domingo, 8 de fevereiro de 2009

De sonhos a meta, de escritor a linguagem

De sonhos a meta, de escritor a linguagem

“Felicidade se acha é só em horinhas de descuido” – Guimarães Rosa

 O frio parecia que diminuira ao longo da semana. A neblina baixa ainda contornava as serras e morros. Pastos verde-empoeirados na vista das manhãs. De longe, ouvia as vozes de minha mãe, que inquieta, remexia no quintal, conversando com as paredes e conduzindo uma vassoura em um samba das poeiras. Sentia que era hora de acordar. Os olhos, no quarto escuro, ardiam com a intromissão dos raios de sol. Levantar era uma manobra difícil. Requeria os esforços. Livrar-se do peso dos cobertores, dos resquícios de sonhos desconexos, das dúvidas e das certezas. Com um impulso, bati com força meus dois pés no frio piso. O frio pinicava os dedos convulsos que farejavam o paradeiro das sandálias de dedo...

 Gostaria de ser escritor. Mas escrever o quê, para quem, para quando, por quê? Perguntas estas que sempre carregarei comigo, nas algibeiras da minha insignificante e inigualável condição humanóide. Há horas em que dá vontade de escrever o que vem a cabeça, escrever mesmo que sejam palavras soltas, desconexas, ininteligíveis, sejam parágrafos criteriosamente pensados, com um rico vocabulário esculpido justamente para dar um corpo ao texto que redijo. Mas escrever, muitas vezes, não é uma tentativa de traduzir o inesperado? Dentro de mim, as palavras tremulam, seguram as grades da prisão que as enclausuram, e batem latas, gritam, queimam colchões e recitam hinos profanos pedindo a liberdade do mundo exterior. Sou humano, escrevo para humanos. Não procuro as melhores palavras, procuro apenas aquelas que batem a minha porta, aquelas que entram e tomam um copo d’água e comentam sobre o calor dos dias passados. Aquelas outras, estranhas, que ora tocam a campainha e correm ao vento da incerteza, estas famosas, só as encontro em momentos de grande felicidade, no descuido do flagrante, do tocar antes do correr na campainha da humana providência.

 No mundo, tão rico em possibilidades, escrever é uma tarefa que carece de muita coragem. E ao escritor, tão cruel. Como saber com quais palavras agradar as multidões? Não seria o silêncio uma defesa? Não àqueles, os escritores. Estes desafiam a realidade e ousam mostras as palavras que possuem, sejam elas caiporas, modistas ou atuais. Acordo, escovo os dentes e, à moda dos cavaleiros andantes, armo-me com a destreza das palavras, com o escudo das orações. E os textos como fazê-los ir ao mundo, serem notáveis, terem as asas sempre abertas e a habilidade de fazerem ninhos no maior número de casas possíveis? Penso o seguinte: queria que as palavras de meus textos, pequenas peninhas, formassem o corpo de um pássaro verde, de uma maritaca, a mulata cortadora de fios e milhos, bico afiado e canto estridente, e que assim, toda brasilidade, voasse e irritasse. Irritasse com as orações longas, de pontuação dúbia. Irritasse com o canto de algo do comum, do comum que acabamos por desprezar. Um bando de maritacas, impertinentes a cantarolar sem sentido e a chamar a atenção pelo simples motivo de existir.

 E assim, ouso escrever. Ouso ser humano em um mundo de perfeitos castelos de cartas. Em cada parágrafo, teimo em reforças as minhas vulnerabilidades, a impotência de minha prosódia, a inoperância de meu raciocínio, mas a impertinência de minha braveza. E a minha lerdeza de esperar que oportunidades ainda possam cair do céu, e aumentar a umidade relativa do ar, sossegar as poeiras. E no mais, pontuo e finalizo: escrever me fascina, poderes e porvires, um alimento das ilusões, o melhor dos espelhos, o único terreno em que o erro e a glória caminham de mãos dadas, a terra-de-ninguém em que repousa meu ser na travessia da pinguela da vida. E as palavras partem, com os lenços borrados de nanquim flamulantes, a espera do pior dos pontos, o finalíssimo.

 Enquanto tiver as palavras, recursos de vida, terei em mim as potencialidades do infinito. Compreenderei o sertão, valorizarei as veredas. Verei em pedras, desafios e em tropeços, danças. Verei que o mundo é bonito, mesmo que todos tentem provar o contrário a todos os instantes, com tiros que teimam em acertar inocentes, mesmo que as palavras sejam tão desprezadas de suas vitalidades intrínsecas. Ah, palavras, que bando de loucas que me cantarolam aos ouvidos e me cegam os olhos. Assino aqui minha servidão a elas, mas estas me libertam com a carta mais áurea de todas – a vida.

Redigido em 21 de julho de 2008 e publicado no Jornal "O Patológico"

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