domingo, 5 de dezembro de 2010

O grito e as lágrimas

"[...] Assim sendo, há uma máscara que a dor adota frequentemente, muito diferente das formações clínicas patológicas: são o grito e as lágrimas. O grito e as lágrimas são os semblantes mais estreitamente ajustados, mais solidários desse objeto que é a dor inconsciente."

[IN: O livro da dor e do amor; Lições sobre a dor, de J-D. Nasio, p. 1370]

Deste trecho nasce a inspiração de alguns curtos escritos meus, fruto de um domingo de liberdade condicional consentida (à partir da hora do almoço). Então é isso. Boa leitura!

...

Era esta que eu queria. Sim, aquela com os olhos bem destacados, de cujos epicantos faixas vermelhas escorriam. Esta era a máscara para o baile dos disfarces (ou dos dis-faces?). A escolha foi algo um tanto instantânea. 3 minutos separavam a máscara da pratileira aos meus contornos. O encaixe foi perfeito. Parecia feita, justamente, para as minhas dores! Era difícil entender como um disfarce poderia ser tão revelador. Resolvi escolhê-la sobretudo porque era a máscara que mais me tornaria transparente! Estas incoerências da arte! Era a máscara das minhas dores! Trazia a lividez, em um canto, do susto da separação. Em outro extremo, tinha alguns retoques, desproporcionais e assimétricos, como os do desespero. Em outro hemisfério, era plana e natural, como a disponibilidade dos solteiros. E dos cantos dos olhos, corriam um vermelho carnal, fazendo um trajeto similar aos das lágrimas, quando muitas, e quentes e molhadas. Encontrara a expressão da arte que de forma palpável trazeria a revivência desta dor ainda em digestão. Comprei-a suportando uma nova dor, a do preço alto das artes originais.

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- Maria por que está chorando?
- Não é nada não, sô. É um cisco só!
- Mas, se é um cisco, porque a água escorre pelos dois olhos?
- Uai, acho que o cisco é grande!
- Se é grande então, cadê ele uai? Arregala os olhos pr'eu vê?
- Me deixa, sô! Ele já não está na vista!
- Vai lá no rego, lava os olhos, pega bastante água fria... Uai porque o ocê tá chorando mais forte?
- É que esse cisco, este trem nos meus olhos, é uma dor, é mais uma dor do que um trem...
- Então fecha os olhos, e pensa num trem bão de mais da conta, um doce da vovó Izidra? Aposto com'c que passa, essa dolorência nas vistas...
- Ocê é bom, Dito, fala coisas despregadas, mas acaba que elas tampam alguns buracos na cabeça da gente...

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O grito e as lágrimas

Os olhos viram,
Era você, suas risadas, suas mãos
Os olhos não mais viram,
vermelhos, viraram-se para o oposto,
fecharam-se, por um instante, e se abriram
ensopados, inundados, trovejando gotas e correntezas

Os ouvidos,
ao longe escutavam,
pesares, perdões, pedidos
O pescoço rijo, a reta seguia
E as gotas, corriam a face, úmidas e em ebulição

Num instante, o silêncio
Os olhos na escuridão do desespero,
E de repente, as vistas novamente abertas,
viam a face do arrependimento, bêbeda em palavras e porquês.

O rosto lívido, sem vacilos e tremores,
úmido da humilhação,
vez da garganta uma arma,
e do silêncio,
um grito,
tão interno, tão primata,
a ecoar pela desfigurada ambiência da separação.

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Reflexões durante o jantar no Bandejão

Depois de um dia cheio de coisas, para ser sucinto, em um trem de palavras:
Pós-festa-prova-terninho-vascular-bandeco-puccamp-bandeco-blog, resolvi escrever alguns pensamentos que me brotaram durante minhas ruminações no bandejão!

Eis que seguem, em "prosa catártica"

Bandejão

Fim do dia. Todos com suas bandejas na mão. Mãos que sustentam um pouco de tudo: um cansaço como poeira dos móveis, uma fome que modula com o cardápio, uns sentimentos muito misturados que só com a mastigação lenta e articulada se pode ter sabores diferenciados. Em três movimentos, três rostos diferentes, três misturas na bandeja. As mãos como que automáticas oferecem quantidades variáveis de nutrientes e de distanciamentos. No final ainda resta a sobremesa. Dois figos, verdes e doces, embora ainda adstringentes. Combinam com a aridez do fim do dia, um dia que começa com os rumos já delimitados pelo acúmulo do vir a fazer.

Procuro um espaço entre as brancas mesas largas, esporadicamente ocupadas, ora nas pontas, ora nos meios, ora por falantes, ora por apressados a brigar com a comida, que parece fugir da boca, negando a obedecer a pressa cotidiana, inexplicavelmente presente até no suor matinal.

Sento entre os espaços. Não porque me encomodo com as laterais ocupadas. É que espero que a companhia ainda chege. Sim, sentar entre os espaços é uma forma de esperança. A aleatoriedade dos comensais pode vir a ocupar o meu redor, e à partir disso, uma solidão cristalizada pode dar espaço a uma companhia meteórica, cronometradamente ligada ao tempo de órbita gasto entre o garfo e a boca.

Mas as ocupações próximas não me são tidas como transparentes. Logicamente interferem no meu apetite e no meu campo auditivo. Há assuntos inusitados , outros desagradáveis, outros poucos que irrompem o silêncio da mastigação rápida da partida breve. No bandejão, muitas coisas acontecem além do som metálico dos talheres. É lá que se tem os olhos livres, a divulgação das festas, o chá mate que dicotomicamente cria admiradores ou perversos inimigos, a sapiência dos velhos funcionários, as carecas dos novatos calouros, ou seja, é no bandejão que a universidade se desponta em suas mil-faces, ou mil-fomes. Posso observar e meticulosamente concluir que neste pequeno período do dia, entre movimentos tidos como mecânicos e de sobrevivência, a massa que digere o conteúdo da bandeja está também consumindo a solidão.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Muitos Meursaults...


Voltando a Camus,
Teço como mote de uns versos o julgamento do estrangeiro tão anfitrião da alma humana,
Meursault e suas ambivalências tão cotidianas...

O julgamento

Julgam-me
Não entendo o porquê
Talvez, seja
porque sou homem
porque sou fraco
porque sou estrangeiro
porque sinto intensamente
e vivo sem da vida fazer reticências...

Na verdade, não julgam-me
Condenam-me
Sou réu confesso
porque não padeço
porque não careço
porque não compadeço
e sinto que as mentiras são tão necessárias...

A sentença está tomada
Os caminhos, duvidosos
As alegrias, repentinas
As platéias, famintas
E os gritos de ódio,
A ambígua contestação de quem do mundo se expulsa
Mas não se compreende.

domingo, 16 de maio de 2010

Interioridades...


Foi lendo INDEZ, de Bartolomeu Campos Queirós, indicação de uma senhora que conheci no Rio de Janeiro, que revisitei minha vida no interior de Minas Gerais. As palavras deste autor, tão cheias da vida mineira cristalizada como o acúcar nas quitandas dos cafés da manhã fartos e fortes...

INDEZ, o ovo que dá a direção, que resguarda a vida do ninho, a referência do choco...

Talvez, com este livro, Bartolomeu colocou um pouco de seu cerne, que de certa forma, sinto-me um tanto quanto contemplado com alguns dos olhares presentes na prosa leve deste meu conterrâneo.

Divulgo dois trechos deste livro, que indico aos mineiros em busca de reviver uma saudade das Minas Gerais, e aos não-mineiros, para que compreendam o saudosismo que os mineiros carregam para todas as terras por onde passam, mesmo as mais receptivas!!!

Do livro de Bartolomeu Campos Queirós, INDEZ, cito:

"Na escola a professora ensinava leitura. Foi sem esforço que o menino aprendeu. Ele já conhecia que entre as letras e seus silêncios podia-se saber muito mais longe. Era possível viajar mundos distantes. Mundo que o olhar não alcançava, mas o livro trazia. E daí, para Antônio escrever, bastou ter apenas um lápis".



"Não sei quantos anos se passaram. Sei que continuo recebendo recados de Antônio sempre: - nas tijelas de arroz-doce das estações rodoviárias, na água que cai do sino em dias de chuva, nas caixas de lápis de cor nas vitrines no cheiro do arroz-afogado, no quadrado do sol passando pela janela, nos pés de jabuticabas, nos arco-íris e casamento de viúvas, nos aquários com peixes, nas crianças que cruzam as ruas de uniforme, no chofer que passa dirigindo seu caminhão, no silêncio dos meninos sob marquises, no ovo frito sobre o arroz, nas notícias de nascimentos prematuros, nas rodelas de salame de super-mercados, nas histórias de tatu-bolinha ou de fadas, nos passarinhos do demônio voando em igrejas, nos ratos sem asas, nos cascavéis, nas bandas de música, nos limões, nas ferraduras dos cavalos, no leite das cabras, nas maçãs sem papel roxo, nos ramos de funcho, poejo, erva-doce, nas estações das águas, na estação da seca, nas cigarras cantando no fim da tarde, nos defluxos e coqueluches, no cheiro dos currais, em trilhos e atalhos, em manteiga de cacau nas noites de frio, em retratos de mares, em gosto de lágrima, em galinhas e ninhos, em fogueiras de Santo Antônio, nos domingos de ramos, nos medos de demônios, assombrações, nos aniversários, na visita das abelhas às flores, no cheiro das gemadas, na primeira estrela que eu vejo, no queijo derretido em fatias de bolo, nos estojos de madeira, nos bilhetes recebidos a lápis, em frutas fora do tempo, em cadernos brancos, em diálogos e silêncios, em partidas e chegadas. Não há como esquecê-lo. Mesmo se tento prestar atenção ao meu trabalho, se escrevo com caneta vermelha ou azul, se passa uma formiga ou a sombra de um vôo de pássaro, se olho as nuvens ou relâmpagos, se entro em capelas ou se passeio em parques, Antônio não me deixa. Não sei qual de nós tem mais e do ou qual de nós tem mais amor".



Dominique A, Le sens - Concert privé Fnac

Le sens - O sentido

Para aqueles que buscam sentido...
Desde à maternidade!

Esta música é uma melodia confortadora!
O vídeo da música se encontra também no Blog!
Aproveite, melodia e letra, para buscar sentidos...

De Dominique A, Le Sens!

J'ai tout essayé
J'ai pas trouvé le sens
J'ai marché dans la rue
J'ai écrit "j'ai aimé"

J'ai voyagé, j'ai cru
J'ai nié des évidences
J'ai nagé nu, mais désolé
J'ai pas trouvé le sens

J'ai pas envie de sauter
J'ai pas envie d'une balle
Je préfère exister
Même si c'est pour que dalle

J'aime bien respirer
J'aime bien me sentir sale
J'aime avoir de la chance
Et me faire embrasser

Mais bien sûr si j'y pense
Tout ça n'a pas grand sens
Mais bien sûr si j'y pense

Aujourd'hui, braderie
J'offre tout ce que j'ai
Je donne tous mes objets
Mes souvenirs aussi
Contre un sens à ma vie
Même un qui fait son temps
Même un peu décevant
Même que pour les vacances
Même que le temps d'une danse

J'ai tout essayé
J'ai pas trouvé le sens
On dit que pour beaucoup
C'est la même béance

En ont-ils tous conscience
Tout le temps ou pas à-coups
Peut être fallait-il
Le commander à la naissance
Avec un peu de chance
Nous parerions que c'est pour nous

Il y a peut être encore un sens
Qui attend que j'aille le chercher
Sagement à la maternité
Un qui a son box aux urgences
Peut être ne suis je pas né
Peut être ne suis-je qu'absence
Tant que ne m'est pas donné le sens

terça-feira, 11 de maio de 2010

Falas de um estrangeiro...


Lendo Albert Camus, depara-se com a seguinte máxima:

"On finissait par s'habituer à tout"

Será que é tão simples assim?

No final das contas, tudo é passível de ser vencido pelo hábito!?

Para muitos, este talvez seja o caminho menos árduo.
Resistir, como a palavra quase indica, é um existir quase dobrado.
Daí, a dificuldade...

Habituar-se, a tudo, creio não ser possível.
Nosso jeito humano é inquieto, bicho-carpinteiro...
Não se acomoda tão fácil...
Quer superar-se...

No final das contas, haverá uma segunda opção.
Mesmo que a escolha do habituar-se pareça a única.

Há sempre uma linha que transgrida o hábito,
Mesmo sob o olhar tubulado nascente do interior de um tronco seco!

Camus e suas sutilezas...
Muitas linhas ainda virão para este blog!

domingo, 9 de maio de 2010

"A vida só é possível reinventada"


Foto gentilmente obtida de Fabiano_07 em seu Flickr

Cecília Meirelles disse este verso...
Um bom mote para algumas palavras...

A vida reinventada

É rotina.
É mesmice.
É comando.
É tolice.

A vida me cega.
A vida me condena.
A vida me regra.
A vida me seca.
A vida me acorrenta.
A vida me pega.
A vida me deda.
A vida me doma.
A vida em coma.

Não.
Engano arrebata meus olhos.
Quero tesoura,
Quero esta venda em fiapos.
Vejo luz.
A vida reinventada.

A vida me leva.
A vida me mostra.
A vida me lança.
Na vida se descança.

A vida não se repete.
A vida é diversa.
A vida é conversa.
É promessa, é modesta.

Reinventada.
Não é igual,
Ao ontem,
nem o hoje de antes pouco.
Nem aos 17,
Nem ao segundo.

Vida,
este trem que não pára.
Estações inconstantes...
Segue travessia,
Passa por mim.

Trilhos de ferros,
tortuosos...
Sou fumaça,
Ar consumido,
Sem destinos.

Volver a los 17 - Mercedes Sosa & Milton Nascimento ( TRIBUTO A MERCED...

Volver a los 17...

Hoje encontrei esta preciosidade...
Linda canção...
Milton Nascimento e Mercedes Sosa
A música viva dentro da gente!

Vale a pena ver o vídeo acima!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O limão de meus pesos...


Para emagrecer
Prescreveram-me limões.
O oposto fizeram ao açúcar,
aos hábitos passados, aos alimentos de costume...

Pediram-me que não usasse temperos,
apenas gotas de limão.
E dos sucos de fruta,
diversos, e das bebidas gaseificadas,
tão boas quando geladas,
nada disso era permitido,
Só o limão estava liberado...

E como o contar de gotas,
Fui perdendo peso
Sentindo um amargor
e ao mesmo tempo lembrando-me do doce passado

O azedo pelo doce,
o ácido pelo tão básico açúcar cotidiano.

Doce
A vida ficou depois da mudança.
Os limões, sem cascas, sem sumos...
A vida sem sua cítrica rotina.
A vida em sua crítica retina.

Um dia perco os 14 Kg
Tão doces ao ouvido
Tão ácidos no percurso

E assim, o limoeiro foi ficando leve
E as amarguras de tão constantes,
breves...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

HAIKAI


Olá!

Ontem não passei por aqui...
Inevitável.
Tem dias que é preciso pegar outras ruas.
Mas, chegar ao mesmo destino.

Então...
Hoje compenso a ausência da visita,
Com uns HAIKAIS...

Sim, com a concretude e a imagens dos poemas do fundo da bateia!
Uma inspiração, de uma apresentação bem-humorada da aula de Francês do CEL!

Att.
Bambu

HAIKAI (Por Guilherme de Almeida)

"Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita"

***

"Meio-dia e as sombras somem
Eis uma escondida
Embaixo do homem."

(Por Millôr Fernandes)

***
Dicas na internet!

hai-kais.blogspot.com
postoqueposto.blogspot.com

Até mais ver!
Amanhã novos ares,
A visita a cidade maravilhosa!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Jacira e sua mãe - Uma anamnese


Minha mãe estava caidinha.
Cara de defunta, que Deus me livre, com o perdão da palavra.
Amuadinha, não queria sair de casa.
Só ficava deitada.
Minha mãe não estava boa.

