sábado, 28 de fevereiro de 2009

Trocando as mãos pelos pés

“You cannot find peace avoiding life” – Virginia Woolf

Findam-se as férias. Novos e velhos acontecimentos se entrelaçam. Reencontros e encontros primogênitos. Coisas passadas e pensamentos futuros se misturam nas estórias que contamos e nos contamos. E o presente? Onde posso encontrá-lo senão nos rodapés da TV, a uma velocidade superior a da luz, da luz de meu entendimento! É de uma das notícias destas férias, que teço o corpo deste texto. Mais do que de um fato, o texto possui consonância com uma promessa feita a mim mesmo, a de me tornar uma pessoa mais, digamos “em dia” com os dias que se passam, e se possível, procurar recantos, “descansos na loucura”, para refletir sobre os transcorridos. Essa coluna de reflexão, a prometida, versará sobre a mais nova e versátil função atribuída a um velho conhecido dos pés: os calçados.


Nem os candidatos do American Inventors pensariam em alguma coisa tão genial e tão singela. Quem diria, um sapato ser a mais nova bandeira de contestação e repúdio ao conformismo generalizado. A ação de jogar sapatos, um insulto gravíssimo no Oriente Médio, disse mais do que muitas manifestações juntas. Se nossos pés não podem chegar até aonde sonhamos, os sapatos o podem. A montanha foi a Maomé, e os sapatos chegaram a alguns centímetros de Bush Jr. Imperceptíveis são as asas das vestes dos pés! Mas mira afiada, isso só é adquirido com o tempo, anos de experiência! O tiro no alvo? O acerto? São exigências em demasia, oriundas de um mundo em que até a indignação é medida em tabelas de eficiência e “repercutibilidade”.


Altas novidades sobre o mundo calçadístico. Parece que cientistas alemães, pesquisadores ergonométricos, haviam criado um calçado que é perfeitamente acoplado ao formato dos pés do dono, e acreditem, pode até respeitar uma exigência fisiológica dos pés, sobretudo dos pés infantis, a do crescimento. Um calçado que além de confortável, cresce junto com os pés! Ouço aplausos? Observo num canto da sala, um grupo entre cochichos: afirmam o potencial repressivo desta invenção. Como repressivo, se pés e calçados crescem “a par e passo”? Uai, se o diálogo entre pés e sapatos for tão eficiente assim, quem os tirará dos pés? E o sapato como arma de protesto? Uma idéia de sucesso já nasceria caduca. Ciências Naturais e Sociais urgem um diálogo, de pés juntos.


Mas não é que até a crise mundial assolou o mundo dos calçados? Não inventaram ainda os calçados blindados! Esse calo, os podólogos não podem resolver. E os apelos de Lula em sua “Ode ao Consumo”? Talvez algumas cócegas nos pés mais “saidinhos” às compras. Acho que a “jogada de marketing” ideológica mundial, perpetrada por um jornalista, dê novos horizontes a um que na atualidade se demonstra tenebroso. Aos meus amigos de Franca, desejo dias melhores e sorte no basquete!


Outra questão que me inquieta é a seguinte: tudo bem, as pessoas descem dos tamancos, observam o espaço, fixam o foco de revolta, dirigem o calçado para sua nova localização estratégica, uma das mãos, preparam, apontam e adeus alpercatas? Eu acho que sou mais tradicionalista. Faria como o Sr. Alves. Não conhecem o dito-cujo? Pessoalmente eu também não, mas queria muito ter visitado-o quando estive em Fortaleza, na ocasião de um congresso da DENEM nestas férias, se tivesse passado pela Av. Engenheiro Santana Jr., próximo ao viaduto que atravessa a Av. Santos Dumont, no bairro de Papicu. Sr. Alves é um sapateiro-artista e faz dos muros vazios e das palavras sertanejas a fonte de suas exclamações sobre o mundo, de poéticas a políticas, de senis a infantis. Admira-me muito um profundo conhecedor da arte calçadística não ter patenteado a idéia estreada no alvo mais desejado do mundo. Sr. Alves tem um “pensamento arbóreo”, a sombra de um pé de castanhola, plantada por si, faz pequenos consertos e grandes reflexões sobre a vida. Tentarei fazer o mesmo, não ignorar a vida. O título que minha grande amiga Thais usou em seu texto, no Pato de fevereiro, deu-me a idéia de se criar uma pergunta: a cabeça pensa onde os pés pisam, e age onde os sapatos alcançam? Talvez em um mundo em que as palavras sejam subnotadas, talvez eu e Sr. Alves percamos a chance de sermos ouvidos e a segunda parte da pergunta se torne um axioma.


Finalizo com um “causo de família”: um dia, meu tio, nascido em berço destoante ao do tipo narrado no Hino Nacional, disse-me que ganhou seu primeiro calçado aos 18 anos. Uma botina ao trabalho e aos passeios destinada. Fiquei pensando: a maturidade, que a poucos ainda resta, anda ultimamente nas páginas dos jornais, voando pelos ares. Entre palavras e calçados, escolho as primeiras, precisam ser polidas, mas não engraxadas.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"O livro da dor e do amor"


Começarei por esta postagem, mas espero que eu venha me manifestar novamente por outras, a respeito de um livro que estou lendo que é muito interessante e carece de um espaço para reflexão de suas mensagens. O livro de J.-D. Nasio chamado “O livro da dor e do amor” será o mote de uma discussão muito interessante, um meio de buscar o auto-conhecimento e melhorar a compreensão de uma imbricada trama que envolve as palavras dor e amor. Então, finalizo: essa postagem e outras tantas serão áreas de pitaco livre (APL) para florescer o imaginário e aprofundar os conhecimentos motivados por esta obra, cativante, na minha humilde opinião. Pois bem, aviso dado, recado acabado!


“O estatuto fantasiado do amado assume pois três formas diferentes, que correspondem às três dimensões lacanianas do real, do simbólico e do imaginário. O real é simplesmente a vida do outro, a força de vida que anima e atravessa o seu corpo. É o real que dá corpo ao laço e ao inconsciente. A presença simbólica do eleito é um ritmo, mais exatamente o compasso pelo qual se regula o ritmo do meu desejo. É uma reinterpretação dos conceitos freudiano de recalcamento e lacaniano de Nome-do-Pai. O eleito simbólico é dono do compasso imposto ao meu desejo. Por fim, a presença imaginária do eleito no nosso inconsciente se resume em ser o espelho interior que nos remete as nossas próprias imagens. As imagens logo que recebidas fazem nascer um afeto. Este espelho psíquico, semelhante a um caleidoscópio sinestésico: produtor de imagens sempre parciais e móveis, não apenas visuais mas multi-sensoriais. Para que tudo isso ocorra é preciso da presença viva do amado. Junta-se a isso, a existência de uma espécie de enquadramento da imagem inconsciente do amado, ou seja, a idealização do eleito


De fato, inicialmente esses vocabulários parecem amedrontar um pouco. Soam um tanto herméticos. Mas, tentarei abordá-los, de acordo com o meu entendimento e minha interpretação do que já li no livro, de forma a melhorar a minha própria apreciação do exposto.

Primeiramente, tenta-se compreender a fantasia do amado por três dimensões: o real, o simbólico e o imaginário. Cada uma possui suas peculiaridades. O real, um termo confuso, pois remete a verdade, a algo digno de rei, a algo magnífico, mas neste caso é algo pertencente ao outro, mas que não se limita a ele, pelo contrário, extravasa essa fronteira e possui terreno fértil em mim. É a tessitura do laço que me une a fantasia do amado. O simbólico é o ritmo, ou seja, é a válvula de escape do desejo, porém até um certo ponto, a um ponto em que a insatisfação possa existir. O amado nunca nos satisfaz por completo. O imaginário, por fim, é o espelho interior, ou seja, um objeto que nos permite ver o outro e nos ver refletidos nele, mas não de maneira totalmente especular, mas com distorções, variações, com semi-tons e mobilidade, com a diversidade não só de imagens mas tudo que se pode abarcar pelos sentidos. Junta-se a essa imagem, a capacidade de nós, ao enquadrarmos a imagem inconsciente do amado, fazer conjecturas sobre o mesmo, muitas vezes repletas de idealização com repercussões várias, muitas delas negativas.



Em resumo:
“O eleito é, antes de tudo, uma fantasia que nos habita, regula a intensidade do nosso desejo (insatisfação) e nos estrutura. Ele não é apenas uma pessoa, mas uma fantasia construída com a sua imagem, espelho das nossas imagens (imaginário), atravessado pela força do desejo (real), enquadrado pelo ritmo dessa força."

Convocatória


Atenção,

A você que é um poeta, oculto entre trajes diversos, silenciado pelo cotidiano, rogo-lhe atenção e coragem para, juntos, consolidarmos a Legião dos Poetas Novos – LPN – um grupo brasileiro destinado a dar espaço, voz e divulgação a palavra que não mais consegue residir encarcerada, seja nos corações, seja no silêncio, seja na insipiência e na insapiência do tempo. Nossa hora é a de minutos antes, precisamos dar vazão às palavras antes que digam por nós. Convoco-lhe, escritor de páginas em branco, de edições negativas, cuja esperança na magnitude e realeza da palavra ainda respiram, a você que acredita na poesia, que juntos, façamos com que ela volte a ter espaço no cenário literário brasileiro, sobretudo no que diz respeito aos jovens escritores.

Nossos escritos serão uma forma de enfrentamento de um momento histórico em que a palavra é cada vez menos pronunciada para fazer referência ao humano e a arte. Navegar é preciso, escrever se faz urgente. Carece de muita coragem, sabemos disso, mas faremos da pedra, poesia, da indiferença, inspiração e da ousadia, nossa assinatura.


Fabrício Donizete da Costa - Bambu

Surubim

O dito cujo, rei dos rios!


Uma menina, pequena de olhos arregalados, entra com sua avó em casa de estranhos conhecidos, envolvidos por uma conversa de combinar horários e viagens, de caráter médico, ordem de retorno e ponto final. A menina ouve a conversa atentamente. Num momento as vozes se calam, depois de um diálogo aquecido sobre futuro, saúde e comidas. A menina regala os olhos e abre a boca:
- Vó, o que é surubim?
- Surubim? Uai, menina, surubim é um peixe, o melhor peixe que existe, sem espinhos!
O silêncio volta a tomar conta. A menina e a senhora de idade se despedem, descem escadas e o portão soa gentilmente ao fundo. Ambas seguiam de volta a casa e a menina refletia sobre a existência de um peixe sem espinhos. Quão engraçado: um de comer sem embaraços! Porque só o surubim é isento de espinhos? Uai, o sabor do peixe não reside no minuto secreto da quase espetada? A avó observava os olhos arregalados da menina e com um muxoxo de entre-lábios reprimiu a menina, coisas são essas de criança ficar esquentando muringa? Bonecas de pano e cadernos de linha verde são mais agradáveis. Espinhos são coisas para adultos... As duas sumiam no final da rua, o assunto se dissipava, os vestidos, um sereno, outro sóbrio, pendulavam com o caminhar.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Relatório Parcial da Iniciação Científica


Pois então,
Para quem ainda não sabe...
Sou estudante de medicina e faço iniciação científica (IC) em uma área interessante e pouco explorada aqui no Brasil: pesquiso de maneira mais abrangente a Relação Médico-Paciente, e de maneira mais específica, ao meu ver, um de seus alicerces, que é a EMPATIA. A grande maioria das pessoas que me escutam falar tão entusiasmado do meu projeto de IC, fomentado pelo Serviço de Apoio ao Estudante - SAE - da Unicamp, lança-me olhares curiosos e interessados nas repercussões do meu projeto. Alguns outros acham que eu deveria pesquisar um gene tal, uma mutação ou coisas do gênero.

De todo modo, amanhã é o primeiro dia do prazo de envio do relatório parcial do projeto de IC. Como o texto já foi avaliado por minha orientadora, uma professora do Depto. de Psiquiatria e Psicologia Médica, tenho o aval de envio do relatório para amanhã. Então será isso que farei! Missão cumprida, com maior antecedência possível e muito empenho para terminar o projeto no prazo proposto!

Com este meu trabalho, pretendo fazer um link com a Educação Médica. Interesso-me muito por essa área, e lanço aqui a minha pitaquice nesse quesito, cenas que seram enunciadas nos próximos capítulos, ou melhor, postagens deste blog. No mais, até mais!

Fácil ou Dificil; vc escolhe!



E você, acha que é fácil?
Fácil.
Falar é fácil, 
Difícil é expressar o que realmente queremos dizer.
Fácil é julgar pessoas, 
Difícil é julgar nós mesmos.
Fácil é mentir aos quatro ventos,
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”
Difícil é dizer adeus.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar de verdade.
Fácil é ouvir a música que toca,
Difícil é ouvir a própria consciência.
Fácil é perguntar o que deseja saber,
Difícil é estar preparado para ouvir a resposta.
Fácil é ferir quem nos ama,
Difícil é curar esta ferida.
Fácil é ditar regras,
Difícil é seguí-las.
Fácil é sonhar todas as noites,
Difícil é lutar por um sonho.
Fácil é exibir uma vitória,
Difícil é assumir uma derrota com dignidade.
Fácil é rezar todas as noites,
Difícil é encontrar Deus nas pequenas coisas.

Autor Desconhecido

De sonhos a meta, de escritor a linguagem

De sonhos a meta, de escritor a linguagem

“Felicidade se acha é só em horinhas de descuido” – Guimarães Rosa

 O frio parecia que diminuira ao longo da semana. A neblina baixa ainda contornava as serras e morros. Pastos verde-empoeirados na vista das manhãs. De longe, ouvia as vozes de minha mãe, que inquieta, remexia no quintal, conversando com as paredes e conduzindo uma vassoura em um samba das poeiras. Sentia que era hora de acordar. Os olhos, no quarto escuro, ardiam com a intromissão dos raios de sol. Levantar era uma manobra difícil. Requeria os esforços. Livrar-se do peso dos cobertores, dos resquícios de sonhos desconexos, das dúvidas e das certezas. Com um impulso, bati com força meus dois pés no frio piso. O frio pinicava os dedos convulsos que farejavam o paradeiro das sandálias de dedo...

 Gostaria de ser escritor. Mas escrever o quê, para quem, para quando, por quê? Perguntas estas que sempre carregarei comigo, nas algibeiras da minha insignificante e inigualável condição humanóide. Há horas em que dá vontade de escrever o que vem a cabeça, escrever mesmo que sejam palavras soltas, desconexas, ininteligíveis, sejam parágrafos criteriosamente pensados, com um rico vocabulário esculpido justamente para dar um corpo ao texto que redijo. Mas escrever, muitas vezes, não é uma tentativa de traduzir o inesperado? Dentro de mim, as palavras tremulam, seguram as grades da prisão que as enclausuram, e batem latas, gritam, queimam colchões e recitam hinos profanos pedindo a liberdade do mundo exterior. Sou humano, escrevo para humanos. Não procuro as melhores palavras, procuro apenas aquelas que batem a minha porta, aquelas que entram e tomam um copo d’água e comentam sobre o calor dos dias passados. Aquelas outras, estranhas, que ora tocam a campainha e correm ao vento da incerteza, estas famosas, só as encontro em momentos de grande felicidade, no descuido do flagrante, do tocar antes do correr na campainha da humana providência.

 No mundo, tão rico em possibilidades, escrever é uma tarefa que carece de muita coragem. E ao escritor, tão cruel. Como saber com quais palavras agradar as multidões? Não seria o silêncio uma defesa? Não àqueles, os escritores. Estes desafiam a realidade e ousam mostras as palavras que possuem, sejam elas caiporas, modistas ou atuais. Acordo, escovo os dentes e, à moda dos cavaleiros andantes, armo-me com a destreza das palavras, com o escudo das orações. E os textos como fazê-los ir ao mundo, serem notáveis, terem as asas sempre abertas e a habilidade de fazerem ninhos no maior número de casas possíveis? Penso o seguinte: queria que as palavras de meus textos, pequenas peninhas, formassem o corpo de um pássaro verde, de uma maritaca, a mulata cortadora de fios e milhos, bico afiado e canto estridente, e que assim, toda brasilidade, voasse e irritasse. Irritasse com as orações longas, de pontuação dúbia. Irritasse com o canto de algo do comum, do comum que acabamos por desprezar. Um bando de maritacas, impertinentes a cantarolar sem sentido e a chamar a atenção pelo simples motivo de existir.

 E assim, ouso escrever. Ouso ser humano em um mundo de perfeitos castelos de cartas. Em cada parágrafo, teimo em reforças as minhas vulnerabilidades, a impotência de minha prosódia, a inoperância de meu raciocínio, mas a impertinência de minha braveza. E a minha lerdeza de esperar que oportunidades ainda possam cair do céu, e aumentar a umidade relativa do ar, sossegar as poeiras. E no mais, pontuo e finalizo: escrever me fascina, poderes e porvires, um alimento das ilusões, o melhor dos espelhos, o único terreno em que o erro e a glória caminham de mãos dadas, a terra-de-ninguém em que repousa meu ser na travessia da pinguela da vida. E as palavras partem, com os lenços borrados de nanquim flamulantes, a espera do pior dos pontos, o finalíssimo.

