sábado, 28 de fevereiro de 2009

Trocando as mãos pelos pés

“You cannot find peace avoiding life” – Virginia Woolf

Findam-se as férias. Novos e velhos acontecimentos se entrelaçam. Reencontros e encontros primogênitos. Coisas passadas e pensamentos futuros se misturam nas estórias que contamos e nos contamos. E o presente? Onde posso encontrá-lo senão nos rodapés da TV, a uma velocidade superior a da luz, da luz de meu entendimento! É de uma das notícias destas férias, que teço o corpo deste texto. Mais do que de um fato, o texto possui consonância com uma promessa feita a mim mesmo, a de me tornar uma pessoa mais, digamos “em dia” com os dias que se passam, e se possível, procurar recantos, “descansos na loucura”, para refletir sobre os transcorridos. Essa coluna de reflexão, a prometida, versará sobre a mais nova e versátil função atribuída a um velho conhecido dos pés: os calçados.


Nem os candidatos do American Inventors pensariam em alguma coisa tão genial e tão singela. Quem diria, um sapato ser a mais nova bandeira de contestação e repúdio ao conformismo generalizado. A ação de jogar sapatos, um insulto gravíssimo no Oriente Médio, disse mais do que muitas manifestações juntas. Se nossos pés não podem chegar até aonde sonhamos, os sapatos o podem. A montanha foi a Maomé, e os sapatos chegaram a alguns centímetros de Bush Jr. Imperceptíveis são as asas das vestes dos pés! Mas mira afiada, isso só é adquirido com o tempo, anos de experiência! O tiro no alvo? O acerto? São exigências em demasia, oriundas de um mundo em que até a indignação é medida em tabelas de eficiência e “repercutibilidade”.


Altas novidades sobre o mundo calçadístico. Parece que cientistas alemães, pesquisadores ergonométricos, haviam criado um calçado que é perfeitamente acoplado ao formato dos pés do dono, e acreditem, pode até respeitar uma exigência fisiológica dos pés, sobretudo dos pés infantis, a do crescimento. Um calçado que além de confortável, cresce junto com os pés! Ouço aplausos? Observo num canto da sala, um grupo entre cochichos: afirmam o potencial repressivo desta invenção. Como repressivo, se pés e calçados crescem “a par e passo”? Uai, se o diálogo entre pés e sapatos for tão eficiente assim, quem os tirará dos pés? E o sapato como arma de protesto? Uma idéia de sucesso já nasceria caduca. Ciências Naturais e Sociais urgem um diálogo, de pés juntos.


Mas não é que até a crise mundial assolou o mundo dos calçados? Não inventaram ainda os calçados blindados! Esse calo, os podólogos não podem resolver. E os apelos de Lula em sua “Ode ao Consumo”? Talvez algumas cócegas nos pés mais “saidinhos” às compras. Acho que a “jogada de marketing” ideológica mundial, perpetrada por um jornalista, dê novos horizontes a um que na atualidade se demonstra tenebroso. Aos meus amigos de Franca, desejo dias melhores e sorte no basquete!


Outra questão que me inquieta é a seguinte: tudo bem, as pessoas descem dos tamancos, observam o espaço, fixam o foco de revolta, dirigem o calçado para sua nova localização estratégica, uma das mãos, preparam, apontam e adeus alpercatas? Eu acho que sou mais tradicionalista. Faria como o Sr. Alves. Não conhecem o dito-cujo? Pessoalmente eu também não, mas queria muito ter visitado-o quando estive em Fortaleza, na ocasião de um congresso da DENEM nestas férias, se tivesse passado pela Av. Engenheiro Santana Jr., próximo ao viaduto que atravessa a Av. Santos Dumont, no bairro de Papicu. Sr. Alves é um sapateiro-artista e faz dos muros vazios e das palavras sertanejas a fonte de suas exclamações sobre o mundo, de poéticas a políticas, de senis a infantis. Admira-me muito um profundo conhecedor da arte calçadística não ter patenteado a idéia estreada no alvo mais desejado do mundo. Sr. Alves tem um “pensamento arbóreo”, a sombra de um pé de castanhola, plantada por si, faz pequenos consertos e grandes reflexões sobre a vida. Tentarei fazer o mesmo, não ignorar a vida. O título que minha grande amiga Thais usou em seu texto, no Pato de fevereiro, deu-me a idéia de se criar uma pergunta: a cabeça pensa onde os pés pisam, e age onde os sapatos alcançam? Talvez em um mundo em que as palavras sejam subnotadas, talvez eu e Sr. Alves percamos a chance de sermos ouvidos e a segunda parte da pergunta se torne um axioma.


Finalizo com um “causo de família”: um dia, meu tio, nascido em berço destoante ao do tipo narrado no Hino Nacional, disse-me que ganhou seu primeiro calçado aos 18 anos. Uma botina ao trabalho e aos passeios destinada. Fiquei pensando: a maturidade, que a poucos ainda resta, anda ultimamente nas páginas dos jornais, voando pelos ares. Entre palavras e calçados, escolho as primeiras, precisam ser polidas, mas não engraxadas.


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