Depois de um dia cheio de coisas, para ser sucinto, em um trem de palavras:
Pós-festa-prova-terninho-vascular-bandeco-puccamp-bandeco-blog, resolvi escrever alguns pensamentos que me brotaram durante minhas ruminações no bandejão!
Eis que seguem, em "prosa catártica"
Bandejão
Fim do dia. Todos com suas bandejas na mão. Mãos que sustentam um pouco de tudo: um cansaço como poeira dos móveis, uma fome que modula com o cardápio, uns sentimentos muito misturados que só com a mastigação lenta e articulada se pode ter sabores diferenciados. Em três movimentos, três rostos diferentes, três misturas na bandeja. As mãos como que automáticas oferecem quantidades variáveis de nutrientes e de distanciamentos. No final ainda resta a sobremesa. Dois figos, verdes e doces, embora ainda adstringentes. Combinam com a aridez do fim do dia, um dia que começa com os rumos já delimitados pelo acúmulo do vir a fazer.
Procuro um espaço entre as brancas mesas largas, esporadicamente ocupadas, ora nas pontas, ora nos meios, ora por falantes, ora por apressados a brigar com a comida, que parece fugir da boca, negando a obedecer a pressa cotidiana, inexplicavelmente presente até no suor matinal.
Sento entre os espaços. Não porque me encomodo com as laterais ocupadas. É que espero que a companhia ainda chege. Sim, sentar entre os espaços é uma forma de esperança. A aleatoriedade dos comensais pode vir a ocupar o meu redor, e à partir disso, uma solidão cristalizada pode dar espaço a uma companhia meteórica, cronometradamente ligada ao tempo de órbita gasto entre o garfo e a boca.
Mas as ocupações próximas não me são tidas como transparentes. Logicamente interferem no meu apetite e no meu campo auditivo. Há assuntos inusitados , outros desagradáveis, outros poucos que irrompem o silêncio da mastigação rápida da partida breve. No bandejão, muitas coisas acontecem além do som metálico dos talheres. É lá que se tem os olhos livres, a divulgação das festas, o chá mate que dicotomicamente cria admiradores ou perversos inimigos, a sapiência dos velhos funcionários, as carecas dos novatos calouros, ou seja, é no bandejão que a universidade se desponta em suas mil-faces, ou mil-fomes. Posso observar e meticulosamente concluir que neste pequeno período do dia, entre movimentos tidos como mecânicos e de sobrevivência, a massa que digere o conteúdo da bandeja está também consumindo a solidão.
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