aguarda a entrada,
com suas duas cadeiras
mudas, azuis e rígidas,
da paciente anunciada
pela prosa amiga e humana de uma buzina
como aquela dos bancos,
dos supermercados,
dos territórios de longas esperas
Entra uma senhora,
miúda,
vagarosa,
tensa
traz consigo,
além das dúvidas,
uma acompanhante,
olhos arregalados,
sacolas plásticas brilhantes
com papeis origamicamente dobrados
Num átimo,
os papéis,
como prisioneiros de guerra,
estirados na mesa,
não escondem os segredos,
que podem existir
entre uma mulher
e seu seio edemaciado
Algumas perguntas,
idade
menstruação,
comorbidades,
filhos, remédios, doenças prévias,
doentes na família e o eco horripilante,
é câncer
é câncer
faz-se som frio e frequente,
entre as mulheres e os papéis da mesa.
Prossegue ao diálogo,
monólogo de entendimentos,
o exame das carnes,
deita a ansiâ,
seus pesos na maca,
desajeitadamente encapada de papel reciclado,
e dançam os dedos em suas mamas
vasculham com entusiasmo
a procura de nódulos,
encontram só o medo,
nem cístico,
nem sólido,
encaroçado nas axilas.
E finalmente,
a sentença firme
o diagnóstico seco:
"tens um câncer,
tem-se tratamento,
terás que ser forte",
A senhora,
olhos vidrados,
boca murcha de desgosto,
entreaberta num grito surdo
respira com ruídos e arremata,
em sua dignidade convulsivante:
"este não passa,
de mais um processo,
que careço de viver
contra o maligno,
meu fado encaro sem relutâncias,
só me deixa chorar meus desesperos,
antes de ser mulher de pedras"
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