segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Meninos da Candelária


(Poema oriundo da tentativa de metabolizar uma peça teatral do FEIA - Festival do Instituto de Artes (www.feia.art.br) - entitulada "Agora e na hora de nossa hora", de Eduardo Okamoto, que muito me resgatou dos desafios da vida. Revendo um Menino da Candelária, lembrei da Menina do Viaduto Cury, os Meninos do Spina e outros tantos que vivem entre as pedras do caminho...)

Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedra
vivem os meninos da Candelária

São pequenos,
raquíticos,
meninos farrapos,
perambulantes entre os cascalhos,
os passos lisos dos solos paroquiais.

À noite,
os ratos dialogam
com os Meninos da Candelária
E a escura e fria,
transição dos dias,
fica clara,
entre isqueiros e pedras,
quando a lata queima
pesadelos e dores
fumados repetidamente,
de segunda a sexta-sempre
raticida vida,
dos Meninos da Candelária

Orações mudas aos meninos,
marmitas repletas,
roupas rasgadas,
sonhos dormentes,
vidas explosivamente cristalizadas
como pedras
no couro dos Meninos da Candelária

Eis que num dia,
como outrora,
em epifanias,
raja dos céus,
as balas encontradas,
a carne queimada por tiros,
a língua cortada por tiros,
os sonhos dormentes,
os gritos pertinentes,
nada mais rasga a noite
dos Meninos da Candelária

Entre cruzes de pedras,
entre as lápides de pedra,
entre os fumos das pedras,
repousam,
sangue e sonhos,
dos Meninos,
da sanguínea Candelária.


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