terça-feira, 12 de junho de 2012

O discurso e o aquário


Na tentativa de tornar mais concretos e vivos alguns conceitos filosóficos com os quais tenho tido mais contato e familiaridade ao longo de leituras e reflexões de vida no presente momento, procuro transcrever alguns aprofundamentos teóricos alicerçados por comentários e discussões com provocações que me ocorreram neste percurso, íngrime porém liberador pelo horizonte que se desponta à vista.

Foucault, seu pensamento, sua pessoa, de Paul Vayne, será o combustível de muitas das estórias aqui concretizadas por uma espécie de "escrita convulsiva", dedicada à dar movimento aos conceitos que efetivamente carregam em si o encômodo frente ao estático.

Conceito importante foucaultiano que tomo emprestado para a compreensão das redes de disputa tecidas entre o Saber e o Poder é o famigerado "DISCURSO". Aqui, trago uma concepção de discurso que o encara como uma espécie de manobra descritora da realidade, que visa de maneira descritiva, prescritiva e cerceadora, dar corpo a uma formação histórica, à um estado de nudez escancarada a um determinado modo de se construir relações humanas. Não é à-toa que os discursos impregnam as leis penais, a arquitetura das instituições, os costumes com o intuito de formar verdadeiros DISPOSITIVOS ou PRÁTICAS DISCURSIVAS que efetivamente reforçarão a vivacidade do DISCURSO no cotidiano.

Compreender a ideia do DISCURSO parte de um pressuposto: o fato de não se possuir uma verdade adequada das coisas, por se entender que o alcance que se tem de uma COISA EM SI se dá através de uma ideia construída desta coisa em uma dada época (ideia esta que conta, em última análise, com a solidez de um discurso que marmoriza suas bases existenciais). Daí a necessidade de se compreender este alcance enquanto "fenômeno", visto que a COISA EM SI se encontra assoreada pela terrena magnitude do DISCURSO.

Esta forma de se pensar não seria, portanto, pluralista de mais a ponto de desacreditar a existência de verdades que conduziriam a vida humana? O homem sobreviveria a um mundo sem verdades? O homem sobreviveria a este ceticismo?

Não responderei estas questões neste momento. Contudo, venho ponderar que o conceito de DISCURSO e os demais motes que irão dar amplificação à sua problematização, serve para se pensar o quanto as práticas e relações no "andar da vida" estão capturadas por este campo muitas vezes invisível, mas que, ao se empreender uma tecnologia de si que permita dar vida ao DISCURSO e combater a ilusão tranquilizadora referente à adequação humana às suas verdades generalizadoras, aprimora a vivência de relações mais potentes em uma vida ética e politicamente engajada pela busca dos encontros alegres, que reforcem a diferença e as práticas não-fascistas.

Ter em mente que estamos numa redoma de vidro, numa espécie de aquário falsamente transparente, como pensava Foucault à respeito do DISCURSO, permite uma vivência que refute o bombardeio de ideias gerais que apedrejam as retinas de vida cotidianas, que ao longo dos anos, nos vai levando a um estado de amaurose irreversível frente às singularidades e às multiplicidades que, em última análise, compõem com a produção de vida, pela capacidade de captar a individualidade - elevada a seu significado mais positivo - apagando os estereótipos.

Em síntese, o conceito de DISCURSO contruibui para uma empreitada anelídea, rastejante e acrobática, pelas microfissuras, rachaduras e rupturas existentes nas continuidades reguladoras edificadas pela história da origem dos conceitos devindos e à devir.


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