Considerações sobre a
terceira parte da Ethica de Spinoza – A origem e a natureza dos afetos
Retomo a leitura da
Ethica de Spinoza após inúmeros contratempos. Não irei elucidá-los
para não estender o dispêndio de tempo do qual já foram
causadores. Contudo, é inevitável que no decorrer desta trama
textual que ilustra meus desbravamentos pela filosofia de Spinoza,
tais dispersões venham deixar marcas de suas repercussões.
Para me familiarizar com
a filosofia contida na Ethica, optei por reforçar meu entendimentos
dos diversos conceitos que foram semeados nesta obra. À medida em
que estes conceitos forem tomando corpo como respondedores às
inquietudes da vida cotidiana, procurarei argumentá-los e debaté-los
com mais clareza e coesão.
Portanto, este texto será
o primeiro de muitos que irão dialogar com os escritos de Spinoza
numa tentativa de revisitá-los e utilizá-los para criar novos e
outros conceitos, em consonânica com a visão deleuziana de
filosofia, com o intuito de se buscar a concretude de uma vida digna
de ser vivida. Assim, todos os esforços filosóficos, éticos,
estéticos e políticos deste e de outros escritos buscarão
responder uma única e inquietante pergunta: o que pode o corpo que
vive?
___________
Para Spinoza o ser humano
em suas experiências cotidianas, em seu “andar a vida”, pode
agir ou pode padecer. Assim, um indivíduo que age, que se encontra
em ação, está movido por ideias adequadas. Por outro lado,
quem padece está repleto de ideias inadequadas, compreendidas
como ideias mutiladas ou confusas.
A ideia adequada é
assim considerada por estar em consonância com a ideia de Deus, que
é a essência da mente que age, bem como a de todas as outras
coisas. Contudo, a mente humana não é dicotômica. É composta
portanto de ideias tanto adequadas quanto inadequadas. Assim,
quantitativamente, a proporção de cada uma dessas ideias irá
modular as repercussões que este homem trará com seus atos. Quando
há um predomínio, em quantidade, das ideias adequadas frente as
inadequadas, tem-se um indivíduo que age mais. Já a mente
que pende a balança ao pólo das ideias inadequadas, será
uma mente mais submetida ao padecimento, mais dependente das
paixões. Agir ou padecer são efeitos das ideias.
Contudo, quando se
discute as ideias e suas repercussões à mente, tende-se a crer que
a filosofia de Spinoza irá dicotomizar o ser humano em dois grandes
blocos monolíticos – o corpo e a mente. No entanto, Spinoza irá
justamente pontuar o contrário: mente e corpo agem ou padecem
simultaneamente em seus atos, não são separáveis como feijões
e pedregulhos! De acordo com a concepção de análise de uma
determinada faceta do ser humano, irá se tomar como mote ora o
atributo do pensamento (que irá se debruçar ao entendimento
da mente), ora o atributo da extensão (que se dedica ao
entendimento do corpo). Pelo atributo do pensamento,
entende-se que a mente tem como função pensar.
Trata-se de um modo do pensamento, não da extensão do pensamento
(derivada do corpo). Pelo
atributo da extensão,
o corpo é entendido por suas relações de movimento e de
repouso, tanto internamente,
quanto externamente (ou seja, as repercussões de outros corpos para
o movimento ou repouso de um determinado corpo).
Munido
desses conceitos, Spinoza rebate ingênuas visões sobre a relação
mente e corpo, sobretudo a visão de um corpo “maquinal”, cujas
ações e funções são totalmente dominadas e dependentes do
controle da mente. Avançando nesta discussão, o filósofo também
se interroga de maneira categórica sobre as possibilidades munidas
no corpo. O que pode
o corpo? O que os
sonâmbulos ou os sonhadores, conhecidos da vida prática, podem nos
ajudar a desvendar com relação ao emaranhado que une o corpo e a
mente? Primeiramente, pode por em xeque nossas ideias
simplistas de causa e efeito,
por exemplo. Além disso, pode-se propor também que não exista uma
relação de dominação
entre a mente e o corpo (a primeira como controladora e subjulgadora
da segunda), ao se entender que o corpo tem uma natureza que procede
de infinitas coisas. Dessa ruptura da ideia de dominação, tem-se
por conseguinte o esfacelamento de outros conceitos como o livre
decisão da mente, por exemplo,
que abordarem ao longo de outros textos.
Nesse
contexto Spinoza arremata com clareza e prontidão: “(...) aqueles,
portanto, que julgam que é pela livre decisão da mente que falam,
calam ou fazem qualquer outra coisa, sonham de olhos abertos”.
_________
Recaptulando, Spinoza
acredita que a mente apresente uma determinada essência,
sendo esta entendida como um conjunto de ideias (que podem ser
adequadas ou inadequadas, ou uma mistura de ambas) de um
corpo existente em ato, que o compõe como uma coisa singular,
ou seja, modos pelos quais os atributos de Deus exprimem-se de uma
maneira definida e determinada, capaz de expressar uma potência de
Deus, de duração indefinida (pois seu fim não está contido na
essencia de si, mas na interação com outra ou outras coisas
singulares de natureza contrária que visem destruí-la), visto que
as coisas singulares se esforçam para perseverar em seu ser, em sua
existência. Uma enxurrada de conceitos que merecerão melhor
explanação neste e nos demais textos.
Assim, tem-se que a
paixão fragmenta a mente,
que não consegue ser entendida sem ser correlacionada com as demais
partes que a compõem.
Com
relação ao esforço de perseverar em si,
que se relaciona com a potência
que as coisas singulares exprimem, retomo o detalhamento, nas
palavras de Spinoza: “a potência de uma coisa qualquer, ou seja, o
esforço pelo qual, quer sozinha, quer em conjunto com outras, ela
age ou se esforça por agir, isto é, a potência ou o esforço pelo
qual ela se esforça por perseverar em seu ser, nada mais é do que
sua essencia dada ou atual de uma coisa.
Em
síntese, Deus com
seus atributos
permite a existência de uma coisa singular
(A) que exprime sua essência atual
por intermédio de sua potência,
isto é, pelo esforço de perseverar em si,
seja ao agir ou ao padecer,
por um tempo indefinido,
que será determinado
pelas relações que
esta coisa singular (A) irá ter com uma coisa singular (B) de
natureza contrária
que irá, por intermédio de uma causa externa,
destruir a coisa singular (A). Este esforço que compreende a
potência é consciente,
devido às ideias das afecções do corpo que o constituem.
Aprofundando
a ideia do esforço,
Spinoza conceitualiza a vontade
quando a mente conduz
ao esforço. Já o esforço conduzido tanto pelo corpo
quanto pela mente é conceitualmente chamado de apetite.
E para Spinoza, apetite e desejo são conceitos similares
e intercambiáveis, a não ser por um adendo: o desejo
trata-se de um apetite consciente.
Assim, o apetite estará intimamente ligado à essência do
homem cuja natureza persegue a
sua conservação.
Pelas
palavras do filósofo, repasso um trecho espantoso, cuja intensidade
me fez retomar nesta travessia pelo sertão da Ethica: “O
desejo é o apetite juntamente com a consciência que dele se tem.
Torna-se, assim, evidente, por tudo isso, que não é por
julgarmos uma coisa boa que nos esforçamos por ela, que a queremos,
que a apetecemos, que a desejamos, mas, ao contrário, é por nos
esforçarmos por ela, por querê-la, por apetecê-la, por desejá-la,
que a julgamos boa”.

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