O médico disse que ela estava com anemia.
Sulfato ferroso e nada.
Minha mãe fez exames.
Estava com câncer.
De novo, depois de 20 anos.

Está operada.
Sente cólicas e tem um adesivo nos pés que eu não sei por que está lá.
Queria limpar, tirá-lo, posso?

E eu?
A, eu moro com minha mãe.
Sou costureira.
Estou afastada, por invalidez.
Tenho Insuficiência Renal Crônica.
Está controlada, só com remédios.
Eu não casei, sou solteira.
Não achei um doido que quisesse me desposar.

De noite não saio.
Não gosto. Tenho medo.
Antes saída, aos bailes e discotecas.
Mocidades e madrugadas.
Tenho medo de chuva.
De raios e trovões.

Chove, estou só, corro para a casa da vizinha.
Busco minha sombrinha e saio de casa.
Quando minha mãe está ao meu lado,
Arma chuva, eu peço que ela não saia.
Ela tem obrigações paroquiais,
cuida das chaves do cômodo de reuniões.
Peço que não me deixe, com a chuva e seus barulhos.

Mas minha mãe é livre.
Vai com a chuva e volta sem ela.
Eu fecho os olhos, cubro a cabeça, escureço o quarto.
Às vezes rezo, muitas outras durmo.
Outras tantas sonho.
E assim o medo vai-se como a enxurrada
Que escorre pelas pedras do calçado irregular das ruas de Caconde.

sábado, 24 de abril de 2010

Nhambuzim


Para quem gosta de Guimarães Rosa!
Para quem ouve música quando lê Grande Sertão: Veredas!
Um grupo de cantores paulistas, muito bom!

N H A M B U Z I M ! ! ! !

Segue abaixo uma de suas letras só para dar uma curiosidadezinha...

Nonada de mim

Música e letra: Edson Penha
insp. em Grande Sertão: Veredas


Sabe, senhor
É a minha verdade, senhor
Fim que foi meu amor
Toleima, senhor

Sabe, senhor
O amor faz trapaça, senhor
Nos embebeda em desgraça
Nonada de mim

No calor dos olhos verdes
Fique certo que o amor
Foi perdido no fogo
Da terra, senhor

No calor dos olhos verdes
O silêncio tem cor
Queima o desejo
Meu medo, senhor

Diadorim, que passou por mim
Que meus dedos não tocou, não tocou
Diadorim, que passou por mim
E que em minha alma a incerteza queimou

Sabe, senhor...

Diadorim que passou o amor
Que meus dedos não tocou, não tocou
Diadorim que passou o amor
No sertão: veredas da minha dor


Mais informações, vide site
www.nhambuzim.com

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pílulas sem palavras


Doutor, sou analfabeta.
No meu tempo, escola não havia.
De certo havia, mas trabalho não deixava.
Na roça, as mãos buscam cedo o trabalho.
Na roça plantei minha mocidade.

Agora esses remédios que tomo.
São tantos. São muitos.
São todo o santo dia.

Um é de manhã, às 6:00.
Outros dois às 10:00, no almoço.
Outros só às 10:00, de noite.

Mas eu não confundo não.
Minha neta me ajuda.
O alarme do celular toca na hora dos remédios.
Lembro-me sempre de tomar.
Tomo certinho.
É de mim, o zelo.

Minha mãe morreu com 105 anos.
De velhice.
Meu velho, esse não vem no médico.
Não gosta.
Fica no mato, na roça.
Ele teve derrame.
Hoje fala de vez em quando sozinho...

Eu fico sozinha, até que bastante.
Mas escuto o rádio.
Os remédios eu tomo com água, ou leite, ou suco.
Dos chás, o de folha de abacate e quebra-pedras, quando me dói de lado.

Vou pra casa, antes da chuva.
Dos remédios, faltam 2.
Filho meu compra na farmácia.
Moro na beira do rio.
O ônibus não passa mais nesse horário.
Não vai até lá em baixo.
Chego antes da chuva.

Centro Cirúrgico


A porta de vidro foi aberta com um aperto de uma tecla.
A 3 passos, encontra-se uma janela lateral, de vidro corrido.
Do outro lado, os ternos cirúrgicos, as tocas, as máscaras e as mãos silenciosas que conduzem o primeiro paramento em direção às mãos do outro lado.
Agradeço e minha resposta ecoa sem resposta.

A próxima porta à esquerda me conduz ao vestiário.
Lá, as vestes brancas do hospital tornam-se ocultas.
Estou paramentado.

O próximo corredor, saindo do vestiário, conduz às salas cirúrgicas.
Cada número, um procedimento.
Cada procedimento, um paciente.
Cada paciente, algumas tantas outras pessoas nos mais diversos cantos e atos.
Alguns leem, outros escrevem, outros abrem campos estéreos com todo zelo, pensando no oculto contaminante entre as brechas invisíveis ao olhar humano.
Outros instrumentam. Poucos "cirurgiam"...

Eu, com as mãos vigiadas, observo o desenrolar das cirurgias.
Um mundo vertiginoso: enquanto um ganha a liberdade aórtica após o fim de uma coarctação, outro ganha a saúde tendo um dos membros inferiores desvinculado de si.
A cirurgia e seus rituais... um mundo tão novo quanto instigante.
Mundo de limites tênues, como a espessura do fio 7 zeros sob a agilidade de dedos treinados e olhos sob lentes de aumento.

E esta máscara que não me impede de sentir o cheiro do humano por dentro!
E esta toca que ao recobrir minhas orelhas demonstra o quão clinica é minha postura.

Meu dia na cirurgia foi assim: de descobertas sutis!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre o sol...


Foto divulgada pela NASA
O sol tem foto nova!
Continua um astro-rei!

Mas lembrando-se de sol, não se pode esquecer do fogo...
E hoje o dia foi uma brasa...
Muita coisa, que com palavras, até cansaria a leitura...

Contudo, do trauma facial à canção para o Raphaël anjo-e-diabo de Carla Bruni, meu dia passou como o nascer ou o esconder do sol - A-BRUPTAMENTE!

Aqui as estórias acabam... antes que o depoimento saia para amanhã!
Inté...
Bambu!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O vôo cego: reflexões sobre a Formação Médica I


Olá a todos os que seguem estas palavras ao vento!
Primeiramente peço desculpas pela ausência de ontem...
É que um pensamento cansado das pernas não pode dizer o que quer.

Agora, sem sono e sede, teço algumas considerações sobre a Palestra "Formação de Recursos Humanos para a Saúde", ministrada na abertura do Pré-Congresso das Ligas Acadêmicas do Trauma, aqui onde estudo, na Unicamp.

Sem a presença de um Prof da casa (Prof. Brenelli, atarefado no Ministério da Saúde), a palestra foi ministrada pelo Prof. Lobo, um dos fundadores da UnB - Universidade de Brasília e idealizador da Faculdade de Ciências da Saúde desta mesma instituição.

Como gosto do tema "Educação Médica", fui ver as considerações do Prof. convidado sobre o tema.

Gosto bastante quando os palestrantes começam dando diretrizes conceituais sobre o que pensam e querem discorrer sobre. Como é interessante pensar que nós, da área da saúde, devemos prezar não simplesmente pela assistência (algo que, implicitamente, remete ao fato de o paciente se dirigir ao serviço de saúde). Um melhor meio de encarar o trabalho em saúde é vislumbrá-lo pela ótica da cobertura, ou seja, da responsabilização por um território e de todos os que nele "andam suas vidas".

Outro ponto importante. Deve-se trocar o ensino pela aprendizagem. Ou seja, o foco da aprendizagem é o estudante, numa posição ativa, de agente de seu próprio conhecimento, ao contrário do termo ensino, que de certa forma é centrado no docente, na transmissão do conhecimento.

