Uma menina, pequena de olhos arregalados, entra com sua avó em casa de estranhos conhecidos, envolvidos por uma conversa de combinar horários e viagens, de caráter médico, ordem de retorno e ponto final. A menina ouve a conversa atentamente. Num momento as vozes se calam, depois de um diálogo aquecido sobre futuro, saúde e comidas. A menina regala os olhos e abre a boca:
- Vó, o que é surubim?
- Surubim? Uai, menina, surubim é um peixe, o melhor peixe que existe, sem espinhos!
O silêncio volta a tomar conta. A menina e a senhora de idade se despedem, descem escadas e o portão soa gentilmente ao fundo. Ambas seguiam de volta a casa e a menina refletia sobre a existência de um peixe sem espinhos. Quão engraçado: um de comer sem embaraços! Porque só o surubim é isento de espinhos? Uai, o sabor do peixe não reside no minuto secreto da quase espetada? A avó observava os olhos arregalados da menina e com um muxoxo de entre-lábios reprimiu a menina, coisas são essas de criança ficar esquentando muringa? Bonecas de pano e cadernos de linha verde são mais agradáveis. Espinhos são coisas para adultos... As duas sumiam no final da rua, o assunto se dissipava, os vestidos, um sereno, outro sóbrio, pendulavam com o caminhar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário