Oswaldo Goeldi - Chuva (1957)
"A manhã bem que prenunciava a chegada da chuva. Era possível sentir o ar molhado, ao se abrir as janelas, levemente endurecidas, em seu metal frio. Na parede, o papel pardo de letras miúdas, a folhinha Mariana, marcava tão corajosa como a sentença de um juíz: janeiro de chuvas e de pelejas. Pena que nas gotas frias, as pelejas são mais molhadas... Tudo está tão úmido, inclusive os rostos, ora do suor das limpezas, de mais águas a correr, ora do balanço que a onda das tragédias alheias acaba por nos tocar, essas ondas das lamentações.
As pessoas saem sempre acompanhadas: quando há necessidade, a companhia é exposta, central, está no topo. Quando se está sob um refúgio frente as gotas intermináveis, a companhia é escusa, inconveniente, depositada nos cantos... Sorte que os guarda-chuvas não são temperamentais! Senão, por pirraça, poderiam ceder a qualquer brisa ou travar frente ao toque de ativação na urgência dos novos pingos, só para vingar a exploração revidada pelo desprezo.
As chuvas continuam... Intermitentes... Incoerentes...

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