 Enquanto tiver as palavras, recursos de vida, terei em mim as potencialidades do infinito. Compreenderei o sertão, valorizarei as veredas. Verei em pedras, desafios e em tropeços, danças. Verei que o mundo é bonito, mesmo que todos tentem provar o contrário a todos os instantes, com tiros que teimam em acertar inocentes, mesmo que as palavras sejam tão desprezadas de suas vitalidades intrínsecas. Ah, palavras, que bando de loucas que me cantarolam aos ouvidos e me cegam os olhos. Assino aqui minha servidão a elas, mas estas me libertam com a carta mais áurea de todas – a vida.

Redigido em 21 de julho de 2008 e publicado no Jornal "O Patológico"

As sombras sociais que conduzem as vassouras

Munidos com a vassoura e a lixeira móvel, este gari, um dom-quixote dos tempos modernos, tenta lutar contra o pior dos dragões, cotidianamente presente: a indiferença dos passantes, a invisibilidade que destrói a humanidade e nos empobrece como pessoas.

Uma mensagem enviada por um dos integrantes (Obrigado, Zen!) do grupo de e-mails da minha turma da FCM - Unicamp trouxe uma mensagem muito interessante, uma tese de mestrado que comprova a já presumível facilidade humana de ignorar os mais simples. Deem uma olhadinha (notem, inclusive, que a falta de acento circunflexo no verbo que inicia a frase anterior não foi um lapso, mas uma forma proposital para demonstrar a minha adesão as novas regras ortográficas):

 'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social...
Para quem quer saber um pouco mais sobre esta tese, leiam o texto de Plínio Delphino, no Diário de São Paulo, ou procurem a tese do professor Fernando Braga da Costa.
Cores vivas frente a invisibilidade pública
Fiquei pensando com meus botões depois de ler este e-mail e perguntei às minhas intranhas: será que muitos garis usam uniformes com cores vivas para que, de fato, possam ser notados de alguma forma, no mínimo pelo trânsito, e intuitivamente, pela população que é integrante do mesmo? Como bom palpiteiro, acredito que talvez as cores possam ajudar. Mas infelizmente existe uma classe de pessoas, que a cegueira da arrogância é de tal forma grave e irreversível, que não conseguem enxergar o ser, sem o colírio das aparências e dissimulações. Pior do que a constatação desta tese, a tese da invisibilidade pública, é saber que só o respeito e uma educação completa do ser podem impedir o alastramento das sombras sociais em nosso meio, bens cada vez mais escassos em nosso entorno.


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Já que nascemos...



"Puisque nous sommes nés", ou apenas, "Já que nascemos..."
Este é um documentário que descobri navegando por este mar de ondas turbulentas.
Espero que, assim que tiver oportunidade de ver este filme, possa expor minhas opiniões aqui, e fazer jus ao nome do blog, opiniões à parte!
Veja um trecho de um dos diálogos dos protagonistas, Nego e Cocada:

Nego: “Tu sabes quem tu sois Cocada ?
Cocada: “Sei”.
Nego: “Tu é o quê?”
Cocada: “Cocada! O que sou. Eu sou o que eu sou.
Agora eu num sei porque eu minto muito.
Nego : “O cabra sai e depois o cabra descobre porque é.”



NEGO E COCADA


Nego e Cocada têm o coração dolorido por todos os sofrimentos já vividos, mas têm vontade de partir, de lutar. Eles se questionam sobre coisas essenciais. Esta intimidade é o centro do filme.

Para construir nossa narração, nós focamos mais precisamente o quotidiano deles, a forma como eles vêm o mundo, os encontros que eles fazem com os adultos. Assim, caminhamos com eles na imaginação de um futuro que lhes ajude a suportar a dureza de todos os dias.



