
Minha mãe estava caidinha.
Cara de defunta, que Deus me livre, com o perdão da palavra.
Amuadinha, não queria sair de casa.
Só ficava deitada.
Minha mãe não estava boa.
O médico disse que ela estava com anemia.
Sulfato ferroso e nada.
Minha mãe fez exames.
Estava com câncer.
De novo, depois de 20 anos.
Está operada.
Sente cólicas e tem um adesivo nos pés que eu não sei por que está lá.
Queria limpar, tirá-lo, posso?
E eu?
A, eu moro com minha mãe.
Sou costureira.
Estou afastada, por invalidez.
Tenho Insuficiência Renal Crônica.
Está controlada, só com remédios.
Eu não casei, sou solteira.
Não achei um doido que quisesse me desposar.
De noite não saio.
Não gosto. Tenho medo.
Antes saída, aos bailes e discotecas.
Mocidades e madrugadas.
Tenho medo de chuva.
De raios e trovões.
Chove, estou só, corro para a casa da vizinha.
Busco minha sombrinha e saio de casa.
Quando minha mãe está ao meu lado,
Arma chuva, eu peço que ela não saia.
Ela tem obrigações paroquiais,
cuida das chaves do cômodo de reuniões.
Peço que não me deixe, com a chuva e seus barulhos.
Mas minha mãe é livre.
Vai com a chuva e volta sem ela.
Eu fecho os olhos, cubro a cabeça, escureço o quarto.
Às vezes rezo, muitas outras durmo.
Outras tantas sonho.
E assim o medo vai-se como a enxurrada
Que escorre pelas pedras do calçado irregular das ruas de Caconde.
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