sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O catador - Manoel de Barros

Gosto muito de poesia. Gosto muito de Manoel de Barros. Daí pensei em colocar algo de sua autoria no meu blog. Encontrei um poema muito interessante, no site www.releituras.com, entitulado "O catador". O texto segue com uma ilustração de Jinnie Anne Pak. Boa Leitura!


O Catador - Manoel de Barros

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,

ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da hum
anidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43.

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