Em mais uma de minhas incursões no mundo da psicanálise, em minhas leituras de "O livro da dor e do amor" de J. D. Nasio, resolvi tecer alguns comentários sobre a dor dita inconsciente.
Confesso que o texto psicanalítico não é fácil em compreensão. Daí , pensei em escrever em algumas linhas o que pude compreender do material que li. Talvez o fruto desta análise seja diverso do intuito do autor, pois meu conhecimento nesta seara é ainda bastante limitado. Tentarei repousar as minhas idéias em linhas. Vejamos as considerações:
O autor descreve a dor inconsciente como "um circuito impresso por uma dor sentida, reativado por uma excitação ocasional e manifestado enfim por uma outra dor sentida".
Esse circuito fechado é composto pelas seguintes estruturas:
D1 --> R--> D2, onde:
D1: dor da comoção, dor muito intensa.
R: ativação do rastro inconsciente.
D2: nova dor, dor de hoje ou distúrbio da vida cotidiana.
Assim, uma pessoa que tenha uma dor após ser submetida a uma situação estressante que de alguma forma consiga tocar, por mais tenuamente que seja, na memória de uma dor anteriormente sofrida, cuja memória fotográfica, mnêmica, reside no seu inconsciente, pode então ter a dor de hoje classificada como dor inconsciente.
"É o conjunto desse circuito reativável, subtraído à nossa consciência, que se chama dor inconsciente".
A dor inconsciente seria fruto de "um encadeamento desconhecido de acontecimentos, que resulta na dor que eu vivo hoje". O componente "desconhecido" nesta asseveração é muito interessante. A dor corporal de hoje, que sinto e consigo definir com riqueza de detalhes, é uma companheira sem "origens conhecidas". A pessoa que a sente não consegue, a priori, construir nexos causas para a origem da sensação dolorosa em si.
Daí se observa que "a dor inconsciente só existe depois do aparecimento da dor de hoje e só se poderia deduzir a existência da dor inconsciente retroativamente, a partir dos primeiros balbucios da minha dor atual". Ou seja, a confirmação de uma dor inconsciente se faz de maneira inversa. Usando-se do diagrama, partimos de D2 e seguimos rumo a D1. Isso nos indica que a dor inconsciente antes de tudo deve ser uma presença do hoje, não um rememoramento puro e simples e aflições passadas.
O autor se pergunta: "O que é essa volta ao passado, senão o gesto de quem escuta o enigma da dor?" Na busca de mais compreensão da dor, a escuta se faz necessária. A dor para ser entendida, ter sua origem compreendida e interpretada, deve portanto, ser submetida a uma análise. Interrogo-me se este conhecimento é de domínio público.
Falamos de nossas dores? Escutamos a dor de quem nos cerca? Ou apenas a silenciamos?
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