Riboud


Marc Riboud - A comme l'ametié

Para a Xuxa, o A é de Amor!
Para Riboud, em seu abecedário fotográfico, o A é da Amizade (A comme l'ametié).
Este Alfabeto em fotos é o título de uma Exposição na Casa Européia de Fotografia até 30 de janeiro, em Paris (Pena que não é em "(A)Pariscida do Norte", rs!). Se forem por lá, não percam!

Para um prazer momentâneo, do clique fotográfico milesimal e certeiro, fiquemos por aqui, com a amizade com seu singelo A, sem palavras, de Marc Riboud.

sábado, 15 de janeiro de 2011

As desigualdades no Atendimento do Incor



As desigualdades no atendimento do Incor
Enviado por luisnassif, qui, 13/01/2011 - 15:00

Do Estadão

Sem fila para plano de saúde, cirurgia no Incor demora até um ano para SUS

Instituição ligada ao governo estadual foi uma das primeiras a adotar o atendimento de clientes de planos de saúde em suas instalações, medida até hoje polêmica.

13 de janeiro de 2011 | 0h 00

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Análise do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Sistema Único de Saúde) concluída em agosto do ano passado apontou que os pacientes atendidos pelo sistema público no Instituto do Coração (Incor), na zona oeste de São Paulo, esperam de oito meses a um ano e dois meses para ter acesso a determinados atendimentos. Enquanto isso, não há filas para os pacientes de convênio que também são atendidos na unidade pública.

O Incor, que pertence ao complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e é vinculado ao governo do Estado de São Paulo foi uma das primeiras instituições públicas a adotar o atendimento de clientes de planos de saúde em suas instalações, com o objetivo de incrementar a oferta de recursos financeiros pelo SUS.

Medida vigente há mais de uma década, foi alvo de ação judicial do Ministério Público no passado, mas a Justiça deu razão à unidade. No entanto, até hoje o modelo é criticado em razão de, na visão de alguns especialistas, permitir que em uma unidade pública haja diferença de tratamento entre os pacientes.

A auditoria que fala das esperas no Incor, à qual o Estado teve acesso, foi realizada dentro de uma análise mais ampla no instituto e a pedido do Ministério Público. Segundo o trabalho, a espera para uma segunda consulta nos casos de diagnóstico de arritmia, insuficiência cardíaca e hipertensão era de oito meses a um ano.

Exames para diagnóstico como ecocardiograma (tipo de ultrassom) para adultos eram marcados, na data do levantamento (agosto de 2010), só para maio deste ano. O ecocardiograma infantil ficava para agosto de 2011. Já as cintilografias (tipo de exame radiológico) só ocorreriam no próximo mês de setembro. Por fim, as vagas para a colocação do aparelho Holter (que monitora o ritmo cardíaco) eram para outubro deste ano.

"Os mesmos exames e procedimentos supracitados não têm espera para pacientes de convênios e particulares", diz o trabalho, assinado pelo auditor João de Deus Soares.

Modelo. Recentemente o governo estadual aprovou na Assembleia Legislativa projeto de lei que permite que até 25% dos atendimentos de hospitais de alta complexidade do Estado, terceirizados para Organizações Sociais, possam ser destinados a convênios.

Os críticos da mudança, como o Ministério Público, apontam que isso aumentará as filas do SUS. A secretaria da Saúde promete que não haverá diferença nos tempos de atendimento e que a medida visa a remunerar as unidades pela procura que já existe de pessoas com planos.

"As pessoas acham que poderá ocorrer diferença nos tempos de espera, mas tudo depende de como o governo vai regulamentar o novo projeto", opinou Jorge Kayano, pesquisador do Instituto Polis.

Para ele, há a tendência de que passe a existir algum tipo de diferenciação do atendimento também nesses locais, como há no Incor. Ele também destaca que, caso a previsão de ressarcimento dos planos ao SUS, prevista na lei federal do setor, funcionasse, não seriam
necessários expedientes como o previsto no projeto aprovado.

