Nesta sessão do blog tentarei trazer tópicos em filosofia (sobretudo dos Filósofos da Diferença), com o intuito de fixar leituras, explorar fronteiras e sobretudo, pensar o cotidiano e seus desafios.
Spinoza e as três "éticas"
Deleuze, em seu último livro "Crítica e Clínica", traz em seu último capítulo o título "Spinoza e as três éticas". Neste texto o autor retoma a obra mais importante de Spinosa, a Ética. Começa por dizer que esta obra, embora aparente ter uma linearidade geométrica e geográfica, transparecendo ser um rio calmo acaba por nos surpreender com suas avassaladoras discussões e proposições.
Assim, um rio pacato transmuta-se em um mar revolto, pela potência de suas revelações.
Parte da discussão de seus três elementos principais:
- A proposição dos signos ou afectos, bases do primeiro gênero do conhecimento
- A proposição das noções ou conceitos, bases do segundo gênero do conhecimento e finalmente,
- A proposição das Essências ou perceptos, bases do terceiro gênero do conhecimento.
Os signos contem a capacidade de serem polissêmicos. Contudo, aglutinam um único e só efeito. Os signos representam a capacidade de um corpo deixar um vestígio sobre outro, mudando a sua duração. Por exemplo, quando o sol interagem com nosso corpo (nossa pele) ele deixa uma marca, o bronzeamento. Assim, a interação de dois corpos, que resulta em uma "marca" em seu ser (em sua duração como corpo, que se vê mudada por essa relação) acaba por constituir um afecto, um signo!
Aprofundando o entendimento dos signos, Deleuze, os classifica em determinadas formas. Abordarem os signos denominados vetoriais, ou seja, aqueles que se caracterizam por aumentar a potência, diminuir a potência ou mesmo se comportarem de forma ambígua quanto a potência (em determinada situação podem aumentar ou diminuir a potência de outros corpos). Assim, surgem os conceitos potências aumentativas e servidões diminuitivas, além dos signos flutuantes ou ambíguos, metaforicamente comparadas a uma escala de cores em dois tons (claro-escuro) em que as potências aumentativas comporiam a claridade e as diminuitivas ou serviçais dariam vida às tonalidades obscurantistas.
As noções já constituem o segundo gênero do conhecimento, ou o segundo modo de existência ou de expressão. Noções comuns são conceitos de objetos. As noções comuns constituem os corpos que são a representação de infinitas relações que se compõem e decompõem. Assim meu corpo representa-se por um conjunto de infinitas relações que compõem o meu corpo. A constituição de um corpo exige a seleção de afectos passionais, condição sine qua non para se sair do primeiro gênero do conhecimento. Contudo, esta garimpagem dos afectos não se dá de maneira isenta de tensões.
Tal seleção dos signos requer a Razão, ou seja, o esforço pessoal que cada um faz sobre si mesmo para melhor escolher dentre os afectos ofertados, além de exigir um combate afectivo inexpiável em que signos digladiam com outros signos e afectos tensionam com outros tantos afectos. É pelos escólios da Ética que se anunciam os signos ou a condição do novo homem, aquele que aumentou sua potência o suficiente a ponto de formar conceitos e converter os afectos em ações.
Por fim, almeja-se chegar à Essência, com sua velocidade absoluta. Esta em que a natureza e as potencialidades do existir tomam vida plena... Terceiro gênero que será fonte de conversas futuras...

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