domingo, 16 de janeiro de 2011

A vida dos animais

Fonte: Le Figaro Image


O livro de mesmo título, de John Coetzee, é bastante instigante. Leitura rápida, porém inquietante, questionadora, pertubadora! Comentarei alguns trechos:

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“Poderia contar a vocês, por exemplo, o que acho da tese de santo Tomás de Aquino segundo a qual, posto que só o homem é feito à imagem de Deus e participa da essência de Deus, o modo como tratamos os animais não tem nenhuma importância salvo na medida em que ser cruel com os animais pode nos acostumar a ser cruel com os homens. Posso perguntar o que santo Tomás considera ser a essência de Deus, ao que ele responderá que a essência de Deus é a razão."

"Da mesma forma que Platão, da mesma forma que Descartes, cada um à sua maneira. O universo é construído sobre a razão. Deus é um Deus da razão. O fato de que graças à razão se possa chegar a compreender as leis que regem o universo demonstra que a razão e o universo têm a mesma essência. E o fato de que os animais, não tendo razão, não possam compreender o universo mas devam limitar-se a obedecer cegamente suas leis, demonstra que, diferentemente do homem, eles fazem parte dele mas não participam do seu ser demonstra que o homem é como deus e os animais, como coisas [grifo meu!]”.

“(...) A razão não é a essência do universo, nem a essência de Deus. Ao contrário, e de forma bem questionável, a razão parece ser a essência do pensamento humano; pior ainda, a essência de apenas uma tendência do pensamento humano. A razão é a essência de um certo domínio do pensamento humano. E se assim for, se é nisso que eu acredito, então por que devo me curvar à razão esta tarde, contentando-me em abordar o discurso dos velhos filósofos?” (p.28-29)

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Corajosas são as palavras da personagem Costello, escritora que usando-se da razão, procura destroná-la como mantenedora das condições de possibilidade de existir no mundo. Coragem às custas de um respeito, de uma simpatia, pelos animais. Um livro que busca nos fazer pensar a vida animal fora da perspectiva humana (se é que isso seja possível, o que penso que sim, já que à literatura não se pode creditar barreiras intransponíveis...).

Um livro que salienta o quanto alguém pode chegar pelos seus princípios éticos, estéticos e porque não proféticos... Da implicação pelas lutas da vida, até o uso das enérgicas palavras e analogias e metáforas, areias movediças ou como diria um professor "as famigeradas cascas de banana", fontes de más-interpretações e, pior, fonte de inimizades geracionais... Tudo pelas crenças motrizes da vida. Para as vidas que valem ser vividas.

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