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Era esta que eu queria. Sim, aquela com os olhos bem destacados, de cujos epicantos faixas vermelhas escorriam. Esta era a máscara para o baile dos disfarces (ou dos dis-faces?). A escolha foi algo um tanto instantânea. 3 minutos separavam a máscara da pratileira aos meus contornos. O encaixe foi perfeito. Parecia feita, justamente, para as minhas dores! Era difícil entender como um disfarce poderia ser tão revelador. Resolvi escolhê-la sobretudo porque era a máscara que mais me tornaria transparente! Estas incoerências da arte! Era a máscara das minhas dores! Trazia a lividez, em um canto, do susto da separação. Em outro extremo, tinha alguns retoques, desproporcionais e assimétricos, como os do desespero. Em outro hemisfério, era plana e natural, como a disponibilidade dos solteiros. E dos cantos dos olhos, corriam um vermelho carnal, fazendo um trajeto similar aos das lágrimas, quando muitas, e quentes e molhadas. Encontrara a expressão da arte que de forma palpável trazeria a revivência desta dor ainda em digestão. Comprei-a suportando uma nova dor, a do preço alto das artes originais.
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- Maria por que está chorando?
- Não é nada não, sô. É um cisco só!
- Mas, se é um cisco, porque a água escorre pelos dois olhos?
- Uai, acho que o cisco é grande!
- Se é grande então, cadê ele uai? Arregala os olhos pr'eu vê?
- Me deixa, sô! Ele já não está na vista!
- Vai lá no rego, lava os olhos, pega bastante água fria... Uai porque o ocê tá chorando mais forte?
- É que esse cisco, este trem nos meus olhos, é uma dor, é mais uma dor do que um trem...
- Então fecha os olhos, e pensa num trem bão de mais da conta, um doce da vovó Izidra? Aposto com'c que passa, essa dolorência nas vistas...
- Ocê é bom, Dito, fala coisas despregadas, mas acaba que elas tampam alguns buracos na cabeça da gente...
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O grito e as lágrimas
Os olhos viram,
Era você, suas risadas, suas mãos
Os olhos não mais viram,
vermelhos, viraram-se para o oposto,
fecharam-se, por um instante, e se abriram
ensopados, inundados, trovejando gotas e correntezas
Os ouvidos,
ao longe escutavam,
pesares, perdões, pedidos
O pescoço rijo, a reta seguia
E as gotas, corriam a face, úmidas e em ebulição
Num instante, o silêncio
Os olhos na escuridão do desespero,
E de repente, as vistas novamente abertas,
viam a face do arrependimento, bêbeda em palavras e porquês.
O rosto lívido, sem vacilos e tremores,
úmido da humilhação,
vez da garganta uma arma,
e do silêncio,
um grito,
tão interno, tão primata,
a ecoar pela desfigurada ambiência da separação.
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