Para Foucault, citado no livro de Benevides sobre "Grupos":
O poder disciplinar engendra
processos de separação microfísica servindo para extrair dos corpos o
máximo de tempo e de forças, conjugando controle de horários, rituais de
higiene, regularização da alimentação etc. A disciplina deve ser
discreta, mas permanente, para que nada escape aos minuciosos códigos
classificatórios. Foucault diz que o processo de acumulação de homens e
de acumulação de capital não pode ser separado.
O que isso tem a ver com o internato? E como os plantões?
Entrometendo no texto:
O poder disciplinar (exercido pelos plantões) engendra
processos de separação microfísica (eu-médico x eu-não-médico) servindo
para extrair dos corpos o máximo de tempo e de forças, conjugando
controle de horários (de sono, de atividades extra-curriculares, de
lazer, de auto-cuidado), rituais de higiene (uso de vestimentas
próprias, modos de cuidado de si e dos outros, modos de ver o andar da
vida de si e dos outros), regularização da alimentação (divisão de
horarios para comer, para lanchar, para dormir) etc. A disciplina deve
ser discreta (estar no currículo, ser "sorteada'), mas permanente (estar
sob a vista do residente, dos enfermeiros, dos técnicos, dos colegas,
dos professores), para que nada escape aos minuciosos códigos
classificatórios (interno bom, que "brilha', interno breaks, quebra-mão e
outras malediscências emitidas pelos "colegas" que não enxergam a luta
pela vida versus a luta pelo diploma ou pelo capital ou mercado).
Foucault diz que o processo de acumulação de homens e de acumulação de
capital não pode ser separado.
Vejamos:
-
A inserção dos plantões noturnos de 12 ou 24 horas no currículo médico
fazem parte da lógica do poder disciplinar, pois de certo modo são
vistos como "meios de modelagem" para uma "certa formação médica" .
-
Os plantões buscam extrair o máximo de nossos "corpos físicos e
intelectuais" como podemos diagnosticar quando ouvimos frases de
corredores que enfatizam a necessidade de responder a demanda das fichas
vindas da porta, as pendências dos pacientes das macas, dos possíveis
pacientes da cirurgia quando estão no seu horário do plantão, sem a
devida supervisão.
De
fato a disciplina é discreta, mas permante, tão discreta que muitos
acabam a confundindo com "pegar mão de PS", ou "não ser breaks", ou
"tocar serviço". Temos a capacidade de "normalizar" o escabroso que é
"fazer uma atenção aquém do que pretendemos para além do que
detestamos".
Os
plantões diurnos são mais estruturados. Mas sempre fui contra a lógica
das 24horas de plantão. Quem gosta MUITO de algo não consegue ficar
fazendo isto 24 HORAS... Gosto muito de ser médico, mas depois de 12
horas, gosto de ser homem, de ser mineiro, de ser filósofo, de ser
poeta, de ser amante, e o ser médico precisa repousar o sono ("dos
justos?")
O
que acontece é que estamos inseridos numa lógica disciplinar em que
linhas de fuga não nos são possíveis, a discussão das folgas pós-plantão
nem são postas como conjecturas num futuro provável...
O
que fica dos plantões noturnos? Além dos destroços que precisam dar
corpo a um dia seguinte de trabalho e estudos, sobram a alegria de um
plantão a menos... Mas não tem nada de positivo? Seria um demagógico se
dissesse não! Há sempre um descanso na loucura, nos disse Guimarães
Rosa, então nesses momentos dos plantões há pontuais momentos de
lucidez, de uma certa força que dá resultados há você e aos pacientes,
mas que potencialmente seria mais viva e operante se o desamparo do
boa-noite cinderela não viesse no badalar das 12 horas...
Fica a pergunta: o que mudará?
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