
As férias estão acabando...
Mas sempre há um bom tempo para uma leitura construtiva, certo?
Pois é. Como não posso ir à peça de teatro, leio o livro. Foi isso que fiz com "A alma boa de Setsuan" de Bertolt Brecht.
Para praticar meu alemão, serei mais claro: a peça se chama "Der gute Mensch von Sezuan".
Muito inteligente e contemporânea, como todos os escritos de Brecht que já pude ler.
Vejamos algumas reflexões:
"A maldade é uma espécie de incapacidade" - Ponto de vista esclarecedor. Aquele que utiliza o recurso da maldade, exprime uma incapacidade que possui. Ou seja, a maldade nos impede de ir além, nos paralisa e nos centra em um mundo de egoísmo. Mais do que uma ação, a maldade é um ente que envenena as possibilidades de vida que nos cercam, deixando-nos cegos. Uma reflexão que levarei para a vida!
"Não deveis exigir em demasia logo de início" - O ditado da ponderação, da temperança, do tudo-em-seu-tempo-e-lugar. Difícil de ser respeitado nos tempos atuais, de exigências mil e frenéticas...
A protagonista da peça, se questiona: "Como é que eu posso ser boa, se as coisas andam tão caras" - Uma interrogação que esbanja comentários: a bondade frente o instinto de sobrevivência. Em muitos momentos da obra, "a boa alma" se vê frente a encruzilhadas cujos caminhos levam a bondade ou a maldade. Muitas vezes a escolha "correta" é um suplício: os parasitas que a cercam, a deturpação do mundo e de suas relações, tudo isso joga contra as boas intenções da protagonistas, que são boas de fato. Sendo a bondade seu lema, e o oposto, o lema dos que a cercam, "a boa alma" vive em constante confrontamento e a dualidade do ser humano é expressa na dupla-personalidade vivida pela protagonista: a da boa alma e a do primo articulador, duro e metódico. Contudo, tais personalidades disputam um só terreno e no enfrentamento dessas forças, as incompreensões se multiplicam.
E como o mais inesperado e essencial dos sentimentos, o amor chega na travessia da "boa alma" e, consigo, suas palavras tortas. Termino este breve comentário sobre esta obra rica em todos os sentidos e acepções da palavra, dizendo que a peça deve ser vista e/ou lida (de preferência e) por todo aquele que se interessar em conhecer mais a si e ao mundo que o completa. Termino com algumas palavras da boa alma, em suas divagações com relação ao seu coração enamorado pelo esperto aviador (interessante, se apaixonar por alguém que leva às nuveis, o que não é raro quando esta paixão é sinônimo de amor!).
Carícias tornam-se estrangulamentos,
Cada suspiro é um grito de pavor:
Por que esvoaçam corvos agourentos?
É alguém que vai a um encontro de amor!
Até mais ver, ouvir ou falar (ou escrever)!!
Bambu







