sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O saco ou a embira

Alguns meses atrás, decidi que iria fazer da minha agenda da Unicamp um verdadeiro bloco de notas. Iria registrar as preciosidades da fala de minha pequena cidade, a pacata São Roque de Minas. Fazer das palavras um mote em si mesmas. E para estrear neste sertão, começo pelo ditado “o saco ou a embira”, expressão usada para se descrever alguém ou uma situação de impasse, em que se urge a necessidade da decisão. A pequena estória abaixo, iniciada, mas não concluída, tenta dar uma demonstração darvida desta expressão, que pulsa no vocabulário de poucos, mas que guarda sua utilidade na fala humilde do interior mineiro.

O saco ou a embira

Maria devia escolher. A situação estava insustentável. As noites sem sono. A vida sem sal. O gosto pelo novo, inexistente. Não era certo o que estava fazendo. A manutenção deste estado de nervos teria dois fins, todos os dois trágicos e presumíveis. Sua resposta era sempre o silêncio e a espera. Remoia-se internamente, mas sabia esconder suas instabilidades. Mas a escolha era uma questão de tempo, inevitável por recursos possíveis até então. Era o saco ou a embira. O que ela escolheria?

Agia de forma teatral. No seu rosto, os contornos moldados pelo tempo e pelo frio vento do outono, tinham uma resposta única para tudo que sucedia ao seu redor. Era só e não contava com o auxílio de ninguém para escolher. Era por si, e as si se safaria. Encarava o desafio com os olhos cavernosos, duas esmeraldas encravadas em uma rocha intacta, de lapidação descarecida. Nos lábios repousava um tremor contínuo e imperceptível aos olhos da pressa. Quem a conhecia não imaginava o quanto lidava com destreza com sua profunda dúvida.

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