Mas sem dúvida, dentre as várias considerações, a analogia dos cursos médicos dentre outros da área da saúde com a imagem de um avião em vôo cego foi bastante significativa. O que essas duas imagens tem em comum? Tanto o vôo cego quanto a maioria dos cursos de graduação em medicina não possuem objetivos claros, não se orientação por múltiplos sinais (nem os da terra, ou seja, do serviço, das demandas da população - nem os do céu, os estímulos e interesses subjetivos e culturais dos discentes e docentes).

Por fim, Prof. Lobo comentou sobre o erro em que recorrem as escolas médicas ao delimitar tempo ao invés de espectativas/desempenho de seus acadêmicos. Depender do tempo é contar com aptidões diversas e resultados diversos ao longo do tempo. Já contar com o desempenho, terá-se um parâmetro temporal variável, mas a qualificação terá objetivamente achados semelhantes.

Uma mudança no modo de ver, frente a "forma única", do tipo "one-way-fits-all".

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Súmula do dia...

Mais uma segunda!
Dia cheio, mas não para as palavras...
Arrumei um espaço, entre a curva e o vento, para dar pouso às folhas da árvore da imaginação.
Tão verdes para o outono.
Fato não tão incomum aqui entre os trópicos.

Dos estudos diários,
Uma parte foi contemplada - leituras, releituras, artigos e escritos...
Outra ficou para um dia mais comprido.

Nunca é tarde para começar um novo livro.
Nunca é tarde para os escritos do ante-sono...

Segunda-feira

É segunda-feira.
Dizer que hoje foi um dia corrido, talvez não seja nenhuma novidade.
Também não é uma surpresa,
acordar com os jornais repletos de notícias tristes
e com os comentários dos gols do final de semana...

Definitivamente hoje é segunda,
Um primeiro dia com gosto de segundo lugar.

domingo, 18 de abril de 2010

Paulo Freire e Comunicação... As palavras com sentido!




























Trago um trecho que chamou a minha atenção sobre este grande brasileiro, que pessoalmente, não conheço muito, mas que tentarei, pela leitura de suas obras, conhecer sua grandiosidade na luta pela democracia do ser humano em todas as suas perspectivas.

O trecho diz:

" Freire recorre à raiz semântica da palavra comunicação e nela inclui a dimensão política da igualdade, a ausência de dominação.

Para ele, comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano.

Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída.

O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social.

A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”
, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de ser informado e o direito à plena liberdade de expressão".

Só por estas palavras, já fiquei fã desse cara!
Com alguns de seus livros já sob o alcance de uns cliques, espero aprender muito com este Educador-mor e por em prática esta via de mão dupla, tanto disponibilizando este site para esta troca de palavras, como o meu cotidiano!

Neste tempo em que a comunicação está na mão dos Grandes, ter a noção do quanto o sentido esclarecedor de comunicação está no diálogo, longe da dominação, faz bem para que se rebelam contra o senso comum, a mesmisse, a rarefação das dúvidas e contestações...

Bom te conhecer, caro Freire, espero que não tão tarde assim!!!
Boa Noite,
Bambu!!!

Olha quem apareceu por aqui!!! Quanto tempo, hein???

Voltei com as palavras!
Pois é, quem é vivo sempre aparece...
Pena que não com a frequência que desejaria, ou precisaria...

No entanto, nesta nova tentativa de dar vida, escrita dinâmica, a este blog, espero ser mais bem sucessido, e não ser tomado por um rompante de palavras restritas a poucas semanas juntas...

Mais tarde volto com novas postagens concretas, com novas discussões e opiniões, sem falar dos pitacos com ou sem razão, desmedidos ou meticulosamente calculados, ou simplesmentes, alguns rompantes de alguém que não quer deixar as palavras passarem por si como o tempo, as contas, as incoerências...

Por enquanto é só!
Espero a frequente visita de seus olhos, o balanço de suas ideias e as palavras de bom grado, destinadas ao chapéu deste pobre encenador no mundo das escritas, a perambular pelos metrôs estáticos da rotina (ou na tentativa da fuga destas vias...)

Até já!
Vulgo Bambu  \,\!\infty