domingo, 22 de abril de 2012

Aproximações entre a medicina e a filosofia (I)

Foucault traz na obra "Hermenêutica do Sujeito" vários arrazoados teóricos que irão discutir o cuidado de si e as práticas que irão efetivamente torná-lo um acontecimento presente na História humana. Em um dos trechos do livro o filósofo fala da aproximação entre a filosofia e a medicina. São destas considerações que dou corpo aos próximos parágrafos.

Um dos pontos de convergência entre filosofia e medicina reside num sustentáculo comum entre ambas: a noção de páthos. Dentre seus diversos significados, páthos pode ser entendido como paixão ou doença. Esta noção comum tornam medicina e filosofia mía khôra (membros de uma só região, de um mesmo território). Na filosofia, o páthos será visto como uma perturbação, um desarranjo frente às buscas pela verdade impulsionadas pelo desejo humano. Na medicina, o páthos dá lugar a doença, com suas fases e evoluções, que desviam os sujeitos de suas potencialidades.

Para enfrentar o páthos, ambas se basearam na terapêutica (therapeúein). Esta última, também polissêmica por natureza, indica no mínimo 3 direções: 1) terapêutica entendida como a realização de um ato médico em busca da cura ou do cuidar-se; 2) a realização de uma ordem referenciada ao pedido de um mestre, o cumprimento de um afazer e por último, 3) a prestação de um culto a uma entidade. Assim, frente ao páthos, medicina e filosofia engatilham a terapêutica, uma linha de fuga para superar a força negativa da doença/paixão.

Da terapêutica se dará origem aos terapêutas, grupos de filósofos que se isolavam em arredores de Alexandria para propagar o cuidado de si, as técnicas e práticas de si, em busca do cuidado do Ser e da alma. Desta aproximação da terapêutica ao pólo místico e esotérico, pela sombra do cuidado entendido de forma mais ampla, mais espiritual, se dará origem a iátrica (da mesma família da palavra iatrogenia, que denomina as maleficências oriundas dos atos médicos) que representará um cuidado mais corporal, mais ligado à prática médica propriamente dita (embora acredite que a prática médica seja um misto de iátrica e terapêutica!)

Filosofar também é terapêutico!




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