Voltando aos textos da Ethica de Spinoza, antes de aprofundar em mais conceitos de sua filosofia, trago a poesia de Adélia Prado para complementar minhas indagações e conjecturas frente a possibilidade de uma filosofia que nos impulsione a viver uma vida que valha a pena. Na imagem do canto de uma cigarra, em sua poesia "Módulo de verão", do livro Bagagem, Adélia ouve o canto da esperança, vejamos:
Módulo de verão
As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarrachadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
- chamado canto - cinzento-seco, garra
de pêlo e arame, um aspero metal.
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
- Quem não quis junto deles uma agulha?
- Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.
E para Spinoza, o que viria a ser a esperança? Antes de chegar em seu conceito, Spinoza irá trabalhar uma importante característica dos afetos e suas interações com a mente e o corpo humanos. Quando o estado da mente humana provém de dois afetos contrários, o filósofo afirma que a mente terá um estado de flutuação dos afetos. A flutuação seria o mesmo que a dúvida representa para a imaginação.
Sabe-se que o corpo humano é composto de um grande número de indivíduos de natureza diferente, sendo, pois, afetado de muitas maneiras. Portanto, um só e mesmo objeto pode ser causa de muitos e conflitantes afetos, colaborando para a fluturação desses afetos.
Quanto a temporalidade das imagens e suas implicações nos afetos, Spinoza é categórico: o estado do corpo, o seu afeto, é o mesmo, quer a imagem seja a de uma coisa passada ou de uma coisa futura, quer seja a de uma coisa presente. Contudo, reitera que os afetos resultantes das imagens do passado e do futuro são menos estáveis, estão perturbados por outras imagens. São imagens embassadas, diria eu, com choviscos, incompletudes, fragmentações.
Dito, Spinoza conceitua a esperança como sendo uma espécie de alegria instável oriunda da interação de imagens do passado ou do futuro. Quando esta alegria instável está imbuída de afetos que não flutuam, que não geram dúvidas, a esperança dá origem a segurança.
No seu oposto, a tristeza de caráter instável, ou seja, oriunda de imagens de coisas duvidosas, dará origem ao medo. Quando esta tristeza perde seu caráter instável, a tristeza certeira e inquestionável oriunda de imagens das coisas, dará origem ao desespero.
Será que o canto das cigarras refletiriam uma alegria instável aos ouvidos de Adélia? É possível que sim. Que os tons deste cantar intenso e marcante sejam capazes de nos transportar ao passado vivido ou ao futuro por vir, construído pelas imagens das coisas entre-núvens não me restam dúvidas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário