domingo, 9 de setembro de 2012

Clínica e Biopoder

Hoje, encontrei mais um daqueles textos que quando lidos o título não conseguimos ignorá-los. 
Não me lembro do título na íntegra mas trazia duas palavras marcantes para mim: Clínica e Biopoder. 
Dois conceitos com os quais tenho atravessado páginas e páginas de leituras, conceitos que tento trazê-los vivos nos meus atos cotidianos, mais precisamente, nos muros do hospital em que findo a minha formação médica, neste ano, no nível da graduação.

O texto trazia apontamentos frente a contemporaneidade, em que se dizia que este período histórico era marcado pela necessidade de uma situação crítica, que nos impulsiona ao exercício crítico do instituído, bem como a urgência pela experiência de crise. Para tanto, o conceito de Clínica não podia ficar limitado a sua origem etimológica que notadamente ilustra o ato de se inclinar, de se debruçar frente ao leito que porta um paciente enfermo. Exige-se, portanto, um novo entendimento da Clínica, ou mesmo a busca de uma nova Clínica.

A Clínica da contemporaneidade embora mantenha elementos originais do processo de se inclinar perante ao enfermo, desenvolveu  a tendência de se inclinar inclusive perante ao seu próprio processo de produção. Em outras palavras, a Clínica contemporânea se dá na produção de um desvio. Neste desvio reside a necessidade de se habitar em um terreno em produção, em construção, portanto uma utopia (de u-topos, de um não-lugar, um lugar por vir, um devir). A prática do desvio, ato desta Clínica, compreende o compromisso com os processos de produção de subjetividade, estes capazes de tecer resistências (ou repetir capturas) de acordo com as formas de se operar frente a malha fina e imperiosa do Biopoder.


Michel Foucault - filósofo francês cuja obra ainda se mantém viva para o entendimento da Clínica contemporânea


Assim, para entender os agenciamentos necessários para dar vida a esta Clínica, Foucault nos apresenta o conceito de Micropolítica, entendido como o plano de engendramento das palavras e das coisas, que versa de maneira categórica com a potencialidade política que germina da postura de se encarar a Clínica como produtora de desvios.

No plano da Micropolítica, cabe lembrar a necessidade de se entender as mudanças estruturais em que as sociedades foram expostas entre os séculos XVIII, XIX e XX. Passa-se de uma Sociedade disciplinar, cuja instituição principal é a prisão, um espaço estriato, que deixa suas marcas e molda os corpos frente as leis, normas e condutas que lhes são típicas e vitais para uma outra forma de se entender a sociedade, que não mais adjetivada de disciplinar recebe a alcunha de Sociedade de Controle, espaço liso, em que as modulações reguladoras imperiantes são voláteis e esfumaçadas, terreno em que o controle se apossa cada vez mais profundamente da vida, de sua privacidade, em seus mínimos detalhes, de maneira praticamente "invisível" aos olhos pouco atentos. Sociedade de controle que irá inclusive alterar conceitos essenciais como os de "vida", ao implementar a Biopolítica, um dos braços do Biopoder, o poder que se imprime de frente à vida. 

Um breve mergulho de uma leitura que tenta concatenar algumas das implicações dos estudos foucaultianos ao entendimento da Clínica. Um oceano ainda de águas turvas e ondulantes. Só não me falta fôlego!

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