Prazo vencido. No fim de 2009, levantamento do Ministério da Saúde apontou que a maioria dos hospitais de ensino administrados pelo Estado de São Paulo e que se comprometeram a dedicar, até outubro daquele ano, 100% dos atendimentos ao SUS ainda não tinha cumprido a meta.

Entre eles estava o Incor, com o menor porcentual de atendimento dedicado ao setor público naquele momento (80%). Estavam previstos até cortes de repasses pelo descumprimento.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que deverá realizar uma nova avaliação da situação das unidades de saúde e do atendimento a pacientes de planos neste ano.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Chuvas...

Oswaldo Goeldi - Chuva (1957)

"A manhã bem que prenunciava a chegada da chuva. Era possível sentir o ar molhado, ao se abrir as janelas, levemente endurecidas, em seu metal frio. Na parede, o papel pardo de letras miúdas, a folhinha Mariana, marcava tão corajosa como a sentença de um juíz: janeiro de chuvas e de pelejas. Pena que nas gotas frias, as pelejas são mais molhadas... Tudo está tão úmido, inclusive os rostos, ora do suor das limpezas, de mais águas a correr, ora do balanço que a onda das tragédias alheias acaba por nos tocar, essas ondas das lamentações.

As pessoas saem sempre acompanhadas: quando há necessidade, a companhia é exposta, central, está no topo. Quando se está sob um refúgio frente as gotas intermináveis, a companhia é escusa, inconveniente, depositada nos cantos... Sorte que os guarda-chuvas não são temperamentais! Senão, por pirraça, poderiam ceder a qualquer brisa ou travar frente ao toque de ativação na urgência dos novos pingos, só para vingar a exploração revidada pelo desprezo.

As chuvas continuam... Intermitentes... Incoerentes...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Coupe Cloue - Mon kompè

Música do mundo
Mon kompè, de Coupe Cloue.
Música haitiana.
Para os ouvidos libertos

Coupe Cloue - mon konpè

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quero ver minha irmã!


Doutor:

Quero ver minha irmã.
Se a encontrar, peça que entre no quarto.
Ela tem cabelos compridos,
E um vestido de cores misturadas,
Minha irmã é engraçada.

Ela vem me ver
Diz que está arrumando meu quarto,
Um quarto para mim, a minha espera, lá em casa.

Se a encontrar, peça que entre,
A porta está apenas encostada, cortina aos curiosos.
Minha irmã veio me buscar,
Minha irmã está por aí, ela deve chegar já.

Ela vem me ver,
Ela e seus cabelos grandes, negros
Mas seu vestido, nada de escuros,
Só aquelas cores
De "maria-regalada",
Desde pequena, a entusiasta da família.
Nas roupas e nas palavras,
Esses trapos sem costura.

Se minha irmã chegar,
Que ela entre e me acorde.
Não durmo quando minha irmã aqui vem.
Falamos da vida e do que a vida nos fala...
Se minha irmã demora,
Logo penso que não tarda a chegar.
Minha irmã, esta espera querida,
Das cores com pernas,
dos cabelos que me protegem da solidão.

Doutor, minha irmã que nunca chega...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um ar novo para as janelas de dentro


Preciso, mesmo que por alguns minutos, sair andando.
Um pouco sem rumo, mesmo, como que guiado pelos passos e pernas...
Sem destino, sem rumo, como cachorro sem coleiras, de faro fino e farto.

Prefiro os parques, as gramas, a terra e seus cascalhos.
O ritmo, não dos atletas, mas os da música, dos fones, companheiros quase indispensáveis
(não os uso só quando a caminhada é compartilhada de outras duas ou mais pernas, que além de andar, falam!)

Hoje fui, andei, vi capivaras nas margens, roendo os restos de um canto.
Fui também, nos passos, roer meus desconcertos...
Olhei e fui visto. Olhares de um futuro, talvez em relance, senti.
Do contrário, um percalço, uma daquelas esperanças que só servem para animar as inconstâncias dos cantos das gentes...

Hoje, andei e novo ar pelas janelas de dentro limparam a casa.
Agora posso puxar as cortinas...
É que o vento já deixou suas canções, sopros de felicidade.