
Lendo o livro "Desenveredando Rosa", encontrei uma parte muito interessante que analisa o burrinho pedrês, personagem de um conto homônimo do livro Sagarana, de Rosa. O texto compara as características do burrinho com as do sertanejo. Para comprovar estas semelhanças, o personagem de Rosa tem suas características comparadas às qualificações dadas aos sertanejos pelo escritor Euclides da Cunha, no livro "Os Sertões".
As duas obras possuem fragmentos muito interessantes. Aproveitarei de alguns para escrever algumas linhas, uma terapia cotidiana, minhas aventuranças pela escrita. Começarei por fragmentos do desenveredando e em seguida passarei aos d'Os Sertões. O que não está em negrito é de minha autoria!
"Burros, como sertanejos, são ladinos:desenvolvem, em relação ao mundo, aquela inteligência que suscita os enigmas de uma língua desconhecida - eles "desentendem", "entr'entendem", lendo-os nos ritmos, nos silêncios e nos intervalos, mais do que nos conteúdos e nos preceitos positivos da experiência das suas andanças. O essencial mostra-se nas margens". Esta última frase ficou martelando no meu pensamento. "O essencial mostra-se nas margens". Isso nos permite concluir que a observação pura e simples de um contexto, por mais superficial que achemos, pode trazer grandes descobertas. E pela casca que se sabe a maturidade do fruto. É pela margem do rio que se sabe o quanto sua vida ainda é preservada. Realmente as margens dizem muito, falam muito das essências. Deixam-nas caminhar destrambelhadas até o toque de recolher das censuras.
"Se as coisas aparecem na sua concretude elementar, não são elementares, nem simples, as tramas nas quais esses elementos se entrelaçam". Por mais simples que nos olhos parecem julgar um outro, o pensamento de outro ou qualquer que seja o julgamento aferido pelas nossas sensações referentes ao mundo que nos cerceia, temos a rotineira impressão de simplificar tudo. O ser humano vive em busca de ferramentas que simplifiquem, para compreender em sua sede de entendimentos os mecanismos, a máquina do mundo. Contudo, se julgamos tudo tão simples, esquecemos de um fato: o simples não está separado. Se o enxergamos como tal é porque nossos olhos estão cegos aos laços e interligações que teiam as relações entre os "simples".
"Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas". O homem sertanejo não anda em linha reta. Os morros ensinaram a seus pés que o vacilo é recorrente. Traçar caminhos em um chão já moldado e remoldado pelas artimanhas dos tempos e temporais, isso não é tarefa humana, ainda mais sertaneja. Ao homem do sertão restou suas habilidades de tangenciar, de tanger as criações e os sentimentos impulsivos. Desde criança já frequenta o labirinto da caatinga espinhenta. Aprende, na mocidade, a serpentear na aridez em busca da água, escassa, e o de-comer, cravado no solo árido ou nas selvagens caçadas.
Existe uma oposição burro-cavalo que Rosa parece derivar da comparação que Euclides da Cunha traça entre o sertanejo e os orgulhosos cavaleiros do sul. (...) O burrinho é o perfeito reflexo dessa vida acuada, na qual só sobrevivem os que têm a calma esperteza de aprovietar qualquer mometo para descansar e qualquer meio para repor as forças, no meio do turbilhão de dificuldades que ameaçam moê-lo. Ser burro ou cavalo, eis a questão? A paciência é uma dádiva do primeiro. Os fortes ímpetos, do último. Em que momentos ser um, em quais ser o outro?
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