“Como é difícil esconder-se quando os esconderijos são os quadros de uma exposição”
- Umberto Eco
Talvez os caros leitores de “O Patológico” estejam estranhando a minha presença nessa coluna na corrente edição, diferente da costumeira presença no Spasmo! Pois bem, resolvi me aproveitar de um fato ocorrido envolvendo estudantes de medicina para tecer algumas considerações, de maneira a ampliar a visão muitas vezes reducionista e imagética, disseminada aos sete ventos pela mídia idônea de nosso país.
Começo desde já, diferentemente de muitos e-mails que escrevo em momentos de irritação, dizendo que não procuro culpados nem inocentes na famigerada “baderna do HU da UEL”. Usarei da fragmentação das imagens veiculadas, dos hinos de uma glória insana que ecoaram pelos corredores hospitalares, do tremor retratado nas gravações e nas vozes dos pacientes internados, dos rojões da incompreensão e do silêncio de resposta dos estudantes na mídia corrente para tentar montar uma imagem pura e nítida de uma auto-reflexão sobre nossa própria formação médica. Sim, caro leitor, usarei da ferida alheia para aprender a curar a ferida dos meus pares e a minhas próprias. Desde já assumo: este texto é alvo de réplicas e tréplicas.
Eis algumas das questões que me atormentam: a formação médica é condizente com o profissional médico que a sociedade brasileira quer? Ética se aprende em uma palestra antes da cerimônia de formatura, ou é um processo gradativo, uma agregação de pequenos conhecimentos aos poucos, uma parede tijolo-a-tijolo? Os amadurecimentos. Uma palestra sobre ética profissional é uma necessidade ou uma punição? “Temos ética do primeiro ao sexto ano”. Prefiro: temos ética hoje e sempre! Que utópico! Que ridículo! Caipirice, uai! Colar não é falta de ética? E ver as notas depois de uma “Avaliação de curso coerente-estruturada-clara-e-que-não-trava-no-último-segundo-droga-faço-de-novo-que-nada-tô-cheio”, é legal? Eu sei que tudo parece tão exagerado, mas precisamos passar por um momento de refração, de introspecção, antes da reflexão indiscriminada de nossos falsos moralismos, raios brilhosos que mais ofuscam do que clareiam.
Qual é a qualidade de vida de um estudante de medicina? O internato é entendido em sua totalidade? Não sei, mas acho que o internato é o filho-problema do curso médico. O assédio moral aos estudantes é bastante observado, não só aqui como no Haiti também! Sem dúvida, o internato é uma etapa essencial para a formação de um “corpo médico”, mas creio que a metodologia empregada precisa de uma reestruturação. Do contrário, os moldes atuais trarão o jargão da analogia “Médico e Monstro” cada vez mais próximo da realidade cotidiana, em um grau tão elevado, a ponto de o comodismo da sociedade deixar de ser imperativo. Residentes são professores, PEDs, PADs, Pais? Nenhuma das alternativas? Urge, para se consolidar um programa de internato sadio, além de muita coragem, uma integração muito afinada entre docentes e discentes e demais personagens, como preceptores, trabalhadores dos hospitais universitários, enfermagem e demais profissionais da área da saúde. Note, caro leitor, que o meu primeiro questionamento, o estopim deste parágrafo, não foi respondido. Fiz de propósito. Os estudantes de medicina se esquecem que também possuem este direito. Devem estudar muito, serem responsáveis, cuidarem com atenção e dedicação do paciente (queria incluir com amor, mas para muitos isto pode parecer muito forçado, muito impessoal, embora eu pense que só assim seríamos médicos aos moldes de Hipócrates). De fato, devem fazer o melhor que podem, mas devem ter descanso, direito a dormir de maneira a reconfortar seus corpos e sonhos, de ler Guimarães Rosa, de plantar alface, de ligar para o primo, de tomar sorvete, de sair com amigos e não falar de Imunologia ou das últimas sacadas do Dr. House. Que os plantões que nos são exigidos não jogem por terra a tênue homeostasia que aprendemos nas aulas de fisiologia, nas madrugadas com o Guyton ou seu primo mais familiar, Guytinho e seus “genéricos”, ainda mais apetitosos. Os pupilos de medicina precisam de momentos em que reflitam sobre o curso, sobre a complexidade do processo saúde-doença, das questões de mercado que interferem em sua atuação, na ambivalência do ser humano, no desafio da dor e da morte, na elaboração de lutos, no controle da impulsividade, da agressividade, em síntese, do reconhecimento de que não são médicos, mas estão em via de tornar-se um, e este “tornar-se” engloba aprendizagem, erros e acertos. Estamos em construção. Os estudantes de medicina precisam de um retorno ao singelo, ao simples que aguça os sentidos e dá um significado à dedicação exercida, que é muitas vezes incompreendidamente vista como uma obrigação.
Fecho este texto dizendo que o luto dos formandos da UEL, no dia que seria, talvez, o mais alvo de suas vidas, é a antítese que caracteriza a formação médica que esquece o estudante pelo caminho. Claro que tudo é passível de exceções. As generalizações são por si só incompletas e obtusas quanto o papel resolutivo que representam. O corporativismo que atravanca a prática da ética e as punições exemplares são táticas tão medievais quanto fazer de internos, curandeiros, e de hospitais, tavernas. Aqui as palavras cessam, não as dúvidas.
(Texto publicado em "O Patológico" - Jornal do CAAL da Unicamp - em Janeiro 2009)
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