Prosa entre as janelas laterais, grades e as memórias fugidias
Menino, você precisa de uma empregada?
É, eu vi, mesmo. Ela vem toda semana?
Ela é asseada, limpa os vidros.
Gosto de vidro limpo.
Tô procurando um outro serviço.
Uma intera, sabe?
Não tá fácil...
É eu passo roupa tambem,
Cobro 60 reais o dia.
Eu acho justo.
60 reais e a gente toma água,
come alguma coisa que os estudantes dão...
Acho justo.
Eu sou sozinha, menino.Não tenho filhos, nem marido.
Tinha uma irmã.
Ela morreu faz 15 dias.
Do coração.
Mas a gente não se criou junto.
Me criei com outra familia.
Meu pai não conheci.
Meu pai também já morreu.
Você tem um dinheiro pro meu ônibus?
Não água eu não quero não.
Tem suco?
Você tá estudando?
Já se forma este ano!
Eu trabalho para uns estudantes de medicina.
Eles vivem falando pra eu tomar o remédio da pressão.
Eu tenho Chagas, coração grande, sabe?
Diz nas linguagens deles, dos médicos, coração de-latado.
Eu vou seguir meu caminho.
Vou lá pra cidade,
Passar roupa de uma dona.
Essa aí gosta muito de mim.
Os cachorros dela nem latem quando chego lá.
Vou seguindo menino
Pelejano com a vida
Já pedi até pra Deus me levar
Sou sozinha.
Trabalho muito.
Mas ainda não é minha vez, né.
Agradecida pela atenção.
(e vai-se Isabel, em seus passos arrastados, rumo ao ponto, não ao céu...)
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