
Doutor, sou analfabeta.
No meu tempo, escola não havia.
De certo havia, mas trabalho não deixava.
Na roça, as mãos buscam cedo o trabalho.
Na roça plantei minha mocidade.
Agora esses remédios que tomo.
São tantos. São muitos.
São todo o santo dia.
Um é de manhã, às 6:00.
Outros dois às 10:00, no almoço.
Outros só às 10:00, de noite.
Mas eu não confundo não.
Minha neta me ajuda.
O alarme do celular toca na hora dos remédios.
Lembro-me sempre de tomar.
Tomo certinho.
É de mim, o zelo.
Minha mãe morreu com 105 anos.
De velhice.
Meu velho, esse não vem no médico.
Não gosta.
Fica no mato, na roça.
Ele teve derrame.
Hoje fala de vez em quando sozinho...
Eu fico sozinha, até que bastante.
Mas escuto o rádio.
Os remédios eu tomo com água, ou leite, ou suco.
Dos chás, o de folha de abacate e quebra-pedras, quando me dói de lado.
Vou pra casa, antes da chuva.
Dos remédios, faltam 2.
Filho meu compra na farmácia.
Moro na beira do rio.
O ônibus não passa mais nesse horário.
Não vai até lá em baixo.
Chego antes da chuva.
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