O ENFOQUE

Este filme não é um retrato miserabilista ou angelical da pobreza e da violência no Brasil. Ele nos conta uma história universal, a história de dois meninos que tentam encontrar seu lugar no mundo dos adultos. Eles sabem que lá onde eles nasceram não existe futuro possível.
Esta procura de identidade tem como cenário o Nordeste do Brasil, mas ele poderia se situar em qualquer lugar, em qualquer outro pais.
O que é mais surpreendente e tocante no Nego e no Cocada é a energia que eles empregam para escapar do destino anunciado. Eles querem saber quem eles são e fazer alguma coisa da vida deles.
A linguagem deles contém o que os aproxima. No filme, esta linguagem é confrontada com o discurso dos políticos, com o discurso de Lula, natural do Pernambuco, em campanha eleitoral para reeleição de presidente.
Na situação de segregação econômica que o Brasil vivencia, eles se tornaram os invisíveis aos quais se nega o valor de suas próprias histórias.


***Estes trechos foram retirados do site oficial do documentário: www.puisquenoussommesnes.com- e são de autoria dos diretores Jean-Pierre Duret e Andrea Santana


Para mais informações, não deixe de visitar o site que é bilíngue e possui um material de divulgação para download gratuito.


Caminhos de cada um



Un voyage de mille lieues a commencé par un pas.
[Proverbe chinois]

Por falar em caminhada...
Encontrei em um site de cultura (www.evene.fr), além de uma fonte de citações das mais diversas estirpes, um trailler de um filme que possui relação com a temática do provérbio. O filme chama-se EDEN A L'OUEST, de Costa-Gavras que estréia, creio eu, nos cinemas franceses, em 11 de fevereiro. Pelo que observei no trailler, o filme trará a temática das imigrações ilegais no contexto europeu. Um filme legal para tirar o pé do chão!

Tu vas où? À Paris.



Quando se fala de caminho, não se pode esquecer de:

Drummond e sua pedra,
Guimarães Rosa e a travessia pelo sertão,
Pessoa, e o navegar, o caminhar sobre as ondas...

Le Monde e as Sapatadas


Olá!
Ontem achei uma reportagem muito interessante no site do jornal francês Le Monde.
O jornal fazia um comentário sobre o fato de "as sapatadas" terem se tornado uma forma mundialmente reconhecida de expressar repúdio e contestação. Daí pensei em estimular aqueles que toparem com este blog a darem mais uma utilidade aos seus calçados e usarem-os como válvula de escape e flexa ao mesmo tempo! Bem-vindos a mais nova forma de catarse, a "catarse calçadística". O que lhe faria descer dos tamancos e arremessá-los no alvo de contestação?
Então, prepare a sua mira, escolha aquele calçado que mais se adaptar ao formato de sua mão, aponte e mate sua vontade de contestar!

Ops...
Fiquei sabendo num jornal televisivo que alemães desenvolveram um sapato que cresce a medida em que o pé do dono cresce. Em suma, pés e calçados crescendo a par e passo! Será uma forma cientificamente referenciada para impedir que troquemos os pés pelas mãos, no quesito calçadístico??? Vai saber...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O catador - Manoel de Barros

Gosto muito de poesia. Gosto muito de Manoel de Barros. Daí pensei em colocar algo de sua autoria no meu blog. Encontrei um poema muito interessante, no site www.releituras.com, entitulado "O catador". O texto segue com uma ilustração de Jinnie Anne Pak. Boa Leitura!


O Catador - Manoel de Barros

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,

ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da hum
anidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43.

Reflexões sobre alguns cacos

“Como é difícil esconder-se quando os esconderijos são os quadros de uma exposição”

- Umberto Eco

Talvez os caros leitores de “O Patológico” estejam estranhando a minha presença nessa coluna na corrente edição, diferente da costumeira presença no Spasmo! Pois bem, resolvi me aproveitar de um fato ocorrido envolvendo estudantes de medicina para tecer algumas considerações, de maneira a ampliar a visão muitas vezes reducionista e imagética, disseminada aos sete ventos pela mídia idônea de nosso país.

Começo desde já, diferentemente de muitos e-mails que escrevo em momentos de irritação, dizendo que não procuro culpados nem inocentes na famigerada “baderna do HU da UEL”. Usarei da fragmentação das imagens veiculadas, dos hinos de uma glória insana que ecoaram pelos corredores hospitalares, do tremor retratado nas gravações e nas vozes dos pacientes internados, dos rojões da incompreensão e do silêncio de resposta dos estudantes na mídia corrente para tentar montar uma imagem pura e nítida de uma auto-reflexão sobre nossa própria formação médica. Sim, caro leitor, usarei da ferida alheia para aprender a curar a ferida dos meus pares e a minhas próprias. Desde já assumo: este texto é alvo de réplicas e tréplicas.

Eis algumas das questões que me atormentam: a formação médica é condizente com o profissional médico que a sociedade brasileira quer? Ética se aprende em uma palestra antes da cerimônia de formatura, ou é um processo gradativo, uma agregação de pequenos conhecimentos aos poucos, uma parede tijolo-a-tijolo? Os amadurecimentos. Uma palestra sobre ética profissional é uma necessidade ou uma punição? “Temos ética do primeiro ao sexto ano”. Prefiro: temos ética hoje e sempre! Que utópico! Que ridículo! Caipirice, uai! Colar não é falta de ética? E ver as notas depois de uma “Avaliação de curso coerente-estruturada-clara-e-que-não-trava-no-último-segundo-droga-faço-de-novo-que-nada-tô-cheio”, é legal? Eu sei que tudo parece tão exagerado, mas precisamos passar por um momento de refração, de introspecção, antes da reflexão indiscriminada de nossos falsos moralismos, raios brilhosos que mais ofuscam do que clareiam.

Qual é a qualidade de vida de um estudante de medicina? O internato é entendido em sua totalidade? Não sei, mas acho que o internato é o filho-problema do curso médico. O assédio moral aos estudantes é bastante observado, não só aqui como no Haiti também! Sem dúvida, o internato é uma etapa essencial para a formação de um “corpo médico”, mas creio que a metodologia empregada precisa de uma reestruturação. Do contrário, os moldes atuais trarão o jargão da analogia “Médico e Monstro” cada vez mais próximo da realidade cotidiana, em um grau tão elevado, a ponto de o comodismo da sociedade deixar de ser imperativo. Residentes são professores, PEDs, PADs, Pais? Nenhuma das alternativas? Urge, para se consolidar um programa de internato sadio, além de muita coragem, uma integração muito afinada entre docentes e discentes e demais personagens, como preceptores, trabalhadores dos hospitais universitários, enfermagem e demais profissionais da área da saúde. Note, caro leitor, que o meu primeiro questionamento, o estopim deste parágrafo, não foi respondido. Fiz de propósito. Os estudantes de medicina se esquecem que também possuem este direito. Devem estudar muito, serem responsáveis, cuidarem com atenção e dedicação do paciente (queria incluir com amor, mas para muitos isto pode parecer muito forçado, muito impessoal, embora eu pense que só assim seríamos médicos aos moldes de Hipócrates). De fato, devem fazer o melhor que podem, mas devem ter descanso, direito a dormir de maneira a reconfortar seus corpos e sonhos, de ler Guimarães Rosa, de plantar alface, de ligar para o primo, de tomar sorvete, de sair com amigos e não falar de Imunologia ou das últimas sacadas do Dr. House. Que os plantões que nos são exigidos não jogem por terra a tênue homeostasia que aprendemos nas aulas de fisiologia, nas madrugadas com o Guyton ou seu primo mais familiar, Guytinho e seus “genéricos”, ainda mais apetitosos. Os pupilos de medicina precisam de momentos em que reflitam sobre o curso, sobre a complexidade do processo saúde-doença, das questões de mercado que interferem em sua atuação, na ambivalência do ser humano, no desafio da dor e da morte, na elaboração de lutos, no controle da impulsividade, da agressividade, em síntese, do reconhecimento de que não são médicos, mas estão em via de tornar-se um, e este “tornar-se” engloba aprendizagem, erros e acertos. Estamos em construção. Os estudantes de medicina precisam de um retorno ao singelo, ao simples que aguça os sentidos e dá um significado à dedicação exercida, que é muitas vezes incompreendidamente vista como uma obrigação.

Fecho este texto dizendo que o luto dos formandos da UEL, no dia que seria, talvez, o mais alvo de suas vidas, é a antítese que caracteriza a formação médica que esquece o estudante pelo caminho. Claro que tudo é passível de exceções. As generalizações são por si só incompletas e obtusas quanto o papel resolutivo que representam. O corporativismo que atravanca a prática da ética e as punições exemplares são táticas tão medievais quanto fazer de internos, curandeiros, e de hospitais, tavernas. Aqui as palavras cessam, não as dúvidas.

(Texto publicado em "O Patológico" - Jornal do CAAL da Unicamp - em Janeiro 2009)

O tombo

O Tombo

Andava pelas ruas,

com minhas amarras,

sandálias de vento,

cujos passos e rasteiras,

em intermitentes permutas,

me conduzem ao chão.

Quando caio,

levo as mãos ao solo,

um piso que não me reconhece,

em seu concreto traço,

de fragilidade disfarçado.

Quando caio,

olho ao redor da cena.

Desejo-me invisível

aos olhos humanos,

tão aplicados nas comparações do tormento.

Quando caio,

finjo-me de morto por alguns instantes.

E aos poucos,

do susto e dos risos

faço percepção.

Olho para meu interior,

Estrela em retração,

vejo meu reflexo,

nítido ao espelho da vergonha,

e de mim,

de um eu que só me visita

em súbitos acessos de teimosia,

lembro dos tempos em que cair

era a forma de dar passos mais longos,

e apoiar-se,

era fazer da força alicerce.

E assim, bato as mãos,

antes confeitadas

com o pó do medo

e as plumas do asfalto,

ergo-me das profundezas do vacilo,

até o próximo local,

em que o cadarço do destino,

Se desata ao convite de um encontro,

Inesperado e doloroso,

Entre a carne e o solo,

O corpo e a alma,

Entre o caminho e a pedra,

Entre a marionete e suas cordas,

Entre o fim e o ponto.

(En)cantos em versos

(En)cantos

Cantaria a você uns versos de Shakespiere

Se o meu inglês não fosse tão americano

Talvez pintasse Renoir

Se meus impulsos não fossem tão à Van Gogh

Se as minhas mãos não fossem tão duras

Quanto a sua indiferença.

Se gostasse de beber,

Lhe daria um vinho

Feito da uva mais coronária possível.

E de comida,

Lhe daria a vida

A lida, a partida ganha

Em todos os gramados

E aos desterrados

Daria a terra fecunda de seus lábios

Mas você não quis meus encantos

E dos cantos

Fiz o silêncio

E pelos trancos

Fechei meus olhos com força

Engoli o veneno da vingança

Gritei seu nome aos sete ventos

E a resposta fria veio como de costume

Pedi para que não mais encontrasse você pelo caminho

Que rotas alteradas me levassem ao longe de você

E agora, em fatalidade,

Lhe encontro face a face

Seus encantos mais lívidos

Meus prantos mais vívidos

Sinto-me fraco

Mas resisto

E pisco

E você

Some no vazio que me preenche em sua ausência

E com meus cantos expostos

Sigo até meu próximo recanto,

Os resquícios mnemônicos ainda cristalizados de seus encantos

E canto a dureza da incerteza

O saco ou a embira

Alguns meses atrás, decidi que iria fazer da minha agenda da Unicamp um verdadeiro bloco de notas. Iria registrar as preciosidades da fala de minha pequena cidade, a pacata São Roque de Minas. Fazer das palavras um mote em si mesmas. E para estrear neste sertão, começo pelo ditado “o saco ou a embira”, expressão usada para se descrever alguém ou uma situação de impasse, em que se urge a necessidade da decisão. A pequena estória abaixo, iniciada, mas não concluída, tenta dar uma demonstração darvida desta expressão, que pulsa no vocabulário de poucos, mas que guarda sua utilidade na fala humilde do interior mineiro.

O saco ou a embira

Maria devia escolher. A situação estava insustentável. As noites sem sono. A vida sem sal. O gosto pelo novo, inexistente. Não era certo o que estava fazendo. A manutenção deste estado de nervos teria dois fins, todos os dois trágicos e presumíveis. Sua resposta era sempre o silêncio e a espera. Remoia-se internamente, mas sabia esconder suas instabilidades. Mas a escolha era uma questão de tempo, inevitável por recursos possíveis até então. Era o saco ou a embira. O que ela escolheria?

Agia de forma teatral. No seu rosto, os contornos moldados pelo tempo e pelo frio vento do outono, tinham uma resposta única para tudo que sucedia ao seu redor. Era só e não contava com o auxílio de ninguém para escolher. Era por si, e as si se safaria. Encarava o desafio com os olhos cavernosos, duas esmeraldas encravadas em uma rocha intacta, de lapidação descarecida. Nos lábios repousava um tremor contínuo e imperceptível aos olhos da pressa. Quem a conhecia não imaginava o quanto lidava com destreza com sua profunda dúvida.