Instigado pelas palavras do Prof. Mehry, proferidas numa palestra no Instituto de Psicologia da USP que acabei de ver, resolvi escrever algumas linhas sobre o tema Molar/Molecular trazido no debate dos desafios do SUS.
Para entender a relação molar/molecular, além dos aportes teóricos que aprofundam as discussões neste tema (fica como indicação de leitura a obra de Félix Guattari, Revoluções Moleculares), parto de um exemplo:
Tomemos como nosso objeto um copo cheio de água. Nele está contido uma infinidade de moléculas de água, compostas de hidrogênio e oxigênio. Contudo, quando estou com sede e solicito a necessidade de ingerir um copo d'água, além das moléculas de água, preciso da molaridade contida no copo d'água - ou seja, de todas as relações existentes entre as moléculas de água que concebem a existência de um estado entre essas moléculas, um arranjo molar, que a torna ingerível, e que comporá com o meu corpo matando a minha sede.
Por este exemplo fica clara a necessidade de tornar-se visível a relação imanente entre os estados molecular e molar. Assim, distancia-se da ideia dicotômica que estes dois conceitos continham, à priori, para entender que o funcionamento de ambos requer uma coextensividade entre seus limites, em algumas situações imperceptíveis ou minoritários.
Cinta de Moebius - Escher
Mas o que estes "conceitos inventados" dialogam com as tensões e os questionamentos que este professor (e eu, por conseguinte) carregamos em nosso "andar a vida"? O que se vê de molecular e molar no entendimento do SUS? Como este agenciamento maquínico (esta ferramenta conceitual, a relação molar-molecular) contribui para dar saltos qualitativos frente às demandas e obstáculos existentes para a construção de um SUS que defenda incodicionalmente à vida de qualquer um como patrimônio social?
Ora, um SUS que se proponha a defender à vida, de ressaltar à diferença do outro como trunfo e auto-defesa das diferenças e multidões que cada vivente carrega em si, prima por articulações molares à fim da construção de uma Grande Política, molecular, não-clonificada, o que o autor discute como "uma política do encontro com o outro que produzirá a diferença em nós", numa luta constante e perpétua contra os modos de vida capitalísticos e fascistas.
Discutir a molaridade das políticas em saúde para a superação do SUS existente, dicotomizado na lógica público-privada dos idos do liberalismo de Robbes e Locke, com a diferença de portar a maquiagem das práticas neoliberalistas correntes, abre campos de luta, linhas de fuga para se pensar novos agenciamentos no campo da produção de saúde e qualidade de vida a todo e qualquer cidadão.
Ter isto em mente é um compromisso ético-político que deve ecoar no trabalho vivo em ato, e que já ecoa, embora seja silenciado pelas práticas capturantes, sintetizadas pelo modo de agir-torturador de muitos profissionais da área da saúde.
Quais são os privados que nos interessam? Se a vida do outro é entendida como um bem privado, o bem mais valioso, trata-se este de um privado a ser defendido? Pensar o que se conceitua por privado é condição vital para se instituir os arranjos de ordem pública e denunciar e execrar práticas de privatição das atividades públicas aumentativas de potência de vida que subsistêm aos agenciamentos mortíferos do neoliberalismo.
Tem-se uma aposta: tal como fez Escher, como sua "cinta de Moebius", que subverte a relação dentro/fora às "retinas de nossas vidas cansadas", acostumados às formigas em planos retilíneos e mal-humoradas com as cigarras, façamos o mesmo com a dicotomia público-privado, munidos da potência molar/molecular como uma ferramenta possível de superação aos impasses enfrentados pelo SUS em sua busca de defender incodicionalmente a vida de todos os cidadãos brasileiros. Uma aposta na diferença, frente à repetição.

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