domingo, 16 de maio de 2010

Interioridades...


Foi lendo INDEZ, de Bartolomeu Campos Queirós, indicação de uma senhora que conheci no Rio de Janeiro, que revisitei minha vida no interior de Minas Gerais. As palavras deste autor, tão cheias da vida mineira cristalizada como o acúcar nas quitandas dos cafés da manhã fartos e fortes...

INDEZ, o ovo que dá a direção, que resguarda a vida do ninho, a referência do choco...

Talvez, com este livro, Bartolomeu colocou um pouco de seu cerne, que de certa forma, sinto-me um tanto quanto contemplado com alguns dos olhares presentes na prosa leve deste meu conterrâneo.

Divulgo dois trechos deste livro, que indico aos mineiros em busca de reviver uma saudade das Minas Gerais, e aos não-mineiros, para que compreendam o saudosismo que os mineiros carregam para todas as terras por onde passam, mesmo as mais receptivas!!!

Do livro de Bartolomeu Campos Queirós, INDEZ, cito:

"Na escola a professora ensinava leitura. Foi sem esforço que o menino aprendeu. Ele já conhecia que entre as letras e seus silêncios podia-se saber muito mais longe. Era possível viajar mundos distantes. Mundo que o olhar não alcançava, mas o livro trazia. E daí, para Antônio escrever, bastou ter apenas um lápis".



"Não sei quantos anos se passaram. Sei que continuo recebendo recados de Antônio sempre: - nas tijelas de arroz-doce das estações rodoviárias, na água que cai do sino em dias de chuva, nas caixas de lápis de cor nas vitrines no cheiro do arroz-afogado, no quadrado do sol passando pela janela, nos pés de jabuticabas, nos arco-íris e casamento de viúvas, nos aquários com peixes, nas crianças que cruzam as ruas de uniforme, no chofer que passa dirigindo seu caminhão, no silêncio dos meninos sob marquises, no ovo frito sobre o arroz, nas notícias de nascimentos prematuros, nas rodelas de salame de super-mercados, nas histórias de tatu-bolinha ou de fadas, nos passarinhos do demônio voando em igrejas, nos ratos sem asas, nos cascavéis, nas bandas de música, nos limões, nas ferraduras dos cavalos, no leite das cabras, nas maçãs sem papel roxo, nos ramos de funcho, poejo, erva-doce, nas estações das águas, na estação da seca, nas cigarras cantando no fim da tarde, nos defluxos e coqueluches, no cheiro dos currais, em trilhos e atalhos, em manteiga de cacau nas noites de frio, em retratos de mares, em gosto de lágrima, em galinhas e ninhos, em fogueiras de Santo Antônio, nos domingos de ramos, nos medos de demônios, assombrações, nos aniversários, na visita das abelhas às flores, no cheiro das gemadas, na primeira estrela que eu vejo, no queijo derretido em fatias de bolo, nos estojos de madeira, nos bilhetes recebidos a lápis, em frutas fora do tempo, em cadernos brancos, em diálogos e silêncios, em partidas e chegadas. Não há como esquecê-lo. Mesmo se tento prestar atenção ao meu trabalho, se escrevo com caneta vermelha ou azul, se passa uma formiga ou a sombra de um vôo de pássaro, se olho as nuvens ou relâmpagos, se entro em capelas ou se passeio em parques, Antônio não me deixa. Não sei qual de nós tem mais e do ou qual de nós tem mais amor".



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