domingo, 19 de agosto de 2012

Alguns Escritos sobre a Ethica de Spinoza - Parte I




Considerações sobre a terceira parte da Ethica de Spinoza – A origem e a natureza dos afetos

Retomo a leitura da Ethica de Spinoza após inúmeros contratempos. Não irei elucidá-los para não estender o dispêndio de tempo do qual já foram causadores. Contudo, é inevitável que no decorrer desta trama textual que ilustra meus desbravamentos pela filosofia de Spinoza, tais dispersões venham deixar marcas de suas repercussões.

Para me familiarizar com a filosofia contida na Ethica, optei por reforçar meu entendimentos dos diversos conceitos que foram semeados nesta obra. À medida em que estes conceitos forem tomando corpo como respondedores às inquietudes da vida cotidiana, procurarei argumentá-los e debaté-los com mais clareza e coesão.

Portanto, este texto será o primeiro de muitos que irão dialogar com os escritos de Spinoza numa tentativa de revisitá-los e utilizá-los para criar novos e outros conceitos, em consonânica com a visão deleuziana de filosofia, com o intuito de se buscar a concretude de uma vida digna de ser vivida. Assim, todos os esforços filosóficos, éticos, estéticos e políticos deste e de outros escritos buscarão responder uma única e inquietante pergunta: o que pode o corpo que vive?

___________


Para Spinoza o ser humano em suas experiências cotidianas, em seu “andar a vida”, pode agir ou pode padecer. Assim, um indivíduo que age, que se encontra em ação, está movido por ideias adequadas. Por outro lado, quem padece está repleto de ideias inadequadas, compreendidas como ideias mutiladas ou confusas.

A ideia adequada é assim considerada por estar em consonância com a ideia de Deus, que é a essência da mente que age, bem como a de todas as outras coisas. Contudo, a mente humana não é dicotômica. É composta portanto de ideias tanto adequadas quanto inadequadas. Assim, quantitativamente, a proporção de cada uma dessas ideias irá modular as repercussões que este homem trará com seus atos. Quando há um predomínio, em quantidade, das ideias adequadas frente as inadequadas, tem-se um indivíduo que age mais. Já a mente que pende a balança ao pólo das ideias inadequadas, será uma mente mais submetida ao padecimento, mais dependente das paixões. Agir ou padecer são efeitos das ideias.

Contudo, quando se discute as ideias e suas repercussões à mente, tende-se a crer que a filosofia de Spinoza irá dicotomizar o ser humano em dois grandes blocos monolíticos – o corpo e a mente. No entanto, Spinoza irá justamente pontuar o contrário: mente e corpo agem ou padecem simultaneamente em seus atos, não são separáveis como feijões e pedregulhos! De acordo com a concepção de análise de uma determinada faceta do ser humano, irá se tomar como mote ora o atributo do pensamento (que irá se debruçar ao entendimento da mente), ora o atributo da extensão (que se dedica ao entendimento do corpo). Pelo atributo do pensamento, entende-se que a mente tem como função pensar. Trata-se de um modo do pensamento, não da extensão do pensamento (derivada do corpo). Pelo atributo da extensão, o corpo é entendido por suas relações de movimento e de repouso, tanto internamente, quanto externamente (ou seja, as repercussões de outros corpos para o movimento ou repouso de um determinado corpo).

Munido desses conceitos, Spinoza rebate ingênuas visões sobre a relação mente e corpo, sobretudo a visão de um corpo “maquinal”, cujas ações e funções são totalmente dominadas e dependentes do controle da mente. Avançando nesta discussão, o filósofo também se interroga de maneira categórica sobre as possibilidades munidas no corpo. O que pode o corpo? O que os sonâmbulos ou os sonhadores, conhecidos da vida prática, podem nos ajudar a desvendar com relação ao emaranhado que une o corpo e a mente? Primeiramente, pode por em xeque nossas ideias simplistas de causa e efeito, por exemplo. Além disso, pode-se propor também que não exista uma relação de dominação entre a mente e o corpo (a primeira como controladora e subjulgadora da segunda), ao se entender que o corpo tem uma natureza que procede de infinitas coisas. Dessa ruptura da ideia de dominação, tem-se por conseguinte o esfacelamento de outros conceitos como o livre decisão da mente, por exemplo, que abordarem ao longo de outros textos.

Nesse contexto Spinoza arremata com clareza e prontidão: “(...) aqueles, portanto, que julgam que é pela livre decisão da mente que falam, calam ou fazem qualquer outra coisa, sonham de olhos abertos”.

_________

Recaptulando, Spinoza acredita que a mente apresente uma determinada essência, sendo esta entendida como um conjunto de ideias (que podem ser adequadas ou inadequadas, ou uma mistura de ambas) de um corpo existente em ato, que o compõe como uma coisa singular, ou seja, modos pelos quais os atributos de Deus exprimem-se de uma maneira definida e determinada, capaz de expressar uma potência de Deus, de duração indefinida (pois seu fim não está contido na essencia de si, mas na interação com outra ou outras coisas singulares de natureza contrária que visem destruí-la), visto que as coisas singulares se esforçam para perseverar em seu ser, em sua existência. Uma enxurrada de conceitos que merecerão melhor explanação neste e nos demais textos.

Assim, tem-se que a paixão fragmenta a mente, que não consegue ser entendida sem ser correlacionada com as demais partes que a compõem.

Com relação ao esforço de perseverar em si, que se relaciona com a potência que as coisas singulares exprimem, retomo o detalhamento, nas palavras de Spinoza: “a potência de uma coisa qualquer, ou seja, o esforço pelo qual, quer sozinha, quer em conjunto com outras, ela age ou se esforça por agir, isto é, a potência ou o esforço pelo qual ela se esforça por perseverar em seu ser, nada mais é do que sua essencia dada ou atual de uma coisa.

Em síntese, Deus com seus atributos permite a existência de uma coisa singular (A) que exprime sua essência atual por intermédio de sua potência, isto é, pelo esforço de perseverar em si, seja ao agir ou ao padecer, por um tempo indefinido, que será determinado pelas relações que esta coisa singular (A) irá ter com uma coisa singular (B) de natureza contrária que irá, por intermédio de uma causa externa, destruir a coisa singular (A). Este esforço que compreende a potência é consciente, devido às ideias das afecções do corpo que o constituem.

Aprofundando a ideia do esforço, Spinoza conceitualiza a vontade quando a mente conduz ao esforço. Já o esforço conduzido tanto pelo corpo quanto pela mente é conceitualmente chamado de apetite. E para Spinoza, apetite e desejo são conceitos similares e intercambiáveis, a não ser por um adendo: o desejo trata-se de um apetite consciente. Assim, o apetite estará intimamente ligado à essência do homem cuja natureza persegue a sua conservação.

Pelas palavras do filósofo, repasso um trecho espantoso, cuja intensidade me fez retomar nesta travessia pelo sertão da Ethica: “O desejo é o apetite juntamente com a consciência que dele se tem. Torna-se, assim, evidente, por tudo isso, que não é por julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos, que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la, que a julgamos